Como levar a sério diversão, lazer e descanso na meia-idade
- velhicesemmedos
- 9 de abr. de 2025
- 6 min de leitura

Se nesta fase que conseguimos alcançar na vida todo mundo já sabe que qualidade vale mais que quantidade, por que não conseguimos nos manter atentos em relação a isso também no que nos diverte e relaxa? Por que preferimos continuar acompanhando a boiada assim às cegas, sem ao menos saber qual é o destino? Por isso é preciso levar a sério diversão, lazer e descanso nesta nossa meia-idade.
Todos temos as nossas necessidades. E entre elas sentimento de pertencimento e aceitação são muito comuns. E isso perpassa idade ou fase da vida em que nos encontramos. Além do mais nós, seres humanos, temos uma impressionante capacidade de nos acostumarmos com as coisas, sejam elas boas ou ruins, até atingirmos um ponto em que tudo se dilui, e perdemos a capacidade de percepção do contexto que nos envolve. E o pior: de nos reconhecermos nele.
Começo o artigo de hoje desse modo porque estou consciente de que nós, que estamos na meia-idade, não devemos mais perder tempo pra viver a vida que ainda temos pela frente em total acordo ou harmonia com a pessoa que somos. E se por acaso ainda não sabemos exatamente quem somos (não se desespere, isso não é raro), sabemos ao menos do que não gostamos, ao que não atribuímos valor, o que não nos atrai, não nos tira um sorriso ou consegue ‘fazer a nossa cabeça’. E isso já é uma pista muito importante nessa nossa caminhada.
Essa percepção sobre o que não consegue tocar a nossa alma, já é capaz de nos guiar melhor pela vida, principalmente ao longo desta fase tão especial que naturalmente já nos envolve em tantas reflexões e descobertas. Nos deixando, por não poucas vezes, perplexos com as coisas que começam a pulular por todos os cantos da nossa mente (reverberando também no coração), assim como que do nada, de uma hora para outra. Mas nós, senhoras e senhores de meia-idade, sabemos que não se trata de ‘horas’, mas de décadas, umas sobre as outras.
Mal acostumados
Tudo isso até aqui pra dizer que em termos exclusivos de diversão e lazer, e apesar das nossas percepções maduras, achamo-nos atolados na lama do nos ‘acostumar com as coisas’. E isso talvez não apenas por puro comodismo (a tão mencionada zona de conforto, que muitas vezes nem é tão confortável assim) mas também por receio de ser tratado(a) como peça estranha ao tabuleiro. E lembre-se: muitos de nós ainda sente a necessidade de ser aceito e querido dentro de um grupo.
Já vi pessoas de meia-idade (e também de idade inteira) se encaixando em programas de diversão e lazer que claramente nada tinham a ver com os seus gostos e preferências pessoais, mas levadas pela valorização e exigência sociais, quase sempre distorcidas, dos relacionamentos instantâneos e do ‘aproveitar a vida’. E essa visão de ‘aproveitar a vida’, ao que parece ao estilo daquelas competições grotescas em que o indivíduo põe sua saúde em risco para se empanzinar com comida ou bebida ao longo de um tempo o mais curto possível, tendo sempre como motivação um prêmio qualquer. Mas então como levar a sério diversão, lazer e descanso na meia-idade?

