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Experimentando um Natal fora da caixa

  • velhicesemmedos
  • 10 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura
Foto: Larissa Wittig
Foto: Larissa Wittig

Entre tudo o que há de bom na maturidade, ter consciência de quantas vezes refletimos e agimos de formas tão variadas diante de uma mesma coisa é algo que sinceramente proporciona muito prazer. É uma sensação maravilhosa não termos mais a necessidade de tanta coerência e rigidez no que falamos e fazemos. Podemos dizer e desdizer sem pudores; ir e voltar atrás sem constrangimentos. Por isso, hoje em dia, ouso defender a experiência de um Natal fora da caixa.


Faço esta introdução para falar das diferentes reflexões e sentimentos que já nutri em relação ao Natal, cujo dia se aproxima. A data mais importante para os cristãos não passa incólume a dois sentimentos opostos e predominantes na comemoração: alegria e tristeza. Não posso deixar de concordar com o senso comum de que muitas pessoas ficam em baixo-astral nesta época do ano. E suspeito que, entre essas pessoas, nós, os mais maduros, estejamos em maior número.


Carrego comigo o que bem disse nosso poeta Lulu Santos em uma de suas composições:


Nada do que foi será

De novo do jeito que já foi um dia

Tudo passa, tudo sempre passará

A vida vem em ondas

Como um mar

Num indo e vindo infinito


Nunca achei que ele estivesse tomado por sentimentos saudosistas ou melancólicos quando escreveu essa canção. Pelo contrário — pelo que já vi de seus posicionamentos e de sua personalidade — creio que estivesse cheio de consciência e energia para viver a vida acompanhando seu ritmo natural, o da mudança.  


Experiência pessoal


Ainda que a imensa maioria dos meus Natais tenha sido no modo “família, ceia caprichada e presentes”, e também no modo “shopping e 25 de março”, já vivi Natais no modo “eu comigo mesma”, “eu sem roupas novas” e “eu em trânsito” (viajando em plena noite de Natal). E cá estou, contando a história. Sobrevivi! Hoje vejo o Natal, penso eu, mais próxima do que ele de fato significa. Experimento um Natal fora da caixa onde foi colocado.


Mantenho-me em “zero estresse” ao longo dos dias que o antecedem; gosto de fazer uma faxina geral e enfeitar a casa com a simplicidade com que Jesus Cristo chegou ao mundo. Compro poucas e pequenas lembrancinhas (apenas para os que me são mais próximos e queridos). E amo os momentos de preparar a ceia e arrumar a mesa para a confraternização de um grupo cada vez mais reduzido de pessoas. Tudo sem excessos —  sempre me esforçando para ter em mente o real significado de todas essas ações.  


Foto: kieferpix
Foto: kieferpix

Ao mesmo tempo, não poderia deixar de lembrar dos afetos que não estão mais aqui, e isso me dá saudades. Mas, exceto no primeiro ou segundo ano da ausência, sempre me esforcei para que essa saudade não se transformasse em tristeza com data e lugar marcados. Isso tiraria de mim, para sempre, o prazer e a alegria de celebrar tão bonito e significativo evento religioso. Também penso que nenhum dos meus queridos que já partiram aprovaria tal comportamento — entusiastas da vida que foram aqui na Terra.         


Perdas e tristeza


Se a alegria é um sentimento que rege a data (e não poderia deixar de ser, já que para os cristãos ela marca a chegada ao mundo do Salvador), e se nós a transformamos em uma grande e aguardada festa regada a presentes, looks caprichados e muita comilança, por que a tristeza insiste em se fazer presente também?


Creio que muitas vezes isso se dá pelas perdas que acumulamos ao longo das décadas. Não apenas de pessoas e dos vínculos que tínhamos com elas, mas também, em certa medida, de esperança, de fé, de entusiasmo pela vida.


Nesse sentido, acredito que cultivar bons hábitos, saúde física, mental e espiritual, amizade e interesses pessoais ao longo do ano é imprescindível para a construção e o fortalecimento do nosso conteúdo interior, deixando-nos protegidos contra tudo o que possa abalar nossa alegria de viver em qualquer época, independentemente da carga emocional contida (ou fabricada) nela.

Foto: Matheus Bertelli
Foto: Matheus Bertelli

Eu sei que cuidar bem de nós mesmos não é tarefa das mais fáceis. Exige consciência, mente alerta e disciplina para estabelecer uma rotina e manter constância. Só assim  conseguimos ver resultados. Há algum tempo coloquei isso na cabeça — e, cada vez que sinto preguiça, penso que é a constância que faz a “mágica” de transformar algo feio em bonito, algo desagradável em agradável, rígido em flexível, e por aí vai.


Hoje, mais do que nunca, as mídias sociais e os interesses por trás delas colaboram intensamente para a construção de um clima que faz parecer que entrar na vibe de euforia é o único caminho que conduz ao maravilhoso mundo encantado do Papai Noel. E isso pode deprimir — afinal, quem se sente bem excluído de tão “espetacular” momento da humanidade? Mas nada como um freio de arrumação para trazer de volta a realidade.


Modo personalizado


Quem foi que disse que, nesta altura da vida, ainda precisamos de tudo isso para curtir o nosso Natal? Na fase em que estamos, se isso ainda não foi, já deveria ter sido superado. Quantos Natais já tivemos? E com os mesmos ingredientes. Hoje pode não fazer mais sentido ter mais do mesmo. Podemos (e devemos) curtir o que queremos no modo personalizado.


Eu sei que, na maioria das vezes, não estamos sozinhos(as). Há família e outras pessoas a considerar. Então, é preciso lançar mão da diplomacia. Acredito que sinceridade e uma comunicação baseada em amor e respeito são capazes de ajustar bem as coisas, para que todos curtam uma festa bacana.


E tem mais: afora a “digital” de uma data especialíssima do calendário cristão, o

Natal é apenas mais um dos 364 dias das nossas vidas. Depois do almoço das sobras da ceia no dia 25, tudo flui “como dantes na terra de Abrantes”, rumo à última semana do ano e à festa da virada. Que, como sabemos, é também apenas o derradeiro dia do ano — o fechamento de um ciclo de 365 e o início de outro. Nada mais!


Então, companheiros e companheiras da meia-idade, que vivenciemos estas festas de fim de ano sem mais do mesmo, mas alinhadas ao que já absorvemos ao longo das nossas décadas de vida. Que elas possam retratar os nossos valores e se firmar como expressão do que são — livres das estratégias mercadológicas criadas exclusivamente para conquistar compradores e clientes de um oceano de marcas e produtos que até podem vender alegria, mas não vendem felicidade.


E você? Se anima para experimentar um Natal fora da caixa? Até a próxima!       

        

 

  

  

 

 

1 comentário

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Valdenice Moraes
14 de dez. de 2025
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Boa reflexão !! Feliz Natal 2025

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