Se relacionar bem com a morte deixa a vida mais leve e tranquila
- velhicesemmedos
- 18 de nov. de 2024
- 6 min de leitura

Muito pior do que falar de velhice é falar de morte. Aliás, pior falar não, pior contar com interessados em ouvir. E não bastasse uma identificação entre esses dois assuntos, há mesmo uma total correlação. Ambos os temas estão implicados numa teia de emoções e sentimentos das mais sensíveis e complexas. Por isso vou me ater apenas a uma pequena parte dessa realidade aqui neste artigo, tentando mostrar como um bom relacionamento com a morte pode deixar a vida mais leve e tranquila.
Comecemos pelo que disse o educador e escritor Rubem Alves em sua crônica ‘Sobre a morte e o morrer’: “a morte e a vida não são contrárias. São irmãs”. E por isso me impressiona muito como nos comportamos diante do inevitável, e ainda mais quando já nos encontramos numa fase mais especial da vida, esta da meia-idade. Que nos falem de qualquer coisa, mas não nos venham com esses assuntos ‘baixo astral’ de morte e velhice! Mas tendo em vista o encontro inexorável com eles, não seria mais racional aprendermos a estabelecer uma relação mais amigável?
Mais uma vez o meu ‘mantra’: dominamos o medo e nos fortalecemos diante dele quando temos conhecimento sobre o que tememos. É como conhecer o inimigo a fim de melhor nos prepararmos para enfrentá-lo. Em algumas ocasiões pode-se até perder a luta, mas com dignidade e honra. A morte é evento certo e sabido. E a velhice é hoje de grandes possibilidades, e mais que isso, de um longo caminho. Então o que nos resta? Enfrentá-las com muito conhecimento, preparo psíquico e coragem.
Medo
Nos detendo apenas na morte, acho que primeiro devemos nos livrar daquilo que nos caracteriza tanto enquanto povo brasileiro cheio das suas superstições. Muita gente acha que o simples fato de falar sobre algo considerado desagradável aquilo, por forças mágicas ou do além, irá acontecer. Ora, ora, ora, falamos tanto de algumas coisas popularmente aclamadas como muito boas e agradáveis, e nem por isso elas estão ou acontecem em nossas vidas.

Devemos falar da morte como outro assunto qualquer, além de ser inerente à vida, ela é imprevisível. E frequentemente descompromissada em relação aos nossos planos para o futuro. Já ouvi alguém dizer, e achei de muita propriedade, que para melhor viver a vida deveríamos ter a morte como principal conselheira, ou seja, tê-la mais presente em nossas vidas. Porque assim podemos dirigir melhor os nossos passos, buscar mais qualidade para as nossas decisões e frear impulsos nocivos, entre outras tantas coisas.
Quando, escapando à nossa vontade, nos vemos em uma conversa sobre a morte, não raro e de forma inconsciente, recheamos nossas falas com brincadeiras de todo tipo. Há até quem decline de uma comemoração de aniversário mais caprichada com familiares e amigos em uma data significativa e redonda, por achar que pode atrair maus presságios, se transformar em uma despedida. Por Deus!
Além disso, e como atores de um mundo dominado pelas redes sociais, frequentemente nos percebemos merecedores das mais memoráveis despedidas, impondo aos familiares e amigos um trabalho para o qual talvez sequer deixemos recursos financeiros para ser realizado. Nos últimos anos, e por força da morte de pessoas muito queridas, e tendo elas partido em diferentes fases da vida, comecei a observar e fazer algumas reflexões. Percebi que se o tema morte tivesse sido melhor considerado na família dessas pessoas, algumas coisas poderiam ter saído melhores para ambos os lados, para quem partiu e para quem por aqui permaneceu.
Se conversar seriamente sobre a morte é algo raro entre nós, imagine partir para ações efetivas nesse contexto? Mas, outra vez, sejamos racionais: ela vai acontecer em algum momento e se nos pegar mais preparados e também a nossa família, o sofrimento inerente ao momento será menor. Porque todos sabemos ser ele devastador. Então, em definitivo, é se desvencilhar de algumas barreiras e tentar se relacionar bem com a morte para deixar a vida mais leve e tranquila.
Pragmatismo
Há questões burocráticas e outras de natureza psíquica que devem ser enfrentadas. Sabemos por exemplo que heranças, por menores e pouco significativas que sejam, nunca passam incólumes aos interesses de quem ainda continua a sua jornada aqui na Terra. Quantas brigas, estresse e rupturas vemos por aí, algumas vezes tão próximo de nós. E hoje, em famílias cada vez menores é tão triste ver irmãos rompendo o laço que os unem por algo que não faz sentido. Além disso já são tantas as uniões conjugais e os filhos decorrentes de cada uma delas, complicando ainda mais esse momento.

