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Falta de gás ou de coragem e criatividade pra se divertir?

  • velhicesemmedos
  • 19 de ago. de 2024
  • 6 min de leitura
Foto: diversifylens/Canva

Vez ou outra vejo gente que está na meia-idade fazendo brincadeiras por não estar mais com tanto gás para se divertir como se divertia, sendo a busca por conforto, segurança e comodidade a bola da vez para conseguir sair de casa. Especialmente através das redes sociais são muitas as situações criadas para fazer graça com esta fase da vida frente os momentos de diversão e lazer. E realmente tem coisas muito divertidas, com as quais creio haver muita identificação popular. Mas aqui e agora eu gostaria apenas de ampliar o foco e tecer algumas considerações nesse sentido: será mesmo falta de gás ou de coragem e criatividade pra se divertir?


O fato é que como tudo o mais neste nosso processo gradual de envelhecimento, também a nossa disposição para a diversão vai ganhando novos contornos (me causaria surpresa se assim não fosse). É claro que gostos pessoais se mantêm ao longo da nossa jornada, e como parte integrante do nosso DNA. Quem gosta de dançar possivelmente vai “morrer” dançando, do mesmo modo que quem gosta de ouvir música. E assim será em relação a tantas outras coisas que desde cedo descobrimos adoçarem as nossas vidas.


Na verdade, acho que a mudança se dá mais na forma do que propriamente no conteúdo. Então não atentamos para isso e acabamos acreditando que estamos ficando velhos para determinadas coisas. Evidentemente velhos estamos ficando a cada dia que passa, porém isso não é motivo, em absoluto, para deixarmos de nos divertir, de fazer as coisas de que gostamos ou de sentir uma dificuldade extremada (às vezes irracional) para fazê-las. São muitos os caminhos que levam à Santiago de Compostela. Cada viajante pode escolher o que mais lhe agrada ou convém.   


Muito provavelmente hoje muitas das coisas que nós da meia-idade sempre gostamos de fazer vai consumir muito mais energia do que consumia antes. Para algumas delas teremos dificuldades, ou quem sabe até mesmo impossibilidades. E não restrinjo isso a condições físicas e emocionais apenas. Em verdade há todo um contexto muito mais amplo a ser considerado nesse sentido. Consideração aliás muito importante, já que diversão e lazer não raro costumam ser negligenciados na perspectiva da saúde integral do indivíduo (às vezes até mesmo transformados em objetos de culpa em vidas mais duras e difíceis, como se luxo fossem).  


Nós mudamos, mas não o que nos diverte


Como já dito, acredito que o passar dos anos e a conquista da maturidade não altera gostos pessoais. Ao contrário, deixa-os apenas mais apurados e exigentes na forma de serem apreciados.  Penso ainda que clássicos da diversão e do lazer como bebida, comida, burburinho e paquera continuam tendo lugar entre nós, mas agora de outra forma, tudo passível de ressignificação. O vinho que nos extasiava quando estudantes hoje já não passa mais pelo controle de qualidade das nossas papilas gustativas. Os tempos são outros, nós somos outros, e os outros também agem sobre nós.


Foto: Kampus Production/Canva

Além disso, da permanência de gostos pessoais de sempre, e da maior apuração dos mesmos, pudemos conhecer, experimentar e adotar outros tantos ao longo dos anos. E hoje, mais do que nunca (porque devemos saber como impulsionar a vida na pré-velhice), precisamos usufruir desses gostos colocando-os na gavetinha da diversão e do lazer em nossas vidas. Então, se por algum motivo, não é mais possível fazer as coisas como sempre foram feitas, desafie-se! Invente outras formas de fazê-las.


Acho oportuno ressaltar que tão importante quanto não deixar de fazer as coisas de que gostamos, é resistir com todas as forças ao inconveniente saudosismo. Ele sempre surge trazendo o seu azedume, cochichando nos ouvidos mais suscetíveis a ideia de que o passado é o endereço fixo da felicidade. Como disse o poeta, “a felicidade está onde a pomos, e esse lugar nunca é onde estamos” (infelizmente). Portanto, é inadmissível que nós, que já temos um bom tempo de estrada, não contemos com alguma sabedoria para conseguir aproveitar o aqui e o agora, com todas as possibilidades que só a maturidade é capaz de nos fazer enxergar.


Autossabotagem


Todos nós, independentemente da idade que temos, somos de um comodismo assustador. E mais velhos como estamos, agregamos alguns sabotadores de vida para simplesmente nos eximirmos da culpa de não imprimirmos mais vida às nossas existências. E aí se imprime uma série de outras coisas que, ao longo do tempo, podem desembocar em doenças e arrependimentos crônicos. Sinto pena de motivos tolos paralisarem tantas pessoas nesta nossa fase da vida. Me esforço para entendê-los e respeitá-los, mas percebo alguns que racionalmente não fazem sentido e, portanto, podem ser perfeitamente superados.


