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Experimentando um Natal sem mais do mesmo

  • velhicesemmedos
  • 23 de dez. de 2024
  • 5 min de leitura

Atualizado: 21 de jan. de 2025

Foto: Tsuphotos - Canva
Foto: Tsuphotos - Canva

Entre tudo o que há de bom na maturidade ter consciência das vezes em que refletimos e agimos de formas as mais variadas em relação a uma única coisa, é algo que sinceramente proporciona muito prazer. É uma sensação maravilhosa não ter mais a necessidade de tanta coerência e rigidez quanto ao que falamos e fazemos. Podemos dizer e desdizer sem pudores; irmos e voltarmos atrás sem constrangimentos. Por isso hoje em dia ouso defender a experiência de um Natal sem mais do mesmo.


Faço esta introdução para falar das diferentes reflexões e sentimentos que já nutri em relação ao Natal, cuja véspera é amanhã. A data mais importante para os cristãos não passa incólume a dois sentimentos opostos, contraditórios e predominantes na comemoração: alegria e tristeza. Não posso deixar de concordar com o senso comum de que muitas pessoas ficam baixo astral nesta época do ano. E suspeito que entre essas pessoas nós, os mais maduros, estejamos em maior número.


Carrego comigo o que bem disse o nosso poeta Lulu Santos em uma de suas composições:


“Nada do que foi será

De novo do jeito que já foi um dia

Tudo passa, tudo sempre passará

A vida vem em ondas

Como um mar

Num indo e vindo infinito”


E nunca achei que ele estivesse tomado por sentimentos saudosistas e melancólicos quando escreveu essa canção. Pelo contrário, pelo que já vi dos posicionamentos e da personalidade do artista, creio estivesse cheio de consciência e energia para viver a vida acompanhando o seu ritmo natural, o da mudança. E salve Lulu!


Experiência pessoal


Ainda que a imensa maioria dos Natais eu tenha curtido no modo ‘família, ceia caprichada e presentes’, e no modo ‘shopping e 25 de março’, curti também nos modos ‘eu comigo mesma’, ‘eu sem roupas novas’ e ‘eu em trânsito’ (viajando em plena noite de Natal). E cá estou contando a história. Sobrevivi! Hoje vejo o Natal penso que mais próxima do que ele de fato significa.


Me mantenho ‘zero estresse’ ao longo dos dias que o antecedem, gosto de fazer uma faxina geral e enfeito a casa com a simplicidade com que Jesus Cristo chegou ao mundo. Compro poucas e pequenas lembrancinhas (apenas para os que me são mais próximos e queridos). E amo os momentos de preparar a ceia e arrumar a mesa para a confraternização de um grupo cada vez mais reduzido de pessoas. Portanto, tudo sem excessos e sempre me esforçando para ter em mente o real significado de todas essas ações.  


Ao mesmo tempo, num momento como esse não poderia deixar de lembrar dos afetos que não estão mais aqui, e isso me dá saudades. E, a não ser no primeiro ou segundo ano da ausência, me esforcei para que essa saudade não se transformasse em uma tristeza com data e lugar marcados, o que tiraria para sempre da minha vida o prazer e a alegria de celebrar tão bonito e significativo evento religioso. Também penso que nenhum dos meus queridos que já partiram aprovaria o meu comportamento, entusiastas da vida que foram aqui na Terra.         


Perdas e tristeza


Mas se a alegria é um sentimento que rege a data (e não poderia deixar de ser já que para os cristãos marca a chegada ao mundo do Salvador) e se nós a transformamos em uma grande e aguardada festa, regada a presentes, looks caprichados e muita comilança, por qual motivo a tristeza insiste em se fazer também presente no evento? Creio que muito frequentemente pelas perdas que acumulamos ao longo das nossas décadas de vida. E não apenas de pessoas e dos vínculos que tínhamos com elas, mas também e em certa medida, de esperança, de fé, de entusiasmo pela vida.


Nesse sentido acredito que cultivar bons hábitos, a saúde física, mental e espiritual, a amizade e os interesses pessoais ao longo de todo o ano são imprescindíveis na construção, enriquecimento e fortalecimento do nosso conteúdo interior, deixando-nos protegidos contra tudo o que possa abalar a nossa alegria de viver em qualquer época do ano, independentemente da carga emocional contida (ou fabricada) nela.


Eu sei que cuidar bem de nós mesmos não é tarefa das mais fáceis. Isso exige consciência, mente alerta e disciplina para estabelecer uma rotina e manter constância nas ações. Só assim é que poderemos ver resultados. Há algum tempo coloquei isso na cabeça, e cada vez que sinto preguiça para fazer algo penso sempre que é a constância que vai fazer a “mágica” de transformar algo feio em bonito, algo desagradável em agradável, algo rígido em flexível, e por aí vai.


Hoje também, e mais do que nunca, as mídias sociais e todos os interesses que se encontram por trás delas colaboram intensamente na construção de um clima que faz parecer, a quem não entra nessa vibe de euforia, o único caminho que conduz ao maravilhoso mundo encantado do Papai Noel. E isso pode deprimir, afinal de contas quem é que se sente bem excluído de tão espetacular momento da humanidade? Mas nada como um freio de arrumação para trazer de volta a realidade.


Modo personalizado


Quem foi que disse que nesta altura da vida ainda precisamos de tudo isso para bem curtir o nosso Natal? Na fase em que estamos se isso ainda não foi, já deveria ter sido superado. Quantos Natais já tivemos na vida, e com os mesmos ingredientes. Hoje pode não fazer mais sentido ter mais do mesmo. Podemos (e devemos) curtir o que queremos no modo ‘personalizado’.


Foto: 3dts - Canva
Foto: 3dts - Canva

Eu sei que na maioria das vezes não estamos sozinhos(as). Há família e outras pessoas a considerar. Então há que se lançar mão da diplomacia. E aí acho que sinceridade e uma comunicação que tenha por base amor e respeito são capazes de ajustar bem as coisas para que todos curtam uma festa bacana.


E tem mais: afora a “digital” de uma data especialíssima do calendário cristão, o Natal é apenas mais um dos 364 dias das nossas vidas. Depois do almoço das sobras da ceia no dia 25 tudo flui “como dantes na terra de Abrantes” rumo à última semana do ano, e à festa da ‘virada’. Que já sabemos, é também apenas o derradeiro dia do ano, o dia do fechamento de um ciclo de 365 e início de outro. Nada mais!


Então companheiros e companheiras da meia-idade, que vivenciemos essas festas de fim de ano sem mais do mesmo, mas a partir do que já absorvemos ao longo das nossas décadas de vida até aqui, a fim de que elas possam retratar os nossos valores e se firmarem como expressão do que são de verdade, livres das estratégias mercadológicas criadas única e exclusivamente para a conquista de compradores e clientes de um oceano de marcas e produtos que podem vender alegria, mas não felicidade.


E você, costuma ficar alegre ou triste no Natal? Me conta aqui! Até a próxima!       

        

 

  

  

 

 

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