Além de heranças, às vezes vida financeira oculta ou paralela, decorrente da falta de confiança em parceiros(as) de vida de última hora. Triste dizer, mas também da falta de transparência frente a parceiros(as) de toda uma vida. Infelizmente já testemunhei casos assim e fico a pensar o que leva alguém a permanecer em uma união por décadas se não é capaz de confiar no seu parceiro(a). Sim, porque tal atitude nada mais é do que falta de confiança na pessoa com quem se escolheu dividir a vida. Tal comportamento, após a morte, pode acarretar em grandes dificuldades para os beneficiários.
Há ainda os relacionamentos com os quais entramos em rota de colisão em algum momento da vida. Aqui a seara é outra, mas creio que mereça também reflexão. Como estamos nesta fase de maior maturidade, já conseguimos analisar quem merece ou não as nossas devidas considerações. Quem nos faz bem e gostaríamos sim de resgatar para as nossas vidas? E aí, para além da reflexão, uma boa dose de humildade e coragem, mas sempre na perspectiva de que em algum momento não estaremos mais aqui, e se podemos partir com o coração mais aliviado, porque não tentar? Teremos o mérito da tentativa.
Também as questões de natureza humanitária não poderiam me escapar, já que implicam na vida de tantas pessoas. Penso que poderiam ser facilmente resolvidas em vida, e infelizmente até aqui não conseguem obter a atenção que deveriam. Falo da doação de órgãos. Que belo gesto humano o de oferecer vida a quem precisa dela. E o que custa tomar providências nesse sentido, formalizando a intenção como deve ser, e informando a família para que a decisão de agora seja respeitada no momento da morte? Custa um pouquinho de reflexão e coragem para a tomada de decisão. Somente.
Por último há também outras questões menos importantes no entanto resultantes da filosofa de vida que cada um de nós elaborou ao longo da sua jornada. Por exemplo, vi quem quisesse ter o corpo cremado e foi enterrado; quem poderia ter aproveitado ao máximo os poucos meses de vida pois que diante de uma doença sem cura, mas não encontrou apoio familiar suficiente nesse sentido (e nem acreditou na iminência da morte), chegando ao fim sem viver ou reviver outros grandes momentos como poderia; também teve quem tivesse o corpo enterrado em um local inimaginável, o que em vida seria motivo de muitas piadas, dada a inclinação do morto para elas.
É claro que essas últimas questões são menores, e que nem sempre é possível fazer as coisas de forma ideal em momentos tão delicados como o da morte. Mas não deixam de ter importância, especialmente por levar em conta desejos pessoais e a filosofia de vida de quem morreu e que, a partir daquele momento, figurará apenas nas memórias de outras pessoas. É, literalmente, o fechamento do último capítulo do livro. Defendo que tenhamos cuidado com esse momento. Mas como falei, são questões mais práticas e burocráticas da morte, e nem sempre resolvidas por pessoas muito próximas de quem morreu, conhecedoras, portanto da sua personalidade, estilo de vida, gostos e preferências.
Apoio ao luto e educação para a morte
Por último penso que se há uma realidade de morte iminente na família, e se já há muita dor e sofrimento envolvendo esse contexto, uma boa decisão é a de procurar apoio profissional qualificado. Algumas terapias podem oferecer maior compreensão, aceitação e força para o enfrentamento do que está sendo vivenciado e o seu desfecho futuro. E isso reverberará inclusive na qualidade de vida final da pessoa querida. Vale muito a pena.
Na ausência de recursos financeiros para tanto, hoje em dia é possível encontrar alguns grupos disponíveis para ajuda gratuita, como é o caso da API - Apoio a Perdas Ir(reparáveis), uma organização com sede em Belo Horizonte/MG e presença em outros estados brasileiros (e até fora do Brasil), e que desde 1998 tem como objetivo difundir e promover recursos para o enfrentamento do luto.
Apesar da existência de alguns serviços gratuitos, eles têm foco específico no enfrentamento do luto em si. Desconheço, no entanto, iniciativas voltadas à educação para a morte, ou seja, um trabalho de prevenção frente a esse momento inevitável na vida. Nesse cenário penso que apenas as religiões é que promovem algum ‘preparo’ nesse sentido. Mas, por alguns motivos, e especialmente considerando os seus limites teológicos, acredito ser pouco eficaz a abordagem.
A dor e o sofrimento diante da morte são dilacerantes, e sempre estarão presentes no momento da perda de uma pessoa querida, mas se estivermos minimamente nos relacionando com essa irmã da vida, como bem definiu Rubem Alves em sua crônica, enfrentaremos de forma mais tranquila, com informações claras da parte de quem partiu, gerando mais conforto aos familiares e com melhor aceitação, serenidade e disposição para dar continuidade à vida, que sempre, sempre se renova e segue adiante.
'Bora' então perder o medo e deixar a morte ficar mais presente em nossas vidas? Até a próxima!!!




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