Um kit de sobrevivência para tempos tão difíceis
- velhicesemmedos
- 8 de jan.
- 3 min de leitura

Se hoje eu tivesse que escolher um kit de sobrevivência psicoemocional, eu levaria na bolsa autoconhecimento, atenção e capacidade crítica. Deus do Céu, está tudo muito estranho!
Neste fim de ano, após ter decidido criar e enviar — ao estilo faça você mesmo — uma mensagem simples de Natal e Ano Novo para os familiares, amigos, conhecidos e todos os que colaboraram, de alguma forma, para que o meu 2025 fluísse melhor, algo me surpreendeu e me deixou pensativa.
Embora a maioria das pessoas tenha retribuído aos meus bons votos (que alívio!), tive a impressão de que muitas não teriam a iniciativa — ou mesmo o desejo — de fazer o que fiz: parar um pouco, dedicar alguns minutos para criar uma mensagem original e, então, enviá-la aos familiares e amigos por um aplicativo de mensagens.
Mensagens rápidas, vínculos rasos
Além disso, tive a sensação de que algumas pessoas sequer leram o conteúdo do que enviei. Isso porque, tão logo cliquei na setinha de envio, recebi de volta uma resposta pronta. O comportamento me lembrou cenas de duelo em filmes de faroeste: no meu caso, o tiro foi rápido — a resposta —, mas nem sempre coerente com os meus votos genuínos e autênticos de felicidade.
Na verdade, muitos recorreram ao fast food das mensagens natalinas e de virada de ano, encaminhando — isso mesmo, encaminhando — qualquer uma que estivesse ao alcance. Escravos da velocidade, quando deveriam ser senhores da direção e de si mesmos. Ansiedade? Falta real de tempo? Ou simplesmente ausência de trato social e de sensibilidade?
Não estou aqui lamentando a falta de reciprocidade à altura do meu cuidado e carinho ao elaborar uma mensagem especial de Natal, dirigida especificamente a pessoas tão maduras quanto eu. Estou, sim, lamentando a perda de coisas que, a meu ver, fazem enorme diferença nestes dias tão difíceis que estamos vivendo.
O que perdemos no caminho
Isso me levou a pensar numa linha do tempo contemporânea às minhas décadas de existência aqui na Terra. Lembrei-me das cartas e dos cartões com votos de boas festas, depois substituídos pelas ligações telefônicas, que evoluíram para os e-mails, para as redes sociais e, finalmente, para os aplicativos de mensagens. Sim, finalmente. Porque talvez agora estejamos nos aproximando do precipício. Do nada.
Reconheço que essa reflexão pode soar inadequada para um primeiro artigo do ano, com seu tom aparentemente apocalíptico. Mas o que gostaria, de verdade, é que todos começássemos o ano fazendo uso de um kit de sobrevivência psicoemocional capaz de nos proteger dos perigos embalados em papel de presente que estamos aceitando. E o pior: com ingenuidade infantil.
Se buscarmos autoconhecimento, calma, atenção e capacidade crítica, talvez não caiamos nas armadilhas invisíveis espalhadas por todo o nosso cotidiano. Conseguiremos preservar nossa essência humana, nossa identidade, nossa singularidade neste mundão de Deus tão transmutado. E, convenhamos, já tivemos tempo para isso — nós que chegamos até aqui, à meia-idade.
Ainda é possível escolher
Esse kit de sobrevivência pode nos livrar do flagelo de nos tornarmos seres cada vez mais autômatos: vivendo sem presença, sem consciência, sem domínio sobre a própria vida. A perfeita encarnação da infelicidade.
Acredito que o meu kit pessoal de sobrevivência seja um bom exemplo de ferramenta para resistirmos a tudo o que vai contra a nossa essência de seres humanos maduros — ou, ao menos, com tempo suficiente para isso —, únicos e especiais que somos.
Fiquei ainda a pensar: o que mais virá por aí? O fundo do poço do isolamento social e da solidão? Ou a inteligência artificial criando alternativas para nos transportar, como num passe de mágica, para outros lugares — sem sequer a necessidade de tocarmos teclas ou botões – embora tenhamos nos tornado experts nisso?
Como ainda carrego um pouco de poeira analógica comigo, observo toda essa adesão instantânea ao ultramoderno, ao surreal e ao pós-ficção científica com receio. Está tudo muito ao gosto dos menos atentos. Está tudo muito frio, sem sentimento, sem emoção.
Mas espero, sinceramente, que ainda não esteja tudo dominado. Até a próxima!




Reflexão faz a diferença de pensamentos será a velocidade do tempo .