Então estamos no meio do ano, e o que você fez?
- velhicesemmedos
- 1 de jul. de 2024
- 6 min de leitura
Que o tempo voa e que a velocidade desse voo está cada vez mais alucinante, todo mundo sabe. E nós, na meia-idade, sabemos mais ainda, visto que algumas vezes chegamos mesmo a sentir física e emocionalmente os efeitos dessa alta velocidade. Mas o que talvez não tenhamos observado é como está o nosso ritmo nessa viagem com o tempo. Então estamos no meio do ano, e o que você fez?
Hoje chegamos a um marco importante: deixamos 6 meses de 2024 para trás. São exatos 182 dias gastos, restando-nos igual parte para fecharmos mais um ano em nossas vidas. Mas, e daí? E daí que já percorremos boa parte do caminho e estamos ficando mais perto daquela velha e costumeira reflexão (muitas vezes incômoda também): “mais um ano passou e... meu Deus! O que foi que eu fiz”?
Não se trata de querer controlar o incontrolável. Se trata de melhor compreender algo, para que a partir daí se possa intervir e obter os melhores resultados. Nesse caso específico se trata de prestar mais atenção ao tempo, precioso como é e não medido por nenhuma moeda, e que pode estar sendo negligenciado exatamente nesta altura das nossas vidas, quando ao invés de já termos aprendido a fluir com ele, nos encontramos lutando contra ou simplesmente ignorando a sua presença.
Sendo muito sincera como pretendo ser sempre por aqui nesta conversa com os meus pares da meia-idade, e ainda que tenhamos muita lenha para queimar, o fato é que não temos mais ao nosso dispor (e com total exclusividade) todo o tempo do mundo. Além disso, parte do tempo de que disporemos pelo futuro afora não será de um tempo útil, no sentido de que a nossa hoje meia-idade avançará célere para a velhice, com as limitações de independência e autonomia que já podemos vislumbrar.
Atenção e foco
No burburinho do nosso dia a dia, é fácil não só o tempo passar muito rapidamente como também ser consumido por demandas e interesses que nem sempre são exatamente os nossos. E o pior é que muitas vezes isso acontece sem que tenhamos um pingo de consciência do contexto em que estamos inseridos. Ao contrário, não raro inflamos nosso ego acreditando sermos muito especiais na vida de companheiro(a)s, filhos, netos e quem mais esteja muito próximo de nós, tal a importância que nos é atribuída ou a frequência com que somos acionados por essas pessoas. É claro que isso faz sentido, mas faz sentido também atenção e reflexão.
Em verdade existe uma percepção coletiva de que nós, cinquentões avançados, talvez já não tenhamos mais tanta necessidade assim de realizar, afinal de contas já realizamos o socialmente esperado (ainda que às vezes apenas em parte), e devemos mesmo é aproveitar essa segunda metade da vida para descansar, relaxar, não fazer mais nada (desnecessário sonhar também), como se ociosidade devesse ser propósito de vida, e como se permanecêssemos estagnados numa longevidade raquítica de 5 ou 6 décadas apenas.
No entanto, tal construção social não é de surpreender, sendo ela em si mesma produto de uma era em que a humanidade experimentou a supremacia dele, o tempo, em todas as esferas da vida, e muito especialmente por meio de um desenvolvimento tecnológico que transformou coisas, pessoas e relações. Esse ambiente social também tem a ver com uma palavra que começou a ser muito utilizada nos últimos tempos (ainda que não seja nova) e que define bem essa tal percepção coletiva que mencionei: etarismo ou idadismo (preconceito contra idade). E é por isso que devemos estar muito atento(a)s.
Nesse contexto, é importante a percepção de ser você mesmo(a) antes de ser marido ou mulher, pai ou mãe, avô ou avó, e assim tomar as rédeas do seu tempo. Há quem esteja vivendo uma vida vazia no meio da agitação de um cotidiano cheio de vidas preenchidas (e cabe aqui outra reflexão: ‘quem não tem planos acaba sendo parte dos planos dos outros’). Ainda que eu esteja me referindo a homens e mulheres de forma geral, não tenho dúvidas de que nós, mulheres, somos as maiores vítimas dessa realidade.
Nesse sentido, não devemos correr o risco de chegarmos em mais um Natal temendo a tão bonita (e para alguns não menos melancólica) música interpretada por nossa grande Simone: “Então é Natal, e o que você fez”? Precisamos pensar melhor sobre o tempo e decidir dar mais foco na sua otimização, afinal de contas somos de uma geração que talvez tenha sido a primeira a ser apresentada à grande necessidade de melhor gerir os ponteiros do relógio, ainda que tenha sido para fins estritamente mercadológicos. Agora a necessidade se encontra no espaço privado das nossas vidas, na urgência de se viver bem o aqui e o agora, trazendo às nossas existências toda a energia que pudermos.
