Pronto(a) para começar a cuidar dos seus pais ou sogros?
- velhicesemmedos
- 25 de nov. de 2024
- 8 min de leitura

A longevidade da vida começou a trazer uma nova realidade e nós, que estamos na fase da meia-idade, somos os primeiros a ganhar novas responsabilidades nela. Há poucas décadas víamos os nossos avós vivendo com independência e autonomia até praticamente o fim de suas vidas, que estavam longe de se estender por 70 ou 80 anos como hoje. E nesse contexto nossos pais foram pouco demandados. Mas e você, pronto(a) para começar a cuidar dos seus pais ou sogros?
E eis que o mundo mudou muito, e sendo a longevidade uma conquista, trouxe com ela o seu preço. Além de estarmos vivendo mais, de modo geral também vivemos melhor. São muitos os avanços científicos, vacinas, medicamentos, tecnologias, saneamento básico, sistema de saúde mais eficiente etc e tal.
Mas se por um lado todo esse cenário de evolução resultou em benefícios, por outro todo um contexto socioeconômico trouxe muitas novidades, caracterizadas por complexidades e dificuldades. E é nesse sentido que hoje não desfrutamos da condição dos nossos pais diante dos pais deles.
Para começo de conversa acho que hoje em dia o processo de envelhecimento deveria se tornar uma disciplina obrigatória na grade curricular escolar. Assim, desde cedo as crianças teriam maior preparo para enfrentar as dificuldades e adversidades da velhice, ainda mais em um mundo que estará muito mais velho, como já se tem por certo. Só para ilustrar, daqui a apenas cinco anos o Brasil terá mais pessoas com mais de 60 anos de idade do que crianças com até 14 anos. Faz ou não sentido a urgência do preparo dessas crianças?
A vida indo mais longe deu espaço e tempo para que doenças causadas pelo envelhecimento pudessem se expressar em sua plenitude. Os novos hábitos e costumes de uma vida moderna também revelaram a outra face da moeda. E o que falar dos solavancos e incertezas político-econômicos do país, que ao longo de décadas já nos maltrataram tanto? Tudo isso, e muitas outras coisas, têm nos transformado enquanto sociedade. E as dificuldades que temos enfrentado, e ainda iremos enfrentar, não são poucas e nem fáceis.
Experiência pessoal
Enfrentei a realidade de ter que cuidar da minha mãe quando ela, aos 78 anos de idade, adoeceu em definitivo, perdendo a capacidade de cuidar sozinha da própria vida. Tudo aconteceu abruptamente e para mim foi um choque. Somente muito tempo depois foi que percebi o quanto eu ignorava a realidade do envelhecimento. Pensava que pela saúde e vitalidade da minha mãe ela viveria até os 100 anos em plena forma física e mental. Certo é que faltaram apenas 7 anos para chegar aos 100, mas nos 15 anos de doença a vida não foi mais a mesma. Nem a dela e nem a minha.
Ao longo dos anos que se seguiram não posso falar em dificuldades extremas com os meus irmãos e suas respectivas famílias, mas para ser sincera também não posso dizer que dificuldades não tenham existido. Existiram sim, desde as financeiras às de disponibilidade para os cuidados, e de compreensão e preparo para a aceitação, convivência e enfrentamento da doença.

Ao mesmo tempo, e daí por diante, vi dificuldades extremas na minha família mais ampliada (primos e tios), e num entorno ainda mais abrangente, com vizinhos, amigos, e grupos de apoio a familiares com os quais comecei a interagir. Foi quando constatei que praticamente ninguém estava pronto para começar a cuidar dos pais, sogros e às vezes até cônjuges e irmãos.
