Você trata os seus pés com cuidado, gentileza e gratidão?
- velhicesemmedos
- 9 de dez. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 21 de jan. de 2025

Quando eu praticava yoga, logo no início da aula e já deitados relaxadamente no chão de uma sala a meia luz, a instrutora pedia que fechássemos os olhos e fôssemos lentamente mentalizando cada área do nosso corpo, a fim de tomarmos consciência dela. Seguindo as orientações, percorríamos toda a nossa estrutura física, da cabeça aos pés. Ao chegar a eles a instrutora nos lembrava de que deveríamos tratá-los com cuidado, gentileza e gratidão, pois nos mantinham em pé, suportavam o nosso peso e nos levavam incessantemente para todos os lugares.
Eu nunca havia pensado nos meus pés com aquele cuidado e gratidão que Celina (era esse o seu nome) recomendava. Por isso achei muito interessante, e a partir dali realmente estabeleci uma atitude mais respeitosa em relação a eles. A menos que se perca algum deles, normalmente a gente nunca os têm na conta das áreas ou órgãos mais nobres do corpo. Olhe lá quando a gente se importa com os órgãos vitais (e suspeito que deve ter gente por aí que considere apenas o coração e o cérebro como tais).
Mas além da atenção que os meus pés começaram a receber de sua dona, dei também para observar os pés alheios. E principalmente os das mulheres, mais exigidos do que os dos homens, e não por questões fisiológicas, mas por questões fundamentalmente estéticas. Aqui tenho que dizer também que quando eu tinha uns 20 anos de idade procurei um ortopedista para avaliar um ‘anteprojeto’ de joanete nos meus pés, mas que já doía um pouco e me incomodava (as aulas de yoga só viriam cerca de 15 anos depois).
Prevenção
A consulta com o ortopedista foi a única que fiz para tratar do ‘problema joanete’. Foi algo como ter atirado no que vi e acertado no que não vi. À época, e na flor da juventude (da vaidade também) fui procurar tratamento para resolver o que eu considerava um problema, mas obtive dicas valiosas de prevenção como resultado. Pensando agora, o médico deve ter ‘rido por dentro’ com o problema que eu achava que tinha (mas juro que o joanete doía).
O ortopedista foi muito didático. Entre outras coisas explicou-me não haver tratamentos para joanetes e que apenas aqueles num estágio já muito desenvolvidos é que poderiam ser operados. E ainda assim o custo-benefício exigiria uma boa avaliação. No mais o que poderia ser feito era prevenção, e isso incluía se abster do uso contínuo de calçados com bico muito fino, que pressionam os dedos e com o tempo pode evoluir para uma deformação óssea. Feito isso disse-me para voltar após uns 20 anos.
Lembro que saí da consulta meio frustrada pela falta de tratamento para o problema, mas o tempo (ah sempre ele...) me mostrou que o médico não só tinha razão como foi um ótimo conselheiro. Evitar calçado com bico muito fino para mim não foi problema porque eu nunca gostei deles, e sempre valorizei mais o conforto do que a beleza em termos de sapatos.
Mas hoje, passadas décadas da consulta, o meu ‘anteprojeto’ de joanete não evoluiu sequer para ‘projeto’. Continua do mesmo tamanho, discreto, apenas como uma lembrança do sapatinho azul modelo ‘boneca’, apertado nos dedos, e que eu quase afundei o caminho para a faculdade de tanto usá-lo. Foi ele o vilão na história do meu aparente joanete. Além dele tenho uma calosidade em cima de um dos dedões do pé resultante do também uso contínuo de outra sandalinha dos tempos de faculdade. Ela tinha uma tira de couro que passava por cima do dedão, e o atrito constante deixou a sua marca.
Questão de escolha
A principal causa do joanete é hereditária, atingindo um número significativo de mulheres. A literatura especializada refere que hoje em dia há uma diversidade de tratamentos, acessórios e tipos de cirurgia para enfrentar o problema, dependendo da gravidade de cada caso. Portanto há soluções disponíveis, mas se podemos evitar riscos ou minimizar danos por que não fazermos a nossa parte, não é mesmo?

