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Cego, ignorante ou o quê? Como a relação com a natureza pode mudar a sua vida!

  • velhicesemmedos
  • 18 de jun. de 2025
  • 7 min de leitura
Foto: arquivo pessoal
Foto: arquivo pessoal

Não dá pra ser polida diante de tamanha incompetência para enxergarmos coisas que têm total capacidade de melhorar sensivelmente as nossas vidas; que muitas vezes estão tão perto que é difícil mesmo enxergar; e que de tão simples e óbvias não contam com a nossa atenção e respeito. E ainda mais: coisas com as quais não precisamos gastar nenhum centavo do nosso suado dinheirinho. Por tudo isso o tom desafiador da pergunta que abre este artigo: cego, ignorante ou o quê?


Me impressiona muito como nos tornamos presas fáceis de um sistema que conseguiu enfiar em nossas cabeças que temos que pagar por tudo (o que queremos, o que nem sabemos que queremos, e até mesmo o que temos certo sentimento de que não queremos, e mesmo assim cedemos). Hoje, para onde nos viramos há um custo financeiro: para termos saúde, para gozarmos de bem-estar, para nos regozijarmos de uma boa aparência física (afinada com as tendências da vez), para aprendermos seja lá o que for (e ensinarmos também), e enfim para sermos felizes.


Penso que diante dessa realidade em que estamos submersos realmente perdemos a capacidade de voltar a enxergar o valor e a potência que muitas coisas simples têm, e muito especialmente quanto a melhora de nossas vidas. Sim, falo com você que está na meia-idade como eu, e que, portanto, nasceu a tempo de vivenciar a simplicidade da vida. Por isso penso na capacidade e, de certo modo, também dever, de resgatarmos o que nos foi sorrateiramente retirado ao longo dos anos. E para benefício maior dos nossos filhos, netos e demais que virão.


Pulo do gato


Não curiosamente nos últimos tempos o próprio mercado tem se aproveitado desse nosso distanciamento involuntário da simplicidade. Sabe aquela máxima de ‘vender dificuldades para criar facilidades’? Pois é, a estratégia é similar: primeiro desenvolveram infinitas e modernas possibilidades para gastarmos o nosso dinheiro (tendo ele em disponibilidade ou nos endividando para tanto). Depois veio a grande sacada: dar ares de raridade e precificar como tal o que sempre havia sido abundante, acessível, simples, óbvio, potente e gratuito.

Foto: undefined
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Assim, coisas simples da vida viraram produtos. Andar descalço na grama agora é terapia. Tomar banho de rio ou cachoeira tem taxa de entrada. O silêncio virou serviço em retiros de descanso. O som da natureza é vendido como ‘banho de floresta’. Até cozinhar comida simples ganhou nome de ‘culinária afetiva’ e virou experiência paga. Piquenique no parque, brincar na rua, colher fruta do pé - tudo isso, que era natural, hoje é vendido. Deram outra roupagem e transformaram o que era comum em mercadoria.


E então nos vemos pagando caro se quisermos voltar a sentir, nem que seja por alguns instantes, uma comida verdadeiramente caseira ou um passeio a um sítio para tirar frutas diretamente do pé. E tudo isso sem sequer percebermos o absurdo a que fomos submetidos. E por que hoje transformadas em ‘experiências’ raras e caras, não conseguimos “consumi-las” na mesma proporção dos nossos direitos e necessidades. E aí vem o meu ‘mantra’: é preciso estar com a mente alerta, atenta a tantas artimanhas e armadilhas, simplesmente porque isso é insano. É ou não é, meus pares de meia-idade?


Hoje vou me deter em um único exemplo de algo simples, acessível e que nos faz tremendo bem: à saúde física, mental e emocional; ao desenvolvimento de virtudes como a paciência, a disciplina e a temperança; a uma maior conexão espiritual, e ainda a um melhor conhecimento de nós mesmos e uma compreensão mais aprofundada de como funcionamos enquanto seres humanos, pequena engrenagem de um mesmo e único sistema biológico.


