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Se pudesse recomeçar faria tudo outra vez! Será?

  • velhicesemmedos
  • 13 de jan. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 21 de jan. de 2025

Foto: kaisersosa67
Foto: Kaisersosa67 - Canva

Ao longo da minha vida vez ou outra ouvia alguém dizer que se pudesse recomeçar faria tudo outra vez. E isso, ainda bem distante desta minha fase da maturidade, não sei porque sempre me deixava em reflexão por alguns minutos. Nas últimas décadas, a esses momentos de reflexão somei uma indagação muito pessoal: será que eu carrego arrependimentos (talvez até bem grandes), e é por isso que essa frase me toca tanto?


Depois, destinando mais tempo e profundidade à essa reflexão fui me aproximando de uma percepção que me deixou mais confortável. Fiquei pensando como, em um mundo tão transformado, poderíamos recomeçar fazendo tudo outra vez, sem arrependimentos. Isso seria inteligente? Ou mais: isso seria mesmo possível?


É claro que a frase que mexeu comigo por um longo tempo sempre era pronunciada por pessoas com ao menos quatro décadas de vida na bagagem, portanto com tempo suficiente para acúmulo de vivências e experiências que certamente as moldaram e lapidaram ao longo da jornada, transformando-as, assim como o mundo ao redor. Então como poderiam afirmar que fariam tudo outra vez em um recomeço?


Realizações


Evidentemente há realizações especiais na vida de qualquer um de nós das quais não se tem dúvidas sobre a importância ou significado que tiveram ou têm no que somos hoje ou no que ainda pretendemos realizar. E nesse sentido não hesitaríamos em fazer de novo, como talvez um casamento, filhos, um curso superior, uma experiência de moradia fora do país, um bom investimento numa carreira profissional, um bom “pé de meia”. Enfim, realizações bem sucedidas, que trouxeram satisfação e felicidade.


Mas ainda assim provavelmente algumas dessas realizações não se dariam da mesma forma que se deram há um tempo atrás. Talvez o casamento pudesse ter esperado um pouco mais (ou um pouco menos, quem sabe? Talvez até mesmo nem precisasse ter acontecido); os filhos também (talvez pudessem ter sido em maior número); o curso superior ter sido outro (mais afinado com as habilidades e essência pessoal, e menos com interesses da família ou econômicos). E o que dizer de realizações importantes, mas que não foram coroadas de êxito? Ou até mesmo da ausência de realizações importantes ou significativas na vida? Ainda faria tudo outra vez?


Imagem: Ormalternative
Imagem: Ormalternative

Há tanta competência ou perfeição assim nessas realizações (ou não realizações) ao longo da vida? Tudo impecável ou irretocável? Ou há dificuldades em assumir erros e fracassos? Talvez alguma arrogância, prepotência ou um espírito imbuído de jogar sempre pra plateia (hoje também nas redes sociais)? Quem sabe ainda um conformismo meio patológico diante da vida? Bem, que atire a primeira pedra quem consegue revelar os segredos da alma humana. Mas entre tantos sentimentos que tumultuam a nossa existência, há dois muito importantes.


Sentimentos que maltratam


Esses sentimentos são irmãos gêmeos (ainda que não idênticos), andam sempre juntos e parecem não viver sem a presença um do outro. O casalzinho passeia serelepe por entre muitas e muitas vidas que carregam mais histórias para contar, nós, da meia-idade em diante. E como são devastadores e podem nos roubar alegria, felicidade e vida essa dupla de “impertinentes”. Quem são? Ora, ora, ora: o Sr. Arrependimento e a Dona Culpa.


Há muitas observações e análises em áreas diversas do conhecimento sobre esses sentimentos tão danosos e suas consequências na vida. Bronnie Ware, uma enfermeira australiana com longa experiência em cuidados com doentes terminais escreveu um livro (Antes de partir: os cinco maiores arrependimentos que as pessoas têm antes de morrer) em que relata o surgimento desse sentimento avassalador entre essas pessoas, impondo ainda mais sofrimento a quem já está se despedindo da vida. E o pior de tudo é que geralmente se trata de arrependimento pela inércia, pela ausência de posicionamento diante da vida, pela falta de coragem em correr riscos, em suma pelo que não foi realizado.


O quão doloroso realmente deve ser não contar mais com tempo para experimentar, realizar ou reverter coisas. Espora e chicote batendo num cavalo exausto, sem mais forças para levantar e seguir adiante. Arrependimento e culpa em ação conjunta, sem dó nem piedade, corroendo os restos de uma vida provavelmente titubeante, dominada por muitos medos, inseguranças e imposições diversas. Creio nos faça bem ter em mente a morte como a melhor conselheira da vida, lembrada na canção “Epitáfio”, dos nossos nacionais e contemporâneos Titãs:


“Devia ter amado mais

Ter chorado mais

Ter visto o Sol nascer

Devia ter arriscado mais

E até errado mais

Ter feito o que eu queria fazer ...”   


Sem mais perda de tempo


Não há vida sem que em algum momento arrependimentos e culpas se façam presentes, por vezes numa companhia até a morte, como mencionado. Não há vida perfeita, acabada, mas vida em construção, eternamente lapidável. Não há mundo estático, mas em transição o tempo todo. Amanhã nem ele e nem nós somos os mesmos. Tenho alguns bons arrependimentos (creio que menos culpas) e nenhuma vergonha de expressá-los porque sou movida pela paz de perceber que eu não sabia o que só hoje sou capaz de saber.


Além disso, também sou movida pela vontade de realizar diferente muitas coisas na minha vida, e pra isso estou correndo atrás. Quero recalcular a rota enquanto ainda há tempo suficiente (útil, e não inútil), consciente de que ela poderá ser recalculada uma infinidade de vezes ao longo do percurso, porque o destino final pode, de igual modo, sofrer alterações a todo momento em que uma certa sabedoria acender um sinal de alerta. 


E para terminar por hoje fica ainda a excelente reflexão da médica geriatra e também especialista em cuidados paliativos do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, a Dra. Ana Cláudia Quintana (@anaclauquintanaarantes):


“Não é uma questão de ser egoísta, mas é importante para as pessoas ter um compromisso com a realização do que elas são e do que elas podem ser. Precisam descobrir do que são capazes, o seu papel no mundo e nas relações. A pessoa realizada se faz feliz e faz as pessoas que estão ao seu lado felizes também”.


Como já se sabe, a caminhada tende a ser longa (parte dela pode não contar com tempo útil de verdade), mas não é nada fácil para a maioria de nós pobres mortais. Por isso continuo achando pouco real quem, depois de muito caminhar, queira convencer os outros caminhantes de que faria tudo outra vez. Convencer o outro ou a necessidade de convencer a si mesmo(a)? Alguma culpa? Até a próxima!

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