Genros e noras: ainda como filhos ou "presentes de grego"?
- velhicesemmedos
- 21 de mai. de 2025
- 6 min de leitura

Minha mãe dizia que filho tinha pai enquanto tinha mãe. E eu me sirvo de raciocínio semelhante pra dizer que a família é a mesma até que entre alguém de fora, e isso para o bem ou para o mal. Mas sempre mais para o mal, ainda que possamos adicionar umas aspas nessa palavra, pra não assustar ninguém logo assim de supetão. Se é que não já assustei com a escolha do título (genros e noras: ainda filhos ou ‘presentes de grego’)?
São muitos os personagens que de uma hora pra outra podem cair como que de paraquedas na convivência de uma família, como um sogro(a), irmão(ã), cunhado(a), sobrinho(a), genro ou nora (esqueci alguém?). Esses são, pelo menos, os mais comuns. E para facilitar as coisas vamos nos deter em apenas dois deles, os mais prováveis entre as famílias da nossa turma da meia-idade: genros e noras.
Para quem perdeu o bonde da história genros ou noras hoje em dia vão além da certidão de casamento e/ou aliança no dedo. Namorados que decidem morar juntos conquistaram o mesmo status de tratamento. Assim, geralmente não se diz mais o namorado da minha filha ou a namorada do meu filho, mas sim meu genro ou minha nora (e fiquemos por aqui, que já temos muito pano para as mangas).
Constatada então a profusão de genros e noras mundo afora, nos aproximamos do que pretendemos. Imagine você que se muita coisa começa a mudar na organização familiar já a partir da adolescência dos filhos, atingindo certo nível de maturação e consolidação na fase adulta deles, o que pode acontecer quando surge alguém estranho a esse grupo? Alguém cuja cultura e modo de convivência social pouco ou nada tenha a ver com a família? Por isso o nosso título para este artigo: genros e noras: ainda filhos ou ‘presentes de grego’?
Uma mesma fonte
Não é raro que ao vermos irmãos tão diferentes uns dos outros não caiamos na vala comum daquela reflexão simplista: “curioso, filhos dos mesmos pais...”. Pois é, mas como dizem os mais velhos: “os dedos da mão são diferentes”. Para efeito dos filhos é a mesma coisa: todos recebem um mesmo cabedal de formação, ou seja, beberam em uma mesma fonte de princípios, ensinamentos e valores. E ainda assim, cada um é uno. E graças a Deus!
Então, há as diferenças e até mesmo os conflitos. Mas o bom é que tudo é enfrentado tendo como alicerce e pano de fundo o mesmo cabedal de formação. E isso permite a todos da família caminhar por um terreno seguro, onde se reconhece sentimentos de confiança, afeto, respeito, amizade, consideração e gratidão, entre outros. Mas a ‘porca torce o rabo’ quando alguém que bebeu em outra fonte começa a fazer parte da intimidade da família.
É óbvio que não será aqui e agora que esse assunto será esgotado. Muitos são os componentes passíveis de análise em tal contexto, mas basta que haja coisas como paixão, carência afetiva, individualismo, egoísmo e algo de baixa autoestima e discrepâncias socioculturais e econômicas nos relacionamentos dos filhos, para que fissuras surjam na estrutura familiar (ou a porta do cavalo de Tróia comece a se abrir).
É então quando pais deixam de reconhecer filhos, e irmãos têm a amizade colocada à prova. E penso que no meio disso genros ou noras crendo-se confiantes e fortalecidos em suas posições, afinal de contas não é pouca coisa ver pais e mães destituídos dos seus “tronos” de uma hora para outra. Como se a atitude de dividir e separar fosse inteligente e humana. Mas o que fazer se você é um pai ou uma mãe destronada? Se não ganhou um filho(a), mas um presente de grego?