Uma experiência pessoal


À exceção dos meus primeiros 6 anos de vida, até 7 anos atrás eu só havia morado em cidades de grande e médio portes, e na maior parte do tempo em apartamentos. Minha relação com a natureza se limitava a umas poucas plantinhas dentro de casa. E ainda assim esperando delas muita autonomia e independência para se manterem bonitas e saudáveis sem cuidados constantes. Quanto aos pássaros, e em ambiente tão urbano, raramente ouvia o canto de algum. E creio que ouvindo talvez fosse incapaz de me encantar (olhos e ouvidos subjugados à dureza do concreto e do asfalto).


Mas então, eis que circunstâncias da vida me encaminharam para o interior, e como se já não fosse pouca a diferença, me vi morando numa pequena chácara com alguns Flamboyants e Ipês (não sabia o nome deles até então), goiabeira, pitangueiras, mangueira, plantas de jardim, um sem número de pássaros e outros tantos pequenos animais e insetos. Principalmente em relação a esses últimos, confesso que no início a convivência foi desconfortável e cheguei a sentir saudade do ambiente “higiênico” dos aptos. E só pensava em exterminá-los.


Mas ao longo do tempo fui me acalmando com a relação, percebendo que de certo modo a intrusa ali era eu, e que o espaço era bem grande para a acomodação de todos os seres vivos que compunham o ambiente. Me cabia então observar, compreender, aceitar e respeitar a lógica natural para uma boa convivência. E assim fui capaz de fazer, mas não sem primeiro perceber que antes mesmo de conseguir contribuir com algo, a generosidade da natureza ao meu redor já me presenteava sem esperar nenhuma retribuição.


Eu, que nunca tinha mexido na terra e pouco me interessado por ela, me percebi deixando alguns tradicionais prazeres de lado para pesquisar e assistir programas de tv sobre plantas e o universo rural de uma forma geral. Tomei conhecimento das melhores épocas para plantar e/ou podar as espécies do meu interesse; melhor local para cultivá-las; frequência de regas e tantas outras coisas sobre as quais morreria sem saber. E caso me fossem dadas as condições para analisar a minha passagem terrena, eu jamais me perdoaria por não ter aproveitado tão enriquecedora e escancarada oportunidade.

Foto: arquivo pessoal
Foto: arquivo pessoal

Ao mesmo tempo em que absorvia a teoria fui exercitando-a, cavando covas para plantar mudas, fazendo canteiros e arranjos como a minha criatividade permitia; percebia com consciência todos os ciclos das árvores, frutíferas ou não; aguardava a época certa do florescer dos Flamboyants e Ipês; descobria botões nas orquídeas anunciando a presença futura das flores. Foi muito aprendizado, e antes mesmo de a minha vivência nesse ambiente chegar ao fim, eu já podia sentir o singular desabrochar pessoal na minha vida.


O que a natureza me ensinou


Toda aquela natureza povoada por tantos pássaros, como os costumeiros bem-te-vis, mas também não raros beija-flores e pica-paus (inclusive os de cabeça vermelha), além de visitantes trabalhosos como os saruês e ouriços, e outros que assustavam, como os lagartos de tamanho que lembravam as iguanas, contribuiu generosamente para uma melhor compreensão do humano como parte e também reflexo de tão poderoso e inteligente sistema.

 

Poder observar a dinâmica de todos os seres naquele pequeno ecossistema de 1.600 metros quadrados, me permitiu ampliar o meu autoconhecimento e compreender melhor os meus sentimentos e emoções. Constatar assim, in loco, que na natureza tudo tem uma função, um propósito, me trouxe quietude espiritual para coisas que me incomodavam e causavam sofrimento. Perceber a existência dos ciclos e o respeito que se deve ter a eles; o recolhimento e a manifestação;, a escassez e a fartura; a reciprocidade natural, o todo e as partes... Isso tudo me levou à certeza do quanto essa experiência me elevou, e como foi capaz de impactar o meu aqui e agora, ou seja, o modo como já estou vivendo o tempo que ainda tenho pela frente.

