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Quatro gerações sob o mesmo teto: caos, aprendizado ou oportunidade?

  • velhicesemmedos
  • 26 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura
Foto: DarioGaona
Foto: DarioGaona

Acredito que nunca se exigiu tanto de uma geração como tem sido exigido da nossa — todos os que hoje se encontram na fase da meia-idade. Somos dos mais impactados pelos avanços tecnológicos e, ainda que aturdidos por essa realidade, exigem-nos também equilíbrio de malabaristas dentro de uma família multigeracional.


Você já deve ter ouvido falar da geração sanduíche, assim chamada principalmente em referência às duas fatias do pão que compõem o lanche. Pois é... caso ainda não saiba, essa geração somos nós: pais e mães de filhos jovens, adolescentes e, em alguns casos, até mesmo crianças; nós: avôs e avós; e ainda nós: filhos e filhas de pais e mães cuja vida se estendeu para além do imaginável até pouco tempo atrás.


Quem está lá na casa dos seus oitenta ou noventa e tantos anos já tá com o álbum de figurinhas quase completo. É fato que essas pessoas já viram muita coisa na vida. Mas nós, que hoje avançamos pela fase da meia-idade, vivenciamos um número de novidades infinitamente maior — e numa velocidade e espaço de tempo sem qualquer possibilidade de comparação.


Como se já não bastasse, não tivemos o conforto de assistir a tudo isso de camarote. Ao contrário: estávamos ali na pista, de onde fomos abruptamente atropelados. Nessa situação, nos vi naquela condição de dirigir e trocar o pneu ao mesmo tempo, aprendendo na marra o real significado de desafio, adaptação e resiliência.


Recheio


A realidade é que hoje as famílias ganharam uma configuração muito diferente. Às vezes são 3 gerações (não tão raro até 4) convivendo num mesmo espaço físico. Juntas, porém não muito misturadas — pelo menos no que diz respeito a valores, interesses e preocupações. É nesse contexto que nós, da meia-idade, temos sido levados a assumir uma posição das mais desafiadoras.   


Mas voltando ao sanduíche: esse grande grupo de homens e mulheres que está na fase da meia-idade se vê hoje numa convivência estreita com duas gerações que nada têm em comum. De um lado, velhos com os olhos voltados para o retrovisor e os desafios da velhice; de outro, jovens em velocidade acelerada rumo ao futuro.


A convivência com esses dois polos geracionais faz com que o nosso grupo de meia-idade assuma a nada fácil tarefa de ser o recheio. Sim, nada fácil — porque recheio que se preza é generoso, saboroso e tem o poder de se espraiar uniformemente por toda a superfície dos dois polos que lhe dão sustentação (sejam pães, biscoitos ou massas).


Foto: EasyBuy4u
Foto: EasyBuy4u

Sem os atributos mencionados, o sanduíche corre o risco de desintegração ou de ser consumido de forma que nenhuma das suas partes consiga obter, isoladamente, a aprovação dos paladares. É dessa forma que vejo como fundamental — e desafiadora — a boa condução de uma família multigeracional, aquela onde convivem avós, filhos e netos (algumas vezes também bisnetos).

 

Time


Tão importante e salutar é a convivência entre pessoas de gerações diferentes que as empresas têm percebido como oportunidade aquilo que insistimos em ver como problema. Se times compostos de pessoas de diversas gerações são, no final das contas, capazes de potencializar resultados e lucros no universo empresarial, o que esses mesmos times não têm para oferecer quando, entre tantas outras coisas, somam-se afeto e cumplicidade nas relações?


Hoje, para onde quer que se vire, nos deparamos com famílias enfrentando o desafio da boa convivência entre gerações. A vida está mais complexa. Muitos serviços se tornaram imprescindíveis — educação e formação continuada, moradia, saúde, transporte, internet, a velhice dos pais e suas demandas, entre outros.


Nesse contexto, muitas famílias viram-se obrigadas a racionalizar melhor os seus recursos, sendo o tempo, o espaço e o dinheiro os mais importantes. Somado a esse cenário, os relacionamentos também se esgarçaram, e hoje há uma profusão de situações protagonizadas por homens e mulheres com as suas histórias pessoais — muitas vezes não bem sucedidas — de múltiplas uniões e filhos não planejados.