E qual é o prêmio a ser conquistado quando não se respeita os próprios interesses numa área da vida tão importante quanto negligenciada como essa da diversão, do ócio, do descanso e do lazer? Cada instante, momento ou oportunidade na vida de quem já está na alegria de ultrapassar 4 ou 5 décadas, deve ser melhor aproveitado tendo sempre em vista uma evolução mental, corporal, intelectual e emocional incessante. Uma das piores coisas é estar em um lugar (já contando com uma certa consciência adquirida pela maturidade) e ter de encontrar resposta para a constrangedora pergunta íntima: “o que é que eu estou fazendo aqui?”
Confesso que já me vi numa situação dessas e foi algo muito desagradável. Mas ao mesmo tempo foi também extremamente pedagógico porque o desconforto com a experiência foi tal que também foi capaz de nortear todas as minhas futuras escolhas nesse sentido. Na direção contrária do que nos é imposto, diversão e lazer nada têm a ver em estar o tempo todo fora de casa, andando pra lá e pra cá como baratas tontas; comendo e bebendo como seres insaciáveis; submetidos ao silêncio de sons potentes e de baixa ou nenhuma qualidade em meio a multidões; envoltos em relações instantâneas e superficiais, ou ainda imobilizados diante da TV (‘maratoneando’ pelos streamings da vida).
Aceitação e pertencimento
Ainda que não querendo fazer coro com um discurso muito utilizado nestes nossos tempos de revolução prateada (maior longevidade), de que somos homens e mulheres que estando no pedestal dos ‘entas’ tudo podemos (sou mais moderada nessa questão), penso sinceramente que nesta nossa fase da vida não cabe mais a preocupação em sermos aceitos a qualquer custo. Acho que não precisamos vender a alma para o Diabo para conseguirmos a carteirinha de sócio do clube.
Hoje em dia são tantas as ‘agremiações’ e as ferramentas para acessá-las, juntamente com baixas exigências para o ingresso dos sócios, que encontrar a nossa verdadeira turma ou tribo ficou ‘mamão com açúcar’. E então fica tudo facilmente resolvido, e sem maiores sacrifícios, muito especialmente para os que ainda têm essa dificuldade ou necessidade: de aceitação e pertencimento. O Facebook, por exemplo, traz uma infinidade de grupos dos mais variados interesses dos quais se pode se tornar membro e compartilhar experiências além-tela do celular ou computador.
Antes de qualquer coisa, diversão e lazer têm a ver com saúde física, mental e emocional. São tão necessários quanto água e comida. Diversão e lazer de qualidade têm a ver com o que toca a nossa essência, já mais apurada nesta altura da vida; têm a ver com as respostas que demos às experiências que colecionamos até aqui; têm a ver com os nossos interesses puramente pessoais; têm a ver com os nossos propósitos em aproveitar tempo livre para dar asas à criatividade e imaginação, combustível oculto da força e motivação para as nossas realizações. Então como levar a sério diversão, lazer e descanso na meia-idade?
Padrão obsoleto
Óbvio é que passear, viajar, conhecer pessoas ‘ao vivo e a cores’ são coisas inestimáveis. Porém, neste mundo que estamos vivendo, a exigência social persistente por determinado padrão de diversão e lazer está no mínimo ultrapassada, sem nexo nenhum com a realidade atual onde, caso seja a nossa vontade, não precisamos sair de casa para desfrutarmos do que quisermos, e muito menos nos enfiar entre pessoas com as quais não temos nenhuma afinidade. É energia, tempo, dinheiro e vida que não podem simplesmente escorrer para o ralo.

Neste contexto, e sempre prezando pela relação de equilíbrio e harmonia, mesmo de dentro de casa podemos acessar o mundo em termos de diversão, lazer, ócio e descanso. Quantos bons livros, filmes e seleções musicais; quantas viagens pelas paisagens e culturas mundo afora; quantos encontros com pessoas queridas ou interessantes (ou outras ainda por conhecer) por meio de ligações de vídeo ou aplicativos de mensagens; quantas habilidades ou hobbies aguardando serem desenvolvidos; enfim, quantas possibilidades para, como as crianças, aprendermos enquanto brincamos.
A obsolescência da exigência social ainda se percebe pela ação de colocar todo mundo dentro de um mesmo saco, ignorando individualidades (o que dirá respeitá-las). Assim, criou-se uma fórmula simplista onde a soma de alguns componentes como bebida, comida, barulho, multidão e besteirol, entre outros, resultam em vidas felizes a serem replicadas e divulgadas para o mundo através das redes sociais. E quanta gente ainda há entre nós maduros, a se deixar levar por esse tipo de padrão pré-concebido de felicidade! Achando que não há vida satisfatória fora desse modelo. Triste realidade!
Ainda há pessoas que não concebem um bom final de semana sem que tenham saído de casa para qualquer coisa, ainda que seja para uma foto a ser postada nas redes sociais. Há algum tempo também testemunhei gente muito satisfeita com o fim de semana que teve porque ‘tomou todas’ ou porque dormiu quase os dois dias inteiros de folga (e não era caso de déficit de sono, mas acho que de energia para a vida).
É por essas e outras, amigos e amigas de meia-idade, que devemos estar alertas para não nos sentir coagidos a nos encaixar em padrões que não nos servem. Que nada têm a ver conosco e com a maturidade que conquistamos ao chegar aqui onde chegamos. Portanto, faça escolhas baseado(a) nisso, quaisquer que sejam, mas não negligencie essa que parece tão sem importância, mas que na verdade faz muita diferença numa vida mais plena e vibrante: a diversão e o lazer, os momentos de ócio e de descanso.
Ainda que tenha pouco acesso a eles, pense sempre na qualidade. Se concentre nela, no que você terá como prêmio ao priorizá-la, alheio(a) às opiniões do seu entorno. E siga em frente, mesmo eventualmente deitado(a) na rede da varanda ou no sofá da sala! Até a próxima!!!




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