Como transformar a nossa rede de relacionamentos em proteção social
- velhicesemmedos
- 16 de set. de 2024
- 6 min de leitura

Entre tantas coisas que temos que prestar mais atenção nesta nossa fase da meia-idade, há uma que considero de extrema importância, sem a qual todo o resto se estabelece em terreno arenoso, pouco estável. Falo dos relacionamentos sociais e da matéria-prima com que eles são construídos e mantidos. E reflito ainda sobre como transformar a nossa rede de relacionamentos em proteção social para esta segunda metade da vida.
Quem conta com algumas décadas de vida como nós, num processo mais acelerado de envelhecimento rumo à temida velhice, sabe que a passagem do tempo naturalmente se encarrega de ir restringindo o universo das pessoas em nossa órbita de atuação. Além disso, e apesar da nossa natural habilidade para a sociabilização, a realidade na qual estamos vivendo trouxe com ela algumas características que têm tornado a vida ainda mais desafiadora nesse sentido.
Olhando em retrospecto, quantas pessoas passaram por nossas vidas? Quantas permaneceram por um bom tempo? Quantas se encontram presentes até hoje? Mas essa fluidez e alternâncias constituem o movimento que é próprio da vida, então não nos cabe melancolia. No entanto, e sendo muito sinceros, quantos de nós, já hoje e em alguma medida, sentem o gostinho amargo da solidão em muitos dos dias?
É gente que já não conta mais com os filhos por perto (física ou emocionalmente), com um amor para chamar de seu, com um esposo ou esposa verdadeiramente companheiro (a), com um amigo para todas as horas, com um vizinho no qual possa confiar a chave de casa, enfim... a solidão está escondida em muitas circunstâncias e endereços. Mas a ela, aqui neste contexto, quero atribuir um papel apenas secundário. A solidão, a exemplo de outras carências e necessidades, é um subproduto do que pretendo abordar, quer seja a importância da construção dos relacionamentos sociais.
O Homem é um ser social, portanto a sua natureza não lhe permite viver só sem que isso não lhe imponha sérios danos mentais e emocionais. Desse modo, não conseguindo viver só, é levado a se relacionar com os seus semelhantes, e tal tarefa não é das mais fáceis, principalmente porque relacionamentos se estabelecem por meio de emoções (a quantidade de pets que vemos hoje em dia parece ser indicativo de um Plano B nessa difícil empreitada). Então, podemos dizer que as emoções são os tijolos e a argamassa na construção das relações. Podemos mesmo deduzir que, antes de mais nada, somos emoções.
Não sou psicóloga, portanto não vou meter a colher no caldeirão dos outros, ainda mais num caldo tão espesso e borbulhante como esse. Mas se somos emoções, devemos refletir: quais delas estão presentes nessa massa que nos dá corpo e alma? Em qual grau de concentração? Há predominância de uma sobre outra? Há alguma tão nociva que deva ser neutralizada? Ou todas se encontram em perfeito equilíbrio e harmonia? Nesse campo, todos temos sombras, e o passar do tempo às vezes as deixam mais escurecidas. Então precisamos primeiro ter consciência das nossas emoções, já que elas são a matéria-prima das nossas relações.
Com foco total na consciência
É importante considerar que a restrição de relacionamentos à qual a vida acaba nos levando não pode ser vista como obstáculo numa atitude inteligente de melhor elaboração de uma nova realidade nesse sentido. É preciso ter em mente as exigências do momento presente e buscar construir, reconstruir ou apenas adequar a nossa rede de relacionamentos a essas exigências ou necessidades atuais, transformando-a em proteção efetiva para os nossos dias.
Nesta altura da vida, e por tudo o que já passamos, sabemos que uma das coisas mais difíceis é exatamente o se relacionar com o outro. Isso exige habilidade, um bom ‘jogo de cintura’, virtudes e atitudes que muitas vezes nos faltam. Mas apesar disso, o lado bom é que nos conhecemos mais e melhor, então já temos alguma consciência do que precisamos fazer a fim de melhor nos relacionarmos e evitarmos sofrimentos. E essa consciência já é um primeiro e importante passo.

