O hábito de complicar a vida e a decisão inteligente de simplificá-la
- velhicesemmedos
- 2 de set. de 2024
- 6 min de leitura

Quando eu tinha uns 32 anos, ouvi um comentário de um colega de trabalho com bem mais de 60 anos de idade à época (olha aí a diversidade de idade no ambiente laboral já naqueles tempos?) de que pela manhã até ele conseguir finalmente ficar pronto pra sair de casa, eram muitas as coisas que ele tinha que fazer. Não sei o motivo, mas aquele comentário que mesclava aborrecimento e graça nunca me saiu da cabeça.
Achei muito sem sentido alguém considerar tão trabalhoso o ritual matinal a que todo ser humano está submetido, e que o faz automaticamente e sem nenhum esforço. Mas nada como o passar do tempo e as experiências e reflexões que ele nos traz: não é que hoje eu consigo ter não apenas uma melhor percepção sobre o desabafo do meu colega sênior, mas também um diagnóstico sobre o seu desconforto? Pois é! E a decisão inteligente de simplificar a vida ainda não estava no seu ‘radar’.
Com certeza você pode ser uma testemunha ocular ou já ouviu falar que velhos gostam de acumular tranqueiras. Resta apenas saber quando é que esse hábito tem início e como seguiu se desenvolvendo sem que pudesse ser percebido como prejudicial. Pois bem, talvez tenha faltado ao meu colega de trabalho sessentão o ‘time’ certo para ele observar o seu entorno e pôr ordem na bagunça, avaliando e eliminando tudo o que podia estar atrapalhando e causando aquele estresse no seu dia a dia.
Isso posto, vamos falar aqui de um conceito que tem recebido muitos adeptos nos últimos tempos, e que é conhecido por ‘vida simples’. Em termos abrangentes a ideia trazida por esse conceito é eliminar da vida tudo o que for considerado excesso, a fim de que se possa gozar de mais saúde (principalmente a mental e emocional), criatividade, prazer, alegria, tempo e plenitude, entre outras coisas das quais o ser humano se distanciou no estilo de vida moderno.
Aqui neste artigo, porém, vamos nos limitar apenas ao espaço físico como cenário para a largada de uma decisão que de fato possa levar a sério a necessidade de tornar a vida, de um modo geral, mais simples, a fim de que possa ser desfrutada em toda a sua potencialidade, especialmente nesta nossa meia-idade. Assim, outros artigos serão necessários para levarmos mais a fundo esse interessante conceito para uma vida simples de verdade.
Acumulando
Acho que a partir da quarta ou quinta década de vida mentes mais atentas (e corpos talvez já meio cansados) conseguem perceber o grande acúmulo de coisas no seu entorno. São décadas recheadas de experiências, acontecimentos e eventos importantes, e uma infinidade de outros não tão importantes assim, mas que resultam em lembranças não só emocionais, mas também físicas: quanta coisa guardamos ainda dos tempos de escola, da faculdade, das empresas onde trabalhamos, dos filhos pequenos, das ideias e projetos pessoais ou profissionais vivenciados ou deixados para trás.