O exemplo para mim é algo de grande poder. Sempre penso que se alguém foi ou é capaz de realizar algo (estou falando de simples mortais como a maioria de nós), qualquer um também o é, ainda que para tanto tenha que suprir uma ou outra deficiência identificada. Vejo pessoas se lamentando por não conseguirem fazer o que gostariam em termos de diversão e lazer porque ora lhes falta companhia, ora dinheiro, ora tempo, ora disposição física e saúde, ora saber falar um outro idioma etc. Em verdade acho que lhes falta mesmo é coragem, criatividade, prioridade, iniciativa.


Por mais medo e desconforto que desafios podem causar (e eles causam!) acredito muito que o enfrentamento deles é o que nos impulsiona para a frente. E isso nos fortalece e nos encoraja a cada vez mais nos deixarmos submeter a níveis de superação mais exigentes. E essa atitude nos arranca do lugar de sempre, em síntese: nos faz mudar. E aí não faltará gás e sobrarão coragem e criatividade. Acredite!


Uma dose de ousadia


Nessa esfera da vida, a da diversão e do lazer, e tímida como sou, me propus alguns pequenos, mas para mim importantes desafios, saindo de cada um deles me sentindo mais confiante e motivada. Infinitas vezes fui ao cinema sozinha, a shows e outros tantos espetáculos e equipamentos culturais (uma das minhas paixões); à praia; a viagens (em uma delas por três meses na Europa e sem nenhum amigo ou familiar-âncora por perto). Não contar com uma companhia nunca foi impedimento para eu deixar de me divertir com o que gosto. Até porque costumo ser exigente com isso e sempre engrossei o coro do ‘antes só do que mal acompanhada’.


Arquivo pessoal: viagem sozinha pela Europa

Somente para ilustrar um pouco a minha determinação no sentido de uma exposição solitária que me fortalecesse, há alguns anos, e num happy hour com um amigo dos tempos de faculdade, achando-me muito alegre pelo fim de mais uma semana de trabalho, não me furtei de desfrutar um pouco mais do clima e do ambiente do bar após o meu amigo ir embora. Sozinha, permaneci na mesa com a minha cerveja e meu pratinho de petiscos. Naquele momento e circunstâncias, achei o máximo da liberdade que uma mulher poderia desfrutar: não notei olhares preconceituosos, não fui importunada, e ainda consegui a atenção dos garçons, como se acompanhada por um homem eu ainda continuasse (vocês mulheres sabem do que estou falando). Arrasei!


Então, meu caro ou cara desta meia-idade, mude ou adapte o jeito de fazer velhas coisas que sempre lhe divertiram e relaxaram, e desfrute de novos e mais refinados sentimentos. Se por algum motivo não pode mais ouvir música alta como ouvia, procure outro lugar onde possa fazê-lo. Quem sabe a casa de algum parente ou amigo? (Evite apenas fazer isso com fones de ouvido, seus tímpanos não irão suportar). Se os joelhos não deixam mais jogar futebol, seja o juiz, o treinador, enfim, desfrute de uma nova experiência, perceba as coisas por outro ângulo.


Ainda: se não tem companhia para sair, vá sozinho(a) mesmo (não somos nem metade do que achamos que somos, passaremos, portanto, despercebidos) ou procure participar de grupos de interesses comuns que se pode encontrar internet afora. E para viajar, encontrar alguém para sincronizar coisas como tempo, dinheiro e interesses comuns não é tarefa das mais fáceis. Mas se o interesse for pela iniciativa própria, planeje, se organize e pé na estrada porque você vai encontrar pessoas nas mesmas condições por onde quer que vá, o que te levará a conhecer gente nova e, quem sabe, renovar amizades.


Mas também se não quiser optar pela iniciativa própria, hoje há muitas agências de viagens especializadas no atendimento a pessoas com mais de 50 anos (os chamados 50+). Além disso, e se quiser agregar uma experiência diferente à uma viagem internacional por exemplo, há intercâmbios criados para esse mesmo público mais maduro, e que parecem ser muito interessantes. Recentemente, o portal 50emais (de informações voltadas para o público sênior, e do qual eu sou seguidora), também criou uma agência de viagens e intercâmbio. Creio valer muito a pena conhecer.  


Agora, eu gostaria muito de saber se você, como eu, já se auto desafiou nesse campo da diversão e do lazer. Me conta aqui como foi e como se sentiu? Até a próxima!

 

         

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