Considero que poucas coisas na vida exijam tanto tempo, cuidado, dedicação e empenho como os relacionamentos sociais. Há muito tempo me acostumei dizer que a dificuldade não está em conhecer pessoas e estabelecer com elas alguma ligação. O desafio está em cultivar esse vínculo, regando-o a cada dia, adubando-o e revolvendo a terra de vez em quando, fazendo as podas necessárias. Isso dá trabalho e muitas vezes falta-nos sabedoria para enxergar os benefícios, até porque a tão famosa zona de conforto está sempre a postos, dificultando as realizações.
Tive um amigo que se diferenciava pela quantidade e qualidade dos relacionamentos que nutria. Ele costumava se relacionar com qualquer pessoa, sem nenhuma distinção: lembrava do aniversário de todo mundo, ligava para parabenizar, visitava, ajudava no que cada um precisasse, abria a casa dele para acolher, motivava as pessoas fazendo-as acreditar que podiam o que queriam, enfim, eu o admirava muito nesse sentido. E graças a Deus pude expressar a minha admiração para ele, num gesto de agradecimento por ter tido a sorte de contar com pessoa tão especial na minha vida.
Importa destacar que pela profissão que exercia, ele era uma pessoa muito ocupada. No entanto, priorizava os seus relacionamentos. E quando às vésperas dos seus 45 anos de idade recebeu o diagnóstico de um câncer muito agressivo e sem cura, e que o levou daqui em menos de dois anos, contou com a presença de uma legião de pessoas que se disponibilizaram como podiam para oferecer a ele algum apoio naquela fase de tanto sofrimento, como pude testemunhar. E os apoios foram muitos e variados: de orações à distância a tarefas mais práticas de cuidado e bem-estar nos dias mais difíceis.
Quis contar essa história para chamar a atenção para o fato de que se os relacionamentos sociais são importantes ao longo de toda a vida, na fase do envelhecimento eles merecem ainda mais atenção. Como já disse, agora temos maior consciência sobre as nossas dificuldades, limitações e necessidades, seja de que ordem e natureza forem, e isso nos dá maiores condições de enfrentarmos, sem mais demora e com assertividade, o que tem de ser enfrentado, a fim de nos prevenirmos de sofrimentos presentes e futuros. Lembrando sempre que o futuro nos encontrará mais frágeis e vulneráveis.

Hoje, por exemplo, e diante do rápido envelhecimento da população, com um número já importante de pessoas idosas, vem se falando muito em apoio comunitário e rede de proteção social. Não à toa a própria Organização Mundial da Saúde - OMS estabeleceu como definição para saúde ‘um estado de pleno bem-estar físico, mental e SOCIAL’, e não apenas a ausência pura e simples de doenças. E isso fala por si só. Então transformar a nossa rede de relacionamentos em proteção social é tarefa das mais importantes e urgentes, visto que estamos falando de um processo de construção, que requer tempo.
Partindo para a ação
Aproveitando o ensejo do clima de campanha eleitoral, não se trata de sairmos por aí à caça de relacionamentos a qualquer preço. Até porque também já fizemos aquele ‘upgrade’ de valores para saber que qualidade vale mais que quantidade, e que diversidade é muito mais do que uma palavra da moda. Assim, um bom começo seria reavaliar o que já existe no nosso entorno em termos de relacionamentos sociais, estabelecendo uma relação com nossa realidade de vida atual.
Nos últimos anos tenho visto muitas pessoas, em processo de envelhecimento ou já numa velhice estabelecida, em sofrimento com a ausência de algum tipo de amparo ou apoio para as suas necessidades e desejos, ainda que algumas vezes “apenas” emocionais. Percebo que as “apostas” são todas feitas na família, e em seguida, em outras pessoas que compartilham de um mesmo perfil etário e social. É claro que há motivos para tal comportamento e que a família tem um papel fundamental nesse contexto, no entanto, é sempre arriscado colocar todos os ovos numa mesma cesta (à revelia do tão propalado ‘amor incondicional’).
Por motivações as mais diversas, a família pode não suprir todas as demandas, bem como as pessoas cujo perfil semelhante também as coloca numa mesma condição de necessidades e desejos. No entanto, se há um leque variado de relacionamentos, outras pessoas ou grupos podem muito bem desempenhar o papel de oferecer ajuda e apoio quando necessário. Na vida como um todo há que se definir estratégias. E isso não deve ser visto de forma negativa, mas sim como algo que melhor nos ajude a enfrentar os desafios e viver uma vida mais próspera e tranquila.
Então é necessário abrirmos nossas mentes e corações para outros universos e possibilidades. Construir relacionamentos com pessoas mais jovens, de classes sociais diferentes da nossa, pessoas que vivem a vida com mais simplicidade, pessoas solidárias entre tantos outros perfis, irão constituir uma rede de apoio e proteção que pode fazer a diferença em muitas situações e momentos dessa nossa trajetória de envelhecimento, e mais ainda lá na frente, na velhice.
Penso que não há mais tempo a perder no sentido de abrirmos um canal de comunicação com todas essas pessoas (as que já estão em nossas vidas e as que podem entrar), a fim de estabelecermos boas relações, construindo-as em bases firmes, sólidas. Assim estaremos preparando um ambiente social mais favorável ao nosso envelhecimento já aqui e agora, e à futura velhice. Um ambiente de maior acolhimento, proteção e segurança. Um ambiente também de mais amor, afeto e ausência de tantos medos.
Agora me fala aqui: você já tinha pensado nisso? Acha que conta com uma rede de relacionamentos favoráveis ao seu envelhecimento? Até a próxima!!!




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