E eis que as dificuldades, se muitas vezes não unem, ao menos reúnem. Então, toda a fauna geracional de um mesmo sobrenome se vê convivendo sob um mesmo teto: crianças, adolescentes, jovens, adultos, os da meia-idade e os idosos. Caos, torre de Babel ou a oportunidade de, por meio do desafio, promover um ambiente de muito aprendizado e preparo para a vida?   

 

Se 'virando nos trinta'


Eu fico com a última opção. E voltando ao que se espera do recheio (que tem que se espalhar por toda a extensão dos seus dois polos), nós — que fazemos numa família multigeracional, essa função — temos personalidade própria e não podemos simplesmente nos atrelarmos a uma ou outra geração. Isso iria contra a natureza da fase da vida em que nos encontramos.


Sei que, quando o idoso quer silêncio, o adolescente música e a criança mais espaço, nós queremos mesmo é ter o direito de sair correndo em disparada. Mas esse é o momento de respirarmos fundo e, como se diz aqui entre nós, começarmos a nos “virar nos trinta”.  


Imagem: criada por IA
Imagem: criada por IA

Nessa realidade em que nos foi atribuída a função de mediador ou facilitador da boa convivência, é necessário promover um ambiente em que as diferenças pertinentes a cada uma das gerações possam ser respeitadas como tal. E, para isso, ninguém precisa abdicar daquilo que o define enquanto pessoa, produto de um contexto sociocultural bem definido e delimitado no tempo.


Acredito que não há perdas; o que há são algumas concessões e muito enriquecimento para todas as partes. Mas, para que se alcance esse resultado, é preciso exercitar essa consciência — também a aceitação dos limites de cada um, a colaboração, o respeito pela história e lutas individuais e, por fim, uma mente aberta, que enxergue no diferente o potencial de transformação, evolução e mudança.


Exercício


É importante termos em mente que a nossa função, em tal dinâmica familiar, é pessoal e intransferível. A difícil tarefa não será percebida, nem muito menos abraçada, pelos mais jovens ou pelos mais velhos. Cabe a nós plantarmos essa semente para que, chegada a nossa vez de passarmos da condição de recheio para uma das fatias do pão, todas as partes  estejam bem preparadas.


Tamanha responsabilidade, nesse contexto, requer também autocuidado. Lembre-se de que ninguém pode cuidar do outro sem antes conseguir cuidar de si mesmo. Preste atenção a possíveis sinais de sobrecarga nessa difícil tarefa de equilibrar pratos na convivência entre as diferentes gerações da família. Mas também esteja certo de que “mar calmo não faz bom marinheiro”.  


Foto: GlobalStock
Foto: GlobalStock

Amanhã, estaremos no lugar dos nossos pais, e o recheio será composto pelos nossos filhos, sobrinhos ou netos. E talvez eles nem mais precisem ser facilitadores, mas apenas pontes entre gerações. Por isso, comece agora: busque informações sobre o tema intergeracionalidade (uma fonte que gosto muito é o site Portal do Envelhecimento) e procure exercitar habilidades que ajudem nesse processo, como:


  • Conhecimento e compreensão do contexto social e familiar em que cada um nasceu e se desenvolveu


  • Paciência


  • Capacidade para a resolução de conflitos (trocas, negociações, concessões)


  • Flexibilidade para adaptações e mudanças


  • Promoção de momentos de diversão e lazer junto a outras famílias multigeracionais


  • Atenção para a manutenção de um ambiente doméstico organizado e agradável


É de dentro pra fora que tudo se torna mais sustentável. É da família para a sociedade que podemos, desde já, construir dias bons para todo o grupo familiar aqui e agora — e dias ainda melhores para toda a sociedade no futuro próximo, especialmente para nós mesmos, que seguimos céleres rumo à velhice.


Pense nisso! E até a próxima!

1 comentário

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Valdenice de A.Moraes
01 de dez. de 2025
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O Conteúdo ilustra o recheio completo das geraçoēs de valores ,como também as geraçoēs do tempo do cerebro de rôbos. Vamos avançar com lúcidez !!

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