Para tanto, é preciso que retiremos do nosso caminho tudo o que possa se transformar em obstáculo à nossa motivação e energia para realizarmos o que desejamos e o que será sempre um motor propulsor em nossas vidas. Negligenciar essa realidade pode consumir muito do tempo útil que ainda temos pela frente. Portanto, devemos agir de pronto para estabelecer uma relação mais próxima e amigável com o tempo, que vá muito além de apenas vê-lo passar por nossas janelas.
Planejamento
Nesse sentido, e há muitos anos (na casa dos trinta e poucos), eu adotei o costume de ir mais longe naquilo que conhecemos como ‘resoluções de fim de ano’. Naquele tempo já sentia a importância de aproveitar a magia de tudo o que está no começo para melhor organizar o que ia pela minha cabeça, e a cada ano virado no calendário.
A organização do que eu desejava para a minha vida foi se transformando em uma tabela simples no computador, com algumas linhas e colunas a serem preenchidas. Nelas, eu dividia a minha vida em áreas (saúde física e mental, lazer, evolução espiritual, relacionamentos sociais, trabalho, finanças etc). Em cada uma dessas áreas eu colocava coisas que considerava importantes, que eram do meu interesse e que queria realizar ao longo do ano, estabelecendo também prazos para essas realizações. Faço isso até hoje, mas ao longo dos últimos anos tenho feito mais adaptações do que propriamente acréscimos aos meus interesses, resultado não só da maturidade como também de muita convivência com as ideias e lapidação das mesmas.
Você já pode estar ruminando e também se perguntando algumas coisas, e talvez uma delas seja: “e você consegue fazer tudo o que determina fazer”? E a resposta é: nem sempre e nem tudo. Até porque não acho que cumprir exatamente e ao pé da letra tudo o que decidi seja o principal benefício da tarefa. Haverá coisas que fatalmente serão transportadas para o planejamento do ano seguinte (e foram muitas e por muitos anos), e isso não deve ser considerado um fracasso, mas um ajuste necessário diante de uma vida em transformação ao longo do processo de realizar.
Já uma ruminação importante também pode ser a de que o ato de planejar não tem nada de novo, muito menos mistério algum, já que quantas podem ter sido as vezes em que na nossa atividade profissional tivemos que nos debruçar sobre intermináveis planejamentos. E não hesitarei em concordar com você. Mas esse não é o ponto. O ponto é que nunca agimos em nossas vidas com o profissionalismo que temos ou tivemos na nossa caminhada de trabalho remunerado. E acaso não será a nossa vida muito mais importante?
Benefícios
Nessa decisão fundamental de fazer um planejamento, em primeiro lugar acredito que o que é importante para nós deve ser registrado e guardado em algum lugar de fácil acesso (e toda forma de registro vale a pena - à caneta numa folha de papel, numa planilha mais elaborada enfim, conforme as suas condições permitam), para que não se perca no burburinho do nosso dia a dia. Essa simples tarefa já elevará os seus registros, portanto o seu planejamento, ao status de documento, o que já impõe um certo respeito na relação a ser desenvolvida com ele.
Em segundo lugar, esse documento por você elaborado te fornecerá um norte para o seu percurso de realizações. Você contará com um mapa que te orientará ao longo de todo o ano. E ele vai te trazer alegria e motivação quando da constatação do que foi ou está sendo realizado, bem como vai te dar sinais de alerta pelo que se encontra em atraso, pelo que se encontra por um fio no quesito ‘prazo’ de realização, ou ainda pelo que não foi realizado e talvez necessite de mais reflexão e ajustes.
Em terceiro lugar defendo a ideia de você sempre visitar esse documento, já que o que nunca é visto corre o risco de ser esquecido. Sem essa prática, pouco adiantará ter investido tempo em sua elaboração. As suas visitas lhe permitirão monitorar o desenvolvimento e evolução do que você estabeleceu, lhe apresentando resultados efetivos na sua caminhada ao longo do ano.
Chegar ao último mês do ano com um ‘OK’ em muito do que decidiu realizar em um planejamento pessoal elaborado para o ciclo dos 365 dias será a prova incontestável do quanto essa atitude tem o poder de trazer produtividade à vida, se constituindo também em motor cuja potência tem a capacidade de te deixar ali tête a tête com o tempo, e não mais apenas no rastro dele, ansioso(a), preocupado(a) e não raro, frustrado(a), veneno para uma vida mais satisfatória.
Então, se chegou até aqui e já se perguntou sobre o que você fez, não perca mais tempo: pegue caneta e papel e delineie algo para os próximos 184 dias. Faça o teste e... que venha o Natal! Até a próxima!!!










Comentários