Algo muito comum hoje em dia entre nós da meia-idade é nos vermos chamados a ajudar ou mesmo cuidar dos nossos pais e/ou sogros. Penso que somos a primeira geração a enfrentar essa realidade. E tal ajuda ou cuidado pode ir desde a uma simples companhia para um exame ou consulta médica, uma ida ao banco, um apoio tecnológico ou uma atualização sobre os últimos golpes digitais, até um apoio financeiro ou uma total responsabilidade quanto aos cuidados com a saúde e demais providências de vidas não mais totalmente independentes e autônomas.
Cada vez mais e mais
Nessas duas últimas décadas vi muitas pessoas da nossa geração tendo que arrumar espaço em suas vidas para acomodar pais e/ou sogros necessitados de ajuda para continuar seguindo a deles. Irmãos fazendo escalas de plantão para noites na casa de um pai ou mãe; para idas a exames e consultas médicas; para acompanhar internações hospitalares; para realizar compras de supermercado. Mas também para promover momentos de diversão, lazer e relacionamentos sociais, importantes na prevenção de uma doença tão comum quanto difícil na velhice, a depressão.
Vi ainda quem sequer tenha tido um bom relacionamento com o pai ou a mãe ao longo da vida (com até mesmo falta de afeto ou situação de abandono) e, de repente, se viu diante da responsabilidade moral (e legal) de deles cuidar. O que se traduz em dificuldades emocionais ainda maiores frente à situação. O mesmo se aplicando também a sogros ou sogras por quem não se tinha muita simpatia ou bom relacionamento.
Mas, se como mencionei, nossa geração da meia-idade é a primeira a encarar esse desafio de cuidar de pais e/ou sogros longevos, não será a que terá as maiores dificuldades. Digo isso ao lembrar das gerações seguintes à nossa, de dois filhos ou filho único. Mas temos ‘muito pano para as mangas’ por agora. Deixemos isso para outro artigo.
Defendo que decididamente rompamos preconceitos e nos interessemos pelo tema velhice. E que adotemos o hábito de buscar conteúdo de qualidade para irmos não só nos acostumando à essa realidade que já se impõe em nossas vidas, mas melhor nos preparando para ela, já que estamos nos transformando em cuidadores dos nossos familiares. Às vezes, além dos pais e/ou sogros, é um tio(a) ou até um irmão(ã) ou cunhado(a) mais velhos. E amanhã seremos nós. As realidades são variadas e é necessário estarmos prontos para cuidarmos dessas pessoas e de nós mesmos quando assim a vida exigir.
Adaptação
Lembremos que toda essa possível demanda por parte dos nossos pais e/ou sogros nos pegam ainda lidando com a rotina de um trabalho profissional; muitas vezes com a criação de filhos adolescentes ou jovens; com a possibilidade de um relacionamento em crise, e por fim com outras questões relacionadas a uma vida ativa e produtiva que temos. E o que fazer para 'nos virar nos 30' num momento desses? Ou para não chegar no ponto de ter que acionar o 'botão do pânico'?
Enfrentar um momento como esse na vida é um desafio muito grande porque, entre outras coisas, não é algo que se consiga fazer sozinho. Em casos assim, toda a família tem que estar sensibilizada quanto às necessidades que se impõem. E a partir disso a união é condição imprescindível para que a nova realidade possa ser bem administrada e não impactar tanto a qualidade de vida do grupo familiar como um todo. Mas eis que muitas vezes é exatamente num momento difícil como esse que a família tem as suas bases estremecidas.
Penso que enquanto os pais e/ou os sogros (casais ou não) podem receber ajuda estando eles ainda em suas moradias, a família fica, por assim dizer, mais preservada em relação às dificuldades e a possíveis conflitos. E a ajuda ou apoio pode ser melhor planejada ou compartilhada. Mas quando não mais é possível ao idoso permanecer em sua casa sozinho, aí as coisas se modificam e ganham uma outra amplitude.