Quanta coisa sem mais nenhuma utilidade ocupando espaços muitas vezes escassos, sugando nossa energia para as realizações, e o pior, consumindo o que temos de mais precioso na vida: o tempo. Como um simples exemplo, e no que diz respeito apenas a roupas, a gente sabe que se não usamos uma peça por um determinado tempo, nunca mais a usaremos. Isso porque mesmo não tendo consciência, não gostamos ou não precisamos dela. E mesmo assim nos apegamos como se fosse nos fazer falta, quando na verdade só nos faz perder espaço no armário, além de tempo com arrumações e retiradas para arejar.
Em um outro artigo aqui do blog já pude abordar como uma rotina de casa arrumada traz mais vitalidade para o dia a dia, e como isso exerce influência na saúde mental e emocional de quem a habita. Paralelo a essa realidade, e estando numa fase da vida em que devemos mais é nos concentrar em sua verdadeira essência, um passo importante é começar a simplificá-la. E um bom exercício para isso é iniciar pelo que está à nossa volta, pelas coisas que podemos enxergar mais facilmente, num processo de selecionar, avaliar, descartar ou adaptar a uma nova realidade.
Muitas vezes, escrevendo os meus artigos para o blog, penso: “ ah, isso todo mundo, quarentão ou cinquentão como eu, já está careca de saber. Acho que vou ‘chover no molhado’... ”. Mas ao mesmo tempo sou levada a considerar que entre saber e fazer há um grande abismo (para muitos intransponível). Então como me sinto muito à vontade entre os meus pares de jornada, falando sobre coisas que nos afetam diretamente, termino por me encorajar e sigo em frente com a determinação de mais motivar do que mesmo informar.
Tomando consciência
Como fiz menção acima, são muitas as coisas e objetos representativos de períodos, acontecimentos e eventos nas nossas vidas, que vamos guardando sem fazer uma reflexão racional. Na verdade, somos movidos pelo que tais coisas e objetos representam em termos de emoções e sentimentos. Os guardamos com a justificativa íntima de podermos revisitá-los sempre que quisermos, a fim de saborearmos as emoções que eles emanam (e que nem sempre são somente boas). Mas o tempo sempre tão veloz, e a dinâmica das nossas vidas, nunca permitem esses retornos guiados pelo saudosismo. E aí, de românticos, nos transformamos em burros de uma carga inútil e sem destino.
Antes de qualquer coisa preciso dizer que não sou contra guardar lembranças de períodos, acontecimentos e eventos que tiveram ou ainda têm um significado relevante em nossas vidas. Não ignoro a importância que eles têm naquilo que somos como seres humanos. Limito o meu ponto de vista às coisas que podemos avaliar como prejudiciais no sentido de obstruir o nosso potencial evolutivo ao longo do tempo que ainda temos pela frente.
É preciso então estar atento para identificar o momento em que esse possível processo de acumulação de coisas e objetos pode começar a atrapalhar o cotidiano. Esse ‘time’ é capaz de fazer toda a diferença no melhor aproveitamento da vida já aqui e agora, nesta nossa fase pré-velhice. A partir daí penso que deveríamos ter uma prática constante e voluntária de nos libertarmos de tudo o que não faz mais sentido real em nossas vidas. O mundo está complexo demais para reproduzirmos tal complexidade em nosso pequeno raio de atuação. Nesse sentido, a ordem é tornar a vida simples, para simplesmente poder usufruí-la em toda a sua potência. E aí, menos continua sendo mais!
Se não temos essa prática constante de nos livrarmos daquilo que além de não nos servir mais, atrapalha as nossas vidas (ainda que não tenhamos consciência disso), postergando sempre essa providência, chegarão momentos que exigirão ainda mais de nós, fazendo com que o processo de desapego seja pouco seletivo, e pior, doloroso (poderá nos faltar tempo e condições emocionais ideais). É quando poderemos estar diante de uma mudança de cidade, estado, ou quem sabe país; de uma doença grave que exija adaptações rápidas e severas, do fim de um relacionamento, de uma mudança para um espaço menor, enfim, são muitas e diversas as surpresas que a vida reserva.
Descartando ou adaptando
Acredito que gastamos metade da vida buscando experimentar emoções pertinentes ao dinheiro, poder, status, sucesso e autoafirmação, entre outros. E cada um desses objetivos sempre requer uma série de coisas que lhe dão sustentação. O status, por exemplo, pode exigir um bom carro e endereço, um relógio de marca, um celular de última geração; bem como o poder um cargo de liderança e alguns títulos pomposos no currículo, e a autoafirmação bons investimentos na imagem pessoal e no volume de amigos.
Assim, muito esforço é demandado para suprir todo esse escopo de vida. E, diga-se de passagem, a simplicidade não tem lugar num ambiente desses. Mas eis que vai chegando a maturidade e a vida vai ‘baixando a poeira’ e impondo algumas reflexões mais práticas (e sábias): preciso mesmo de mais de uma conta bancária para guardar o dinheiro que tenho? Preciso mesmo continuar morando como e onde moro? Preciso mesmo manter essa marca e modelo de carro? Em suma: preciso mesmo manter todas as escolhas do passado, tudo o que acumulei e o meu atual estilo de vida? Ou devo adaptá-lo à minha nova realidade?
Muitas vezes são casas grandes cujos filhos já caíram no mundo; endereços que perderam o sentido (pela não mais existência de uma comodidade qualquer do passado - o trabalho, a escola dos filhos...); livros técnicos e de uma formação escolar ou acadêmica que não serão mais folheados; acessórios e equipamentos cuja função limita-se aos conhecimentos dos tempos em que foram criados e fabricados. Enfim, toda uma carga de coisas e objetos obsoletos que não abre espaço para as possibilidades de uma era onde o tempo tem sido tão valorizado e protegido contra tudo o que pode consumi-lo desnecessariamente.
Então, não podemos mais perdê-lo com coisas que não nos proporcionam ganhos em termos pessoais. Precisamos tornar as nossas vidas mais leves a fim de voarmos mais alto. Nessa fase em que nos encontramos é fundamental abrir espaço para a renovação, limpando e organizando a nossa ‘área de cobertura’, deixando-a livre para um fluxo de novas e boas energias, que resultarão também em novas e diferentes sensações. É isso o que a vida quer, é disso que a vida gosta. Então vamos lá, de braço dado com a vida!
Mas antes me conta aqui nos comentários: você já teve alguma iniciativa de simplificar a sua vida nesta fase que está vivendo? Qual foi? Até a próxima!!!




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