Preparado para ser chamado de velho(a) daqui a pouco?
- velhicesemmedos
- 30 de set. de 2024
- 5 min de leitura

Não à toa, nunca se falou tanto em envelhecimento e velhice como nos dias atuais. Basta algum interesse pelo assunto que o mundo da web vai apresentar uma infinidade de conteúdo. De leigos e ativistas sociais a profissionais e especialistas das mais variadas áreas, todos encontram espaço para dar luz ao que pretendem. Mas será que o público interessado é proporcional à quantidade de conteúdo à disposição?
Outro dia fiz uma rápida enquete com alguns amigos e conhecidos (todos na fase da meia-idade) sobre algo do meu interesse nessa área do envelhecer. Em verdade eu desejava ter a percepção deles sobre uma logomarca criada, e algumas opiniões dadas me soaram interessantes no sentido de que escamoteavam o envelhecer e a velhice. Sentimentos de medo, de insubmissão a alguns aspectos clássicos relacionados a essas fases da vida, e de certa negação, tiveram destaque.
Como respiro esse clima do envelhecimento e da velhice há um bom tempo (daí a criação do blog e o nome que lhe é próprio) leio, assisto, sigo muitos perfis nas redes sociais e consumo muito conteúdo na web, tudo relacionado ao tema. Cada um desses canais de discussão e informação tem as suas características e estilos próprios de tratar a temática do envelhecer e da velhice. E acredito que cada um, a seu modo, colabora para uma maior exposição do tema e uma possível boa digestão da realidade que começamos a vivenciar com mais intensidade nos últimos tempos.
Nesse contexto percebo que os conteúdos que se utilizam de muito humor são os que mais repercutem. Mas vejo como necessário deixarmos um pouco as águas rasas e criarmos coragem para conhecer o que revelam águas mais profundas. Nesta semana comemora-se o Dia do idoso e acho oportuno aproveitá-lo para uma reflexão sobre essa fase da vida. Quem sabe até fazendo um exercício para nos imaginarmos daqui a poucos anos, quando engrossaremos as fileiras dos que terão mais de 60, portanto oficialmente idosos ou integrantes da ‘terceira idade’ (detesto os jargões de boa e melhor idade).
Evitando o inevitável
Desconfio fortemente de que apesar de tudo o que anda rolando por aí a maioria das pessoas que estão oficialmente mais próximas da chamada terceira idade, fuja do assunto velhice como o Diabo foge da cruz. Ou, para ser mais suave, foque a atenção apenas naquilo que soe mais agradável ou palatável aos olhos, mente e ouvidos. Não é por acaso que o jargão “os sessentões de hoje são os quarentões de ontem” seja tão potente entre nós, e conte com tanta adesão e simpatia.
Mas apesar desse clima otimista, creio que algumas reflexões são necessárias:
. Como estaremos quando chegarmos a essa fase?
. O que queremos continuar fazendo?
. O que talvez tenhamos que mudar em nossas vidas?
. Temos planos para viver essa fase? Quais são?
. Como é a vida dos idosos que estão hoje no nosso entorno? Há coisas boas que podem nos inspirar desde já? E o que há de ruim podemos, também desde já, atuar para não ser essa a nossa realidade daqui a alguns anos?
. Como nos sentimos ao ver ou ouvir o tratamento que as pessoas idosas estão recebendo? Achamos justo e adequado ou há coisas que nos incomodam?
. O que podemos fazer hoje para colaborar com mudanças nessa realidade, já que estaremos também nessa condição logo mais?
Penso que todas as reflexões e formas de trazer o tema velhice à tona são válidas por si mesmas, porque colaboram para que a questão se mantenha em evidência num cenário que está em profunda transformação, e que vai nos impactar tanto nos próximos anos. Não é necessário ser bom observador para notar alguma preocupação social com isso por onde quer que se ande, ainda que como resultado da criação e imposição de leis e regramentos elaborados por Municípios, Estados e o Poder Federal, e onde o Estatuto da Pessoa Idosa se destaca como principal documento de proteção. E há avanços!
De prioridade em filas, em estacionamentos, nos transportes públicos, nos processos judiciais, nos equipamentos de acessibilidade e na oferta de serviços e espaços exclusivos destinados às necessidades da pessoa idosa, tudo tem sido pensado, discutido, adequado e transformado. Então não tem como se manter alheio a essa realidade. Acho que nesse sentido até contribuiria a criação de um slogan também realista, do tipo: “os sessentões de hoje serão os oitentões de amanhã, cuide-se!” A fim de que possa fazer frente ao já citado e tão popularmente propalado “os sessentões de hoje são os quarentões de ontem”.
Companheiro ou companheira de meia-idade: não se iluda ou ignore. Seremos chamados de velhos ou velhas, e apontados como tal; seremos ignorados em algum momento ou situação; seremos tratados com desprezo diante do uso de novas tecnologias e outras modernidades; teremos os nossos conteúdos e experiências de vida desqualificados de alguma forma e em alguma medida; seremos vistos como ridículos por fazermos ou usarmos coisas que considerarão inadequadas à idade que teremos. Duro, não?
Você está preparado para ser chamado de velho(a) daqui a pouco? De minha parte, não me traz ou trará nenhuma consequência. Não tenho o adjetivo no grupo dos palavrões ou impropérios em que erroneamente (ou maldosamente?) foi colocado, mas naquele que cumpre a função que lhe é própria, quer seja a de qualificar algo ou alguém. Serei sim uma mulher velha, ou apenas uma velha (para alguns talvez até já seja), mas uma velha serena e com muito orgulho dos anos que Deus me permitiu aqui no Planeta Terra. Anos para aprendizados e evolução. Simples assim!
Participação Social
Por minha aproximação do tema tenho enxergado esta atual fase da vida, a da meia-idade, e a próxima, a da velhice, com bons olhos, com mais tranquilidade, menos medo e mais aceitação. Aprendi que quando a gente evita certas coisas na vida (principalmente as que são por natureza inevitáveis), só adiamos um sofrimento que será grande e certeiro. O medo está muito associado ao desconhecido. A partir do momento em que começamos a nos interessar, nos aproximar e compreender algo ou alguma coisa, o medo vai se reduzindo, cedendo lugar à autoconfiança, à sensação de alívio e à alegria da superação. Isso nos fortalece e nos prepara para viver a vida em todo o seu potencial.