Do espaço físico muitas vezes já reduzido para acolher toda a família a mudanças significativas na rotina da casa, tudo acaba precisando de adequações e ajustes. Imagine ter um idoso com certas necessidades especiais inserido num contexto onde predominam adolescentes, animais de estimação, trabalho home office e faxinas periódicas entre tantas outras peculiaridades? Não é tarefa fácil organizar e gerenciar um novo contexto de vida familiar. Alie-se a isso muitas vezes as dificuldades de tempo e dinheiro. Mudanças como essa exigem da família o que elas geralmente nunca pensaram em termos de sentimentos, emoções e convivência.
Consciência, conhecimento e informação
Mais uma vez o meu mantra: a principal arma para enfrentarmos o que quer que seja na vida é o conhecimento. Já tenho maturidade para saber que uma coisa é falar de velhice para um jovem, ele nunca vai ‘dar bola’ para o assunto porque não consegue ter isso em perspectiva. Mas outra totalmente diferente é falar de velhice para quem já está a vivenciando, e também no caminho mais acelerado para ela. Não há mais como querer fugir do assunto. É burrice e irresponsabilidade!
Manter uma mente otimista é fundamental na vida, e nesse sentido é muito bom pensar que avançaremos nos anos com saúde plena. E seremos velhos muito bem-dispostos, aproveitando cada minuto da vida. Mas não adianta se iludir, muitas questões mudam apenas de endereço, e a velhice é uma delas. Em maior ou menor escala todos pagaremos o preço de vidas mais longevas.
A ciência está evoluindo como nunca e contaremos com muitas soluções já em curto e médio prazos? Sem dúvida acredito nisso, mas os benefícios estarão longe de ser para todos. E lembremos: o Brasil e o mundo estarão repletos de velhos daqui a 30 anos. E nos lá, engrossando as fileiras.
Dever de casa
Tenho muito gosto por frases feitas e ditos populares. Outro dia li o seguinte: "inteligente é aquele que aprende com os próprios erros, mas sábio é aquele que aprende com os erros dos outros”. Boa parte do meu projeto com este blog é exatamente querer compartilhar o meu choque de realidade diante dos primeiros sinais da velhice, a fim de que pessoas possam me ouvir. E quem sabe, acionando o ‘modo sabedoria’, alcancem o preparo que eu não tinha, e assim possam minimizar ou até neutralizar sofrimentos.
Então, paralelo à obtenção de conhecimento e informação é fundamental ir se preparando psicológica e emocionalmente para essa realidade de curto e médio prazo. E nesse sentido não ser pego de surpresa já é algo que fará muita diferença, acredite!
Aqui defendo algumas iniciativas que podem ajudar:
Tenha interesse pelas famílias próximas a você e que contam com pessoas idosas, a fim de conhecer outras realidades
Reserve um domingo no mês para uma visita a uma casa de repouso para idosos e converse com eles, conheça suas histórias (ligue antes para saber horários e se aceitam visitas)
Consuma conteúdo de qualidade sobre o tema velhice (há bons livros, documentários, filmes e perfis de organizações e profissionais diversos nas redes sociais)
Inscreva-se em um curso de cuidador de idosos. Não é para ter uma profissão (caso não queira), mas para conhecer o universo da velhice e aprender como cuidar. Esses cursos geralmente são abertos, de curta duração, com aulas semanais e equipe multidisciplinar de instrutores. Neles, você vai encontrar quem esteja buscando uma qualificação profissional, mas também muitos familiares de pessoas idosas (eu mesma participei de um há alguns anos e foi ótima a experiência)
Cultive o gosto de socializar com pessoas mais velhas e observar ou perguntar sobre o seu estilo de vida. E esforce-se no sentido de adotar algo que sirva para você já no aqui e agora, mas também no caminho de uma vida com mais qualidade na jornada para a velhice
Por último, uma recomendação importantíssima, e que ouvi muito na época em que cuidava da minha mãe: “para cuidarmos do outro é fundamental que antes cuidemos de nós mesmos”. Carrego essa reflexão até hoje.
Agora que o recado está dado, me conta aqui: você se identificou, de alguma maneira, com o que foi abordado neste artigo? Até a próxima!




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