Foto: arquivo pessoal
Foto: arquivo pessoal

Acordar cedo com a alegria dos pássaros, sujar as mãos de terra, caminhar na grama, cuidar das plantas, embelezar a casa com elas, tê-las como companheiras de todos os dias foi uma verdadeira benção em minha vida. Nunca pensei que coisas tão simples tivessem tamanho poder de transformação numa vida humana. Hoje eu sei que têm. E quero dividir com quem puder, quão poderosa é essa experiência. Não dá mais pra continuar cego, ignorante ou o que quer que seja, a relação com a natureza pode mesmo mudar as nossas vidas.


Nestas nossas décadas de vida poucos são os que nunca ouviram dizer que mexer com terra e plantas é uma terapia. Eu me considero um exemplo de que isso é verdade. Enquanto eu passava ali uma ou até duas horas me mexendo pra lá e pra cá entre as plantas, eu simplesmente me abstraía do “resto” da vida. Era como que uma oração sem palavras, uma meditação com a mente vazia. Éramos nós duas, eu e a natureza, num momento de cumplicidade e integração.


Fazendo sua própria experiência


Talvez agora você esteja pensando: ah, mas foi numa chácara onde você viveu essa experiência tão marcante. E eu não disponho nem de meio metro quadrado para tentar. E eu te digo: mais importante do que o espaço físico é a disposição e determinação para viver a experiência. Certamente eu tive o privilégio da chácara. E talvez ele me tenha sido concedido na proporção da minha necessidade, ou seja, da ignorância frente à questão. Quero dizer que você, quem sabe menos tosco(a) do que eu, possa obter melhores resultados, cultivando apenas 2 ou 3 vasos de plantas dentro de casa. Como hoje eu mesma faço, porém com a

consciência alargada.


Relato a minha vivência na chácara apenas como um ponto de partida aqui para o artigo, e também como sendo o fato gerador, capaz de me despertar, sensibilizar e, em boa medida, redirecionar a minha vida em importantes aspectos. Ainda assim, talvez você continue a insistir: “mas acordar cedo, prestar atenção aos passarinhos e mexer com as plantas foi capaz de tudo isso?” E eu direi: e sem gastar nada mais além do que alguns minutos ou poucas horas por dia.


Não importa o quanto de natureza se tem ao alcance. O que importa é saber (por mais óbvio que seja) que ela é sábia, poderosa, generosa, integrativa e está em toda parte. Basta apenas que prestemos atenção. E ainda é preventiva e curativa. Será que nesta altura da vida ainda pairam dúvidas sobre os benefícios de se aproximar mais dela, observá-la e se deixar fluir pelos seus ensinamentos?


Não perca mais tempo: encha a sua casa com plantas, frequente parques, visite amigos e familiares que ainda contem com um jardim ou quintal, faça trilhas e caminhadas, descubra um jardim botânico, uma cachoeira, contemple um nascer ou pôr do sol, os ciclos da lua, o trabalho das formigas, o canto de um pardal que seja. Olhe para o alto, perceba uma noite estrelada, nuvens que se movimentam, chuva que cai. E se esforce para aprender com todas essas coisas.


Entregue-se e integre-se! A opção por viver uma vida com mais presença da natureza acalma, liberta, transforma. Tudo fica mais leve, bonito e vibrante. Acredite! Experimente! E até a próxima!

 

             

3 comentários

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Edson Batista
25 de jun. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Olá minha Amiga, divino texto, abrangente e Reflexivo.

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Patrícia Lyra
21 de jun. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Texto mais do que necessário que comunga com o excesso de consumismo, e eu que o diga! Ser feliz no simples é possível. Nesse mundo que nos é dado/cobrado todos os dias e nem percebemos, com tantas ofertas e obrigações comerciais, fazer o caminho contrário é vital. Obrigada pelas palavras

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Valdenice de A.Moraes
21 de jun. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

O Estudo deste artigo mostra a exuberância da natureza com toda sua diversidade . Somos capazes de vivênciar o prazer de sentir o O2 ar que respiramos . Contemplamos todo o universo neste momento de reflexão . Precisamos "Sim" de experiências.

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