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A velhice que não queremos ver

  • velhicesemmedos
  • há 5 dias
  • 4 min de leitura
Imagem: Daniel Bendjy
Imagem: Daniel Bendjy

Nessa festa de confete e serpentina em que muitos temas estão sendo protagonistas, às vezes me pego resistindo — para não cair em armadilhas fáceis. É certo que, nessa nossa meia-idade, devemos manter uma atitude positiva diante da vida, cuidar ainda mais da saúde e acreditar que a velhice fluirá sob o nosso total controle. Até aqui, tudo normal.


Mas o que me causa certo incômodo é que toda essa empolgação sobre o fato de estarmos vivendo mais, de contarmos com 60 e sermos os novos 40, e de estarmos na fase do “tudo podemos”, esconde uma realidade que poucos têm a coragem de enxergar. E eu entendo, porque ela é mesmo assustadora.


No entanto, nessa altura da vida, a gente já aprendeu: ignorar a realidade só piora as coisas. Devemos mesmo é, na medida do possível e do que é sensato, nos prepararmos para o pior — ainda que torcendo pelo melhor. Acreditar que a velhice se resume apenas a mudanças na aparência física, à queda da energia e a uma memória oscilante, sinceramente, é continuar acreditando na existência de Papai Noel. E essa fase não mais nos pertence.


Sei que muitos talvez não passem da leitura do segundo parágrafo desta reflexão, e outros tantos torçam o nariz, convencidos de que a própria velhice será diferente — afinal, esse é um blá blá blá de pessimistas. Somos mesmo movidos pelo “só acontece com os outros”. Até que uma experiência qualquer nos puxe, abrupta e repentinamente, para a realidade, mostrando-nos que nunca somos tão diferentes assim.


Olhe para o redor e conte quantas pessoas você conhece que chegam à velhice adiantada com a independência e a autonomia que essa festa de confete e serpentina sobre os 60, 70 + e até os 80 tem tentado nos fazer acreditar que serão regra. Talvez essas pessoas do seu entorno não cheguem aos 5 dedos de uma mão. Então, o melhor a fazer é encarar os fatos e viver o tempo que nos resta de forma a não ser atropelado por eles.


A fragilidade vai chegando


Aceitando ou não, e por mais que cuidemos da saúde física e mental, dos relacionamentos, das emoções e de tantas outras coisas atualmente aconselhadas nesse nosso percurso do envelhecimento, a fragilidade vai chegando e se instalando.


Desde o receio de perder o equilíbrio ao subir em uma escada doméstica para pegar algo no armário, de deixar escapar um pum ou um arroto num momento inadequado, até o medo de esquecer algo importante na rotina, a verdade é que vamos nos sentindo cada vez menos confiantes. E, como dizem por aí: “está tudo bem”.


E, ainda no que diz respeito ao mundo lá fora, ou àquilo sobre o qual não temos nenhum domínio, viajar sozinho começa a parecer uma aventura. Morar longe da família, uma decisão desnecessária — por vezes, maluca mesmo. Onde já se viu? Também percebemos não conseguir mais, e no curto intervalo de 24 horas, fazer todas as coisas que fazíamos antes.


O tempo parece ficar contra nós. E logo agora que enfim conseguimos enxergar o seu verdadeiro valor. Muito mais do que dinheiro, o tempo agora é vida. E, nessa altura dela, vida com prazo de validade. Tempo que devemos aproveitar para fazer tudo o que engolimos como inútil nas décadas do apogeu de nossa condição física e mental.


Mas aí vai se avolumando a tal da fragilidade que, somada ao “oba-oba” de uma longevidade romantizada, pode estar, na verdade, nos roubando vida. E muitas vezes sem que sequer percebamos, enebriados por esse clima ilusório de que a velhice se desenvolverá sem grandes problemas. Aliás, quem é que fala em velhice? É tabu, quase como a morte.


Não há por que não confessar: já agora, muitos da tribo dos cinquentões e sessentões, sentem-se necessitados de maior atenção, conforto e proteção. Duvido que a companhia de alguém não nos faça diferença em compromissos simples de um dia a dia que tem se tornado cada vez mais complexo.


Preparar-se para o que não controlamos


Infelizmente, é bastante possível que muitos de nós enfrente uma velhice com os ingredientes que temos visto na velhice de tantos atualmente. E, muito provavelmente, nossos dias serão mais difíceis do que foram ou estão sendo os dos nossos pais, tios ou avós. Menos filhos, o preço dos planos de saúde e uma população idosa bastante numerosa, são apenas alguns dos fatores que podem balizar uma reflexão mais aprofundada.


Por isso, acredito na importância de considerar que na fase final de nossas vidas não teremos mais o controle que hoje podemos supor continuaremos a ter. Os diversos tipos de demência, a fragilidade física, a redução da mobilidade, e uma provável ausência de filhos ou outros familiares, entre tantas outras coisas, tirarão de nós boa parte da independência e da autonomia que nos guiaram ao longo da vida.   


É por isso que bato tanto na tecla de que essa nossa fase da meia-idade — esticando-a deliberadamente até os setenta e poucos anos — é a melhor de todas na vida. Porque nela nos encontramos mais experientes e conscientes do que realmente vale a pena. E, se tivermos a coragem de encarar o futuro que está logo ali, sem romanceá-lo, poderemos viver plena e intensamente esse período, adicionando muito mais vida a ele.


Longe de mim induzir quem quer que seja à simples contemplação de uma velhice nua e crua, que amedronta e paralisa. Gostaria mesmo é que a consciência sobre a velhice real, com tudo o que a tem caracterizado, funcionasse como motivação para que se vivam os anos que a antecedem com todo o potencial que somente a maturidade é capaz de proporcionar.


Então, fica o convite: deixemos de lado o hábito nada saudável dos avestruzes. Que retiremos nossas cabeças de dentro da terra, a fim de enxergarmos a realidade que nos toca, e que está logo ali, já bem perto.


Sem medos, até a próxima!


Por Mônica Moraes

Socióloga | Autora do blog Velhice sem Medos

 

 

 

 

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