A conversa da qual não se deve fugir: e quando ninguém mais aguentar? Hoje os seus pais, amanhã você!
- velhicesemmedos
- 26 de mar. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 22 de mai. de 2025

Infelizmente não são poucos os assuntos tabus quando se tem a coragem de pensar sobre a velhice. Especialmente em se tratando da própria ou da dos nossos pais. Mas fugir dos desafios ou problemas que a vida inexoravelmente nos impõe é a pior decisão. Também não adianta querer tapar os olhos com a peneira, já que a realidade se faz cada dia mais presente em um país que envelhece, a passos ainda mais largos, como o nosso. Então, a conversa da qual não se deve fugir é: e quando ninguém mais aguentar o desafio de cuidar sozinho dos velhos da família?
O assunto que trago hoje aqui para o blog, além de ser tabu, é também polêmico e sofre um preconceito muito significativo entre nós. E por diversas razões. Uma delas creio ser raiz, ou seja, está muito associada ao nosso sangue latino-americano, subjugado pela predominância das emoções e do sentimentalismo. Quero falar sobre um possível novo endereço (e talvez também uma nova forma de vida) para os nossos pais ou para nós mesmos, quando assim a realidade se impuser com mais força sobre nós e nossa família.
Você já pensou num novo lugar para os seus pais morarem (hoje talvez apenas o pai, ou apenas a mãe)? Já pensou em você mesmo quando um momento desses se fizer presente na sua vida? Já ousou conversar sobre isso em família? Você, que está na fase da meia-idade como eu, já deve ter notado que da forma como estou conduzindo o assunto não estou falando simplesmente de uma nova cidade ou casa mais bonita e agradável para morar e melhor usufruir da fase final da vida. Estou falando da hospedagem que embora hoje tenha ganhado um nome oficial*, continua sendo popularmente conhecida por ‘casa de repouso’, ‘lar para idosos’, ‘asilo’, ‘abrigo’, ‘residencial geriátrico’ e por aí vai...
Chegando de mansinho
Nesse contexto do tabu, polêmica e preconceito que envolvem o tema, não poderia deixar de dizer que eu mesma fui vítima deles. E isso me impôs muita dor e sofrimento por um longo tempo, ainda que, como vou contar, eu já tivesse conseguido estabelecer uma certa aproximação do mesmo. Mas nada como enfrentar o que tem de ser enfrentado, e se não dá pra ser assim “pá pum” (e nesse caso específico não é mesmo possível), enfrente devagarinho, para ir absorvendo e digerindo com calma o universo de informações, vivências e experiências relacionadas ao desafio.
Quando falo de desafios, ou estou diante de algum deles, sempre me lembro do que certa vez ouvi o navegador e escritor Amyr klink dizer em uma entrevista: “quando o desafio é grande demais, o melhor é ir encarando-o por partes”. Isso quer dizer que se você se concentrar apenas no tamanho da empreitada pode simplesmente se deixar vencer e paralisar. E aí já era! Então, seguindo o conselho de quem sabe bem o que são desafios gigantes, vamos por partes. E o primeiro passo é a conversa da qual não se deve fugir: e quando ninguém mais aguentar cuidar sozinho dos velhos da família?
Foi o que fui fazendo, aos poucos mergulhando num mundo que eu desconhecia até então, mas que estava se delineando como uma opção assertiva especialmente para a minha mãe nos seus 91 anos de idade e com o diagnóstico de demência desde os 78, mas também para mim e, por último, para os meus irmãos. Vale dizer que nesse processo eu já não me encontrava assim “tão verde” em relação à essa realidade das residências para idosos.

