Escolhendo quem entra, quem fica e quem sai da sua vida
- velhicesemmedos
- 16 de dez. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 21 de jan. de 2025

A sua vida é uma ‘casa da mãe Joana’? Nela entram e saem pessoas independente da sua vontade? As que permanecem fazem o que querem indiferentes à sua presença? Se você respondeu afirmativamente a pelo menos uma dessas perguntas talvez seja o momento de começar a botar ordem na casa. E a primeira atitude é a de escolher quem entra, quem fica e quem sai da sua vida.
Quase nunca cuidamos dos nossos relacionamentos com a mesma consciência e senso de responsabilidade com que cuidamos da nossa casa. Nela não deixamos entrar desconhecidos, evitamos visitas indesejadas, repudiamos os que não a respeitam, e providenciamos proteção com vasos de ‘Espada de São Jorge’ ou ‘Comigo Ninguém Pode’ na porta de entrada, entre tantas outras providências. E por que não fazemos o mesmo com os nossos relacionamentos?
Nos últimos anos tenho passado por muitas mudanças na vida. Hoje ela pouco tem a ver com o que era antes. E uma das coisas que conscientemente ando ajustando à minha atual fase (a da maturidade), diz respeito às pessoas que quero ter no meu entorno. Decididamente foi-se o tempo da quantidade em detrimento da qualidade. Nunca precisei, e hoje ainda menos, de muita gente tumultuando a minha vida. Preciso agora de gente muito boa, que agregue valor a ela. Isso sim!
Nesta já avançada meia-idade não quero mais perder tempo com pessoas difíceis, artificiais e superficiais, muito materialistas e egocêntricas, pessoas que não tenham valores firmes, bons princípios, bons sentimentos, vontade de aprender e evoluir, curiosidade pela vida, bons modos e educação. E ainda na filosofia do “quem não gosta de samba bom sujeito não é”, também de quem não aprecia a natureza, não respeita os animais, cultiva mil e um preconceitos e dá de ombros para o trabalho colaborativo neste mundo desafiador em que vivemos. Decididamente não quero!
Cheguei à conclusão de que tão bom quanto é contarmos com alguém que apoia e acredita na gente, tão prejudicial é estarmos rodeados de pessoas que ignoram a nossa existência e os nossos gestos, esforços e conquistas, por menores que sejam. E quanto custa à nossa saúde mental e emocional lidarmos com comportamentos que vão contra à nossa verdadeira essência, filosofia de vida e visão de mundo. Por isso é preciso estarmos atentos para escolher quem entra, quem fica e quem sai das nossas vidas.
Os três ingredientes
Não é que eu faça coro aos que acham que esta fase da vida é a do ‘liberou geral’. E que agora, do alto dos nossos ‘enta’ iniciais (40, 50, 60) nos transformamos em Super Homens e Mulheres Maravilhas, com poderes ilimitados. Não é isso! Acho apenas que podemos contar com mais autoconhecimento, o que nos leva a uma certa incompatibilidade em relação a pessoas que não correspondem mais ao que hoje somos (e que muitas vezes somente agora é que estamos verdadeiramente descobrindo).