Vejo muitas mulheres da minha geração (às vezes até um pouco mais jovens) com pés deformados por joanetes. E, em certo sentido, penso que não tiveram a mesma sorte que eu tive. Também percebo que muitas entre essas mulheres usam modelos de calçados inadequados. E aí morro de pena dos pés delas. Eles não têm outra alternativa a não ser deixarem-se meter em tão inapropriados e desconfortáveis acessórios. Mas elas poderiam resistir à vaidade e darem vez ao conforto e segurança.
Fico imaginando como essas mulheres de meia-idade, muitas vezes com os corpos já mais sobrecarregados, aguentam calçados com bicos finos e sandálias muito nuas, com tiras finas e quase sem proteção para os pés. E olhe que não estou falando de saltos altos, porque aqui nesta questão ainda que eles participem, não são os protagonistas.
Também devo me explicar quando falo de ‘resistir à vaidade’. É que desconfio de que na hora de comprar calçados bonitos, femininos e quem sabe, até mesmo mais sensuais, muitas mulheres sequer pensem em procurar marcas cujo maior ‘atrativo’ seja conforto, proteção e segurança. A anos luz que se encontram de um comportamento que vise tratar os pés com cuidado, gentileza e gratidão.
Conforto e segurança
Ao longo de cerca de duas décadas, e motivada pelos ambientes de trabalho em que estive, preferi calçados que surgiam no mercado já com características que remetiam a atributos como conforto e segurança como os principais da marca. E na época lembro que eram muito poucas as opções de modelos, o que resultava sempre em um calçado esteticamente pouco atraente (sapato de velho?). Mas passado algum tempo percebi um reposicionamento nesse sentido, e esses calçados ganharam novas feições. O leque de marcas e modelos aumentou, trazendo com ele itens como beleza, elegância e feminilidade.
É por isso que quando vejo mulheres com os pés dentro de calçados aparentemente tão desconfortáveis penso também no perigo ali escondido. Aceitando ou não estamos nesta fase da vida em que o envelhecimento está correndo mais notadamente. Estamos com mais peso, dores no corpo surgindo a cada dia, perda de massa óssea e muscular e flexibilidade não mais tão boa. Escorregões, tropeços, desequilíbrios e torções de tornozelo começam a acontecer com mais frequência, então é preciso adequar os calçados à nova realidade.

Além dIsso tudo em nossos corpos vai ganhando novos formatos, e antigos pezinhos de Cinderela já não são mais tão delicados assim. Por isso querer enfiá-los a qualquer custo em delicados ‘modelitos’ pode não mais fazer sentido, e principalmente engrossar o caldo das vulnerabilidades e dos perigos. Calçados mais estruturados, saltos anabela e plataforma, tiras mais largas costumam ser mais amigáveis aos pés e pernas. Eu, por exemplo, sinto muito desconforto nos pés com as aparentemente inofensivas rasteirinhas.
Tive uma cabeleireira, já idosa à época em que eu era sua cliente, que tinha uma prática muito interessante em relação a cuidar dos pés. Ela guardava alguns pares de calçado no salão em que era proprietária e, ao longo do dia de trabalho, ia revezando os modelos (baixos, altos, com saltos diferentes etc). Segundo ela era pra não cansar os pés e não causar deformidades. Sábia Nalvinha, que já reservava aos seus pés um tratamento diferenciado, de cuidado, gentileza e gratidão.
Relembrando Celina, minha instrutora de yoga, vamos cuidar melhor dos nossos tão valiosos pés. Vamos dar a eles conforto e segurança, e ao mesmo tempo destacá-los através de bonitos, elegantes e por que não também sensuais, sapatos e sandálias, preferencialmente com solados de borracha ou antiderrapantes. Pesquise na internet e você irá encontrar muitas opções.
Destaquei aqui no artigo mulheres que têm joanetes, mas os conselhos quanto ao calçado mais apropriado para nós que estamos na meia-idade serve para todas, com ou sem joanetes ou outras calosidades menos conhecidas. Até porque, se vamos viver mais (e vamos), é preciso vivermos melhor, e cuidar hoje para que o futuro seja menos doloroso e dolorido.
E você, já havia pensado nos seus pés com a atenção e carinho que eles merecem?




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