Antes da resposta a essa questão preciso dizer que há sim genros e noras que somaram à família onde entraram, e se transformaram em verdadeiros filhos e filhas dos sogros (eu mesma conheço alguns, e talvez você tenha sido ou ainda seja um desses genros ou noras para os seus sogros). Apesar disso, as nossas décadas de vida nos levam a constatar que relacionamentos assim não são regra. Daí como exemplo a má fama das sogras.
Como me propus na criação aqui do blog, receitas não darei porque especialmente em se tratando de relações humanas elas pouco ou nenhum efeito têm. Além disso, cada um de nós nesta altura da vida já sabe muito bem onde o sapato aperta, e sabe também que quanto a seres apaixonados, sugestionados ou até mesmo propensos a manipulações quase nada há a se fazer, a não ser esperar o bonde passar. E se nesse cenário a maturidade e experiências de vida ainda forem poucas, o que está ruim pode piorar.
Sentindo na própria pele
É muito triste e decepcionante ver um filho ou filha mudar o comportamento em família após algum tempo de convivência com outra pessoa. É claro que aqui estamos falando de alguém que tinha um relacionamento bacana com pais, irmãos e outros familiares mais próximos, e passado um tempo assume um comportamento atípico, marcado por gestos e atitudes como por exemplo distanciamento, individualismo, formalidades e indiferença, como que apagando um passado de características opostas.
Creio que um primeiro sentimento natural dos pais seja o de achar que não são mais tão importantes e úteis na vida do filho(a), de ter perdido a autoridade que sempre tiveram. Autoridade no sentido apenas de ter a palavra ouvida e valorizada. Já o segundo sentimento natural, e especialmente por parte de uma mãe nesse contexto, é o do fracasso. De não ter sido competente o suficiente na construção de uma personalidade melhor estruturada e menos vulnerável a influências externas.
Esses sentimentos iniciais são humanos e pra lá de recorrentes. Mas nada como lançar mão de algumas virtudes da maturidade para enxergar melhor as coisas e ir aliviando a carga. Em primeiro lugar cada um dá o melhor que tem na criação dos filhos, nada mais ou nada menos, simplesmente o melhor que é possível. E nesse sentido não há espaço para culpas. Depois, ninguém tem o poder de controlar tudo (seria insano). Por último, as escolhas são sempre pessoais, assim como as experiências na vida. Cada um faz ou tem as suas.

Não bastasse isso, nem sempre idade e maturidade andam de mãos dadas, principalmente quando as mãos se acostumaram a receber tudo e mais um pouco dos pais ao longo da vida. Assim, cada um tem o seu tempo para começar a enxergar melhor a sua própria existência e entorno, bem como as consequências das escolhas e decisões. Além do mais, ninguém consegue adiantar o tempo (nem mesmo os corações sempre bondosos das mães), e nem seria inteligente fazê-lo.
Entrando no eixo
Me preocupo com pessoas entre nós da meia-idade que ‘encanam’ com questões como essas com os filhos. É preciso não se deixar abalar tão fortemente com tal experiência na família. Creio que o melhor a fazer é não se deixar contaminar pelo novo clima, é acreditar na força dos princípios e valores transmitidos, é dar tempo ao tempo, é refletir sobre os aprendizados a serem tirados da situação (gosto de pensar que nada acontece por acaso e que se estivermos atentos tudo se constitui em oportunidade de melhorias).
Penso ainda que certo distanciamento estratégico é um ingrediente fundamental para a saúde de qualquer relacionamento. Que o seu filho ou filha viva a experiência dele(a), pois foi o que escolheu sem lhe pedir opinião. E que você siga em frente cuidando bem da sua vida e das suas emoções, no mínimo para se proteger e fortalecer contra desventuras dessa e de outras naturezas que a vida sempre nos apresenta, e dos tantos ‘presentes de grego’ que recebemos pelo caminho.
Nossa maturidade não nos permite mais perder tempo magoados, preocupados e ressentidos com coisas de quem está apenas começando a colocar a teoria em prática na vida, ainda que esses sejam os nossos próprios filhos. O tempo que temos corre acelerado por nossas mãos, como disse o poeta. Que tenhamos por ele todo o respeito e gratidão para não negligenciarmos uma vida ainda com tantas possibilidades como a nossa nessa fase em que nos encontramos.
Que deixemos esses filhos de outras mães ocuparem temporariamente o nosso trono pois como dizem, “quem é rei (ou rainha) nunca perde a majestade!” Até a próxima!




Poxa! Era o que precisava a ler. Já coloquei em prática algumas atitudes citadas aqui. Já chorei muito, agora chega, a escolha foi dele.
Obrigada!