E junto com o autoconhecimento, as décadas de vida que já temos acumuladas resultam em uma carga de experiências que constroem e moldam a nossa maturidade, nos permitindo as condições para melhor avaliar e decidir sobre tudo o que está em nossas vidas. E nessa conjuntura o surgimento da coragem para a execução do que foi avaliado e decidido nada tem a ver com impulso ou ato impensado. Ela é consequência de um processo, foi construída em bases firmes, e transforma-se em ferramenta fundamental, sem a qual nada pode ser verdadeiramente modificado.
Você já percebeu quantos casais na meia-idade (e até mesmo na velhice) decidem se separar? É um indício de que depois de muitos anos juntos, um ou outro não mais comunga dos mesmos interesses, filosofia de vida e visão de mundo. E isso tudo é fruto desse processo de autoconhecimento - amadurecimento - coragem que a vida proporcionou. A maturidade é uma ‘mão na roda’ para retirarmos do nosso caminho tudo o que pode não nos fazer bem, e muito especialmente pessoas (sejam elas quem forem).
Nos últimos tempos fala-se muito em relacionamentos tóxicos. No entanto creio que talvez uma percepção mais generalizada dessa expressão esteja muito associada a casais. Em verdade a relação e a toxicidade se dão em qualquer esfera da vida e com os mais diferentes atores. Podemos ter pessoas potencialmente tóxicas como amigos, irmãos, filhos, pais, colegas de trabalho e por aí vai. Então estar atentos sobre quem entra e quem está em nossas vidas é de suma importância.
Quando conseguimos ‘limpar a área’ em relação às pessoas cuja proximidade não nos faz bem, a vida fica mais leve. E nossas potencialidades fluem sem mais impedimentos. Escapamos de uma nuvem escura e pesada de sentimentos e emoções que pairava sobre nossas cabeças, e que travava o nosso desenvolvimento e as nossas realizações, em suma a nossa felicidade.
É claro que em se tratando de laços afetivos entre pais e filhos e entre irmãos por exemplo, há a necessidade de um maior cuidado nessa faxina. Nesses casos não se trata de rompimentos ou afastamentos radicais, mas de estabelecer uma nova forma de se relacionar, um certo distanciamento estratégico, a fim de que se consiga preservar os ensinamentos da maturidade até aqui, sem retrocessos.
De novo um exemplo de casais: já percebeu como muitas mulheres têm suas vidas renovadas após separações e até mesmo viuvezes? Passam por um verdadeiro ‘upgrade’, e ficam quase irreconhecíveis de tanta vida a transbordar. E é impressionante o fato de que na maioria das vezes sequer sabiam guardar dentro de si tanta vitalidade e potência. O mesmo se dá em relação a chefes ou empregos substituídos, a amigos que a vida afasta, a familiares longe das nossas vistas.
Libertação
Penso que para a maioria das pessoas, o autoconhecimento, a maturidade e a coragem dão um sopro de libertação. E é por isso que não mais nos submetemos a coisas que nos acostumamos ao longo da vida. E com coragem promovemos as mudanças. Isso tudo está escondido por trás do tão comum desabafo “não tenho mais idade para esse tipo de coisa”. Em realidade a questão não é de idade, mas de maturidade. Hoje me esforço muito para praticar a seguinte reflexão: “liberdade não é fazer tudo o que se quer, mas é não fazer aquilo que não se quer”.

Nunca fui de elogios que não tivessem a real capacidade de me convencer, tanto como emissora como receptora dos mesmos. Então hoje tento segurar a minha língua diante de situações e pessoas que talvez até esperem algum comentário positivo em relação a elas ou ao que fazem. Tento realmente me movimentar tendo essa reflexão muito presente em minha cabeça: não quero mais levar os meus preciosos dias de vida dizendo ou ‘fazendo e acontecendo’ para agradar pessoas ou bem acomodar situações ou circunstâncias. Pelo contrário.
Hoje me movo no sentido de dizer, fazer (ou não fazer) levando em consideração os meus valores, e se as minhas ações podem ajudar no que vejo que alguém possa precisar para a sua evolução como pessoa e ser humano. Sei que corro o risco de ser mal interpretada. Paciência! Treino para ser Senhora da minha consciência. E pronto!
Me esforço ainda por me nortear segundo uma reflexão de Freud (psicanalista austríaco 1856 - 1939) que diz que “nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser sempre tão bons”. Então amigos e amigas de meia-idade, penso ter chegado a fase em que não só podemos como devemos nos colocar em outro patamar da vida, abrindo nossas janelas para arejar o ambiente. E lançando porta a fora as pessoas cuja presença e participação em nossas vidas tornaram o ar denso, pesado, de difícil respiração.
Penso também que esse processo não precisa se dar de forma abrupta e dolorosa (a verdadeira maturidade não nos recomenda isso), mas pode fluir aos poucos, assintomaticamente. O importante é que seja iniciado. Creio ainda que quando surgir a sensação de leveza e de ar mais puro, é sinal de que a faxina foi concluída. E depois disso é manter a vigilância, a fim de evitar distrações e o risco de voltar a acumular tranqueiras na vida.
Me diz aqui: há pessoas que você gostaria de retirar da sua vida? Até a próxima!




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