O meu conhecimento prévio em relação à essa “realidade paralela” do mundo da velhice se deu devido a um desejo pessoal de adotar e cultivar uma ação solidária e voluntária junto a esse público de pessoas, não raro mais carentes de atenção e afeto. Assim, eu frequentemente visitava essas residências, quase sempre filantrópicas. E ao longo de um bom tempo, pude ir elaborando as minhas percepções e ouvindo muitas histórias de vida.
A conversa
Além disso, e para que você possa dar início a uma reflexão mais aprofundada sobre a questão, devo dizer o quanto foi capaz de acalmar o meu coração o fato de ter conseguido trocar com a minha mãe (e isso quando ela gozava de plena saúde e lucidez) algumas percepções sobre a necessidade de, em algum momento da vida, uma pessoa já com muita idade ter de morar em uma casa para idosos. O curioso é que, lembro-me bem, conversamos sobre isso durante um almoço qualquer, apenas nós duas. E nem consigo me lembrar como esse tema pousou em nossa mesa. Eu, que acredito em sinais, penso ter sido uma das providências divinas para que o meu sofrimento futuro pudesse ser atenuado. E foi!
Nessa conversa a minha mãe, que tinha uma cabeça à frente do seu tempo, e não sem dizer que só gostaria de viver enquanto tivesse domínio sobre a razão, concordou tranquilamente com a realidade de que pode chegar um momento em que a família não tenha mais condições de fazer frente aos cuidados e demandas de um idoso com problemas sérios de saúde. E que, em casos assim, não via problemas na decisão e providência de colocar a pessoa idosa em um lugar apropriado, para o bem de todos.
Lembro-me ainda que, no bate-papo, comentei que tal momento na vida fatalmente exigiria ainda mais recursos da família (tempo, financeiro, emocional etc), tendo a mesma a necessidade de contar com maior tranquilidade para fazer frente às demandas que se imporiam, e que nesse contexto talvez não pudesse ela mesma cuidar diretamente do ente querido como talvez desejasse.
E tempos depois a minha mãe se interessaria e trataria de ver um lugar assim, que pudesse acolher e melhor cuidar de uma de suas irmãs mais velhas e melhor amiga, que morava no interior, já sofria de demência, era mãe de um único filho homem (sofreu dois abortos espontâneos) e cujo marido também sofria severas sequelas de um acidente vascular encefálico (o conhecido AVC). Ambos sendo “cuidados” por pessoas estranhas a eles, pagas para tanto, mas que não tinham nenhum preparo ou qualificação profissional. E, triste dizer, nem mesmo espírito fraterno e estatura moral (a casa onde moravam foi sendo subtraída com eles ainda dentro, com o fiapo de vida que ainda lhes restava).
Responsabilidade
Neste artigo, que forçosamente terá que se desdobrar em mais outros tantos, porque são vários os aspectos que merecem ser abordados (pretendo dar sequência em outros momentos), parto da minha experiência pessoal com o tema para tentar colaborar com o que eu vejo como um primeiro e importante passo. A coragem de colocar o tema na mesa e começar a discuti-lo em família, de forma leve e tranquila, sem urgência ou necessidade de passar pelo fogo das emoções vai fazer toda a diferença num possível processo de decisão futura, resultando em maior assertividade e paz de espírito. Afinal de contas, a história sempre se repete, e nesse processo natural da velhice, o que serve para os nossos pais hoje, servirá para nós da meia-idade logo ali, amanhã. Simples assim!

Há assuntos que às vezes nos parecem muito distantes ou totalmente desconexos da nossa realidade, até que sejamos pegos de surpresa. É como por exemplo falar de aposentadoria e velhice para pessoas jovens. Não dá liga! E sabemos bem disso. Mas aqui estou falando para os meus pares da meia-idade, que já não se encontram mais tão distantes da velhice. E, além disso, e graças à conquista da maior longevidade humana, estão aí cabeça grisalha lado a lado com a dos pais.
Não bastasse toda essa realidade, não podemos esquecer que os nossos pais ainda contam com uma quantidade maior de filhos para dividirem entre si o amparo às suas necessidades. Mas e nós, geração de pais (quando por isso decidimos) de filhos únicos ou no máximo de duplas? Então não é aceitável evitar um assunto tão importante, e que se fará cada vez mais presente entre nós.
Não dá pra continuar escamoteando o assunto, sob pena de as consequências chegarem sem dó nem piedade, com força total e sem que tenhamos condições favoráveis para esboçar uma reação. Então, não perca tempo, coloque o tema onde quer que ele caiba. O meu foi praticamente à minha revelia, num simples almoço em casa. O seu pode ser planejado: num passeio ou caminhada despretensiosa, no almoço de família de um domingo (a nossa geração ainda sabe o que é isso), num filme sobre o tema, e assistido em grupo. Enfim, o meio tem sua importância, claro, mas o objetivo é assumir responsabilidade com a velhice de quem nos é próximo, com a nossa própria, e com o bem-estar e consciência tranquila dos que nos assistirão nessa última fase da vida (filhos, quem sabe genros e noras, sobrinhos, irmãos mais novos etc).
Pense nisso, e me diz logo aqui: você já ensaiou uma conversa dessas com a sua família? Até a próxima!!!
* ILPI - Instituição de Longa Permanência para Pessoas Idosas




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