O legado que construímos para nós mesmos
- velhicesemmedos
- 5 de jul.
- 4 min de leitura

Algumas experiências desses últimos meses — e mais intensamente dos últimos dias — me levaram a uma reflexão que considero importante compartilhar.
Ao viver um processo de transição profissional, percebi que, em determinados momentos, parecia existir uma pressão silenciosa para que eu abrisse mão de crenças, valores e formas de enxergar a vida que construí ao longo da minha trajetória. A sensação inicial foi de desconforto, seguida por reflexões que se impuseram independentemente da minha vontade consciente de fazê-las. E, por fim, surgiu uma decisão: a de resistir.
Calma, não vou aqui me embrenhar por reflexões filosóficas a respeito — sequer teria competência para tanto. Vou me limitar ao que consegui observar como alguém que se encontra cronologicamente adiantada nesta jornada da vida. E essa foi a melhor das conclusões a que cheguei.
Envolta nas vivências que me fizeram chegar até este artigo, fui capaz de perceber o quanto nós, especialmente na meia-idade, podemos estar vulneráveis dentro dessa máquina de processamento instantâneo em que se transformou o mundo.
E me refiro mais especificamente a nós, da meia-idade, porque continuamos produtivos e, muitas vezes, ainda na condição de correr atrás do pão nosso de cada dia. Poucos desfrutam da tranquilidade de pagar todas as contas apenas com a aposentadoria, caso já a tenham alcançado antes dos 55 ou 60 anos.
Assim foi que consegui perceber que devemos estar muito atentos ao nosso entorno — no estilo mesmo de “um olho na missa e outro no padre”. A maioria de nós permanece na ativa, trabalhando numa mesma área ou em transição para outra, muitas vezes enfrentando recomeços e reflexões profundas.
E, em qualquer uma dessas situações, a adaptação se impõe como uma necessidade. No entanto, adaptação nada tem a ver com o abandono do que consideramos bom e útil em nossas vidas. Não devemos vender a alma ao Diabo para simplesmente nos adequarmos às exigências de um mundo tão iludido quanto ao bem-estar e à realização humana, especialmente no universo do trabalho e do lucro a qualquer preço.
Tem sido cada vez mais comum entre nós, os mais velhos — e me parece que esse sarrafo está ficando cada vez mais baixo —, a ideia de que estamos ficando velozmente para trás nestes tempos de tanta tecnologia, urgência e imediatismo. E, por isso, tem se instalado o sentimento de que, de algum modo, precisamos nos encaixar nessa realidade, custe o que custar.
Diante dessa percepção, o comportamento mais natural parece ser o de esquecer ou desvalorizar toda uma jornada de vida; o de se desfazer de crenças e valores construídos com esforço e dedicação; o de se perder, nesta altura da vida, apenas para conseguir sobreviver nesse caos tão bem arquitetado em que estamos inseridos.
Assim, quando as vivências desses dias tentaram se impor sobre as minhas crenças, os meus valores e o meu jeito de viver e de enxergar a vida — ou seja, sobre tudo o que construí para mim mesma até aqui, e que resultou na pessoa que sou hoje e que ainda haverei de alcançar —, o sinal amarelo se acendeu à minha frente.
Confesso que, antes desse momento acontecer, eu estava absorvendo e tentando digerir tudo isso, mas com dificuldade e não sem alguma preocupação. Estava me sentindo como se estivesse a ponto de dar marcha a ré no que fui capaz, aos trancos e barrancos, de construir até aqui como pessoa.
Além do mais, pensar em fazer isso nesta altura da vida realmente me entristeceu. O risco de perder a liberdade de espírito conquistada e tudo o que o tempo foi capaz de me revelar e trazer abalou meu alicerce.
Mas a surpresa foi que, de repente, e antes que o sinal vermelho pudesse aparecer, o verde surgiu, como a liberar a via evolutiva da minha jornada. Que alegria foi perceber a presença firme do que eu até então não tinha notado com tanta clareza: o amadurecimento.
Ele se fez presente e parecia me olhar com a satisfação com que um professor olha para um aluno esforçado. De repente, vi-me bravamente resistindo ao que não tem a ver com quem sou hoje: fruto das minhas lutas pessoais, da vontade, da coragem e da fé para enfrentá-las. Da minha disciplina e de todo o investimento que cada um de nós fez até aqui — e continua fazendo — nesse trabalho árduo e diuturno de lapidação de nós mesmos.
Nesse cenário, talvez eu também estivesse presa ao famoso “8 ou 80”, tão naturalmente presente em muitas personalidades e cada vez mais no mundo radicalizado em que vivemos. E isso também foi um sinal do meu “nirvana” pessoal, que me conduziu à constatação de que todos temos a opção de escolher o caminho do meio, especialmente quando se trata da preservação da nossa essência.
Por fim, a palavra legado entrou na moda há algum tempo. Todo mundo, especialmente os que deixam esta vida, é homenageado com menções ao legado que deixou. Eu, pessoalmente, e a partir das vivências dos últimos dias, acredito que o maior legado que construímos não é aquele que deixamos por aqui, mas o que levamos conosco, como diz a música, “feito tatuagem...” por todo o Sempre. Isso, sim, é o mais importante.
Até a próxima!
Por Mônica Moraes
Socióloga | Autora do blog Velhice sem Medos




Comentários