Os próximos anos e décadas exigirão de nós uma luta constante em relação ao preconceito contra a idade. E como toda luta contra preconceitos, essa será dura e longa, até que resultados possam ser vislumbrados. Mas se tem algo que me traz esperança é que pelo menos teremos cada vez mais e mais soldados e soldadas nas trincheiras dessa batalha. E, por conseguinte, maiores chances de vitória. Será uma questão de tempo, e quem viver desfrutará das conquistas.
Hoje, com o rápido envelhecimento do Brasil todos nós, quarentões e cinquentões, convivemos com pais, sogros, tios e vizinhos, entre tantos outros, que estão nessa última fase da vida: a velhice. Então pode nos faltar interesse, sensatez e coragem, mas não nos falta um ambiente real para ser observado e, de certa forma, utilizado como laboratório para as nossas reflexões, ensaios e possíveis decisões. Ignorar essa realidade certamente terá um custo alto demais.
Portanto, aproveite o dia de amanhã, o Dia do Idoso, para dar início à sua jornada de aproximação da velhice, a fim de ir estabelecendo uma relação mais amistosa com ela, que lhe trará tranquilidade e muita vontade de continuar vivendo a vida em harmonia com tudo o que a fase mais avançada dela requer de todos os que a alcançam. E não se esqueça: envelhecer é uma conquista! Até a próxima!!!
Mas me diz aqui: já parou para pensar na sua realidade de vida daqui a poucos anos?




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