top of page

Talvez não seja só sobre mães

  • velhicesemmedos
  • 3 de mai.
  • 3 min de leitura
Foto: Farknot Architect
Foto: Farknot Architect

Para nós, que estamos na meia-idade e já percorremos uma boa parte da jornada, é impossível não perceber o quanto o mundo mudou nas últimas décadas — e mudou tanto que, às vezes, quase não o reconhecemos.


Quando olhamos para trás, chega a ser estranho pensar em como vivíamos: tudo mais lento, mais difícil, mais limitado. E, ainda assim, aqui estamos, tendo atravessado transformações profundas, acumulando “antes e depois” dentro de nós, como verdadeiros arquivos vivos de um passado que parece, ao mesmo tempo, tão próximo e tão distante.


Mas nem tudo o que mudou foi, de fato, percebido por nós.


Há transformações mais silenciosas, que não exigiram adaptações imediatas — ou, pelo menos, não conscientes. E talvez sejam justamente essas as mais profundas, aquelas que passam quase à margem da nossa reflexão, mas que, ainda assim, vão redesenhando a forma como vivemos e nos relacionamos.


Foi pensando nisso que me vi, neste fim de semana que antecede o Dia das Mães, refletindo sobre duas palavras tão associadas a essa data: amor e cuidado — além, claro, de todo o apelo comercial que também a envolve.


Talvez tenhamos nos acostumado tanto a associar amor e cuidado à figura da mãe que deixamos de perceber o quanto esses sentimentos foram, aos poucos, se expandindo para além dessa personagem.


Hoje, o cuidado não está mais restrito à maternidade, embora ainda seja fortemente identificado com ela. Ele aparece em muitos outros caminhos: em pessoas que cuidam de pais idosos, em filhos que assumem responsabilidades cedo, em amigos presentes, em vizinhos atentos, em profissionais dedicados — em tantas formas de estar no mundo com responsabilidade pelo outro.


Homens e mulheres, com ou sem filhos, em diferentes arranjos de vida, exercem diariamente esse amor que se traduz em cuidado — um cuidado que não nasce apenas de um papel social esperado, mas de uma escolha, de uma consciência, de uma forma de existir. Isso não diminui a maternidade. Mas talvez nos convide a ampliá-la.


Durante muito tempo, ser mãe foi visto como um destino natural — quase obrigatório — dentro de um modelo de vida. E, junto com isso, consolidou-se uma visão muitas vezes distante da realidade: a de um amor sempre incondicional, quase intocável, como se estivesse acima de qualquer contradição humana.


Hoje, talvez estejamos sendo chamados a olhar para isso com mais verdade — reconhecendo que amar também pode ser colocar limites, que cuidar também pode ser se posicionar, e que nem todo silêncio é sinal de amor.


Ao mesmo tempo, cresce ao nosso redor — ainda que nem sempre percebamos — uma rede silenciosa de pessoas que cuidam. Pessoas que, muitas vezes, nem são vistas como parte desse universo, mas que sustentam, com seus gestos, uma forma mais ampla de afeto e responsabilidade.


São pessoas que escolheram viver de maneira diferente, que construíram outros tipos de família ou que, mesmo sozinhas, seguem semeando cuidado por onde passam — gente que trabalha, ajuda, acolhe, se envolve, muitas vezes sem reconhecimento, sem nome, sem data comemorativa.


Talvez possamos dizer que essas pessoas também expressam, à sua maneira, algo da essência do que chamamos de maternidade — não no sentido biológico, mas no sentido humano.


E isso nos leva a uma pergunta importante: será que o próprio significado de amor e cuidado não mudou ao longo do tempo? Ou, mais do que isso, será que nós estamos percebendo essas mudanças? Ou seguimos anestesiados como em relação a tantas outras coisas?


Vivemos tempos intensos, por vezes duros, em que o que é negativo costuma ganhar mais visibilidade. Mas, ao mesmo tempo, existe um movimento mais discreto — e nem por isso menos importante — de pessoas comprometidas com formas mais conscientes de amar e cuidar.


E talvez esse seja um dos sinais mais importantes do nosso tempo. Porque é um movimento que ultrapassa com força e delicadeza os limites do lar, da família biológica, do sobrenome comum.  


Neste Dia das Mães, quem sabe possamos ir além das homenagens já conhecidas e ampliar o olhar, reconhecendo não apenas as mães, mas todas as formas de presença que sustentam o cuidado no mundo.


E, sobretudo, lembrar que cuidar do outro começa, também, pelo cuidado com a nossa própria forma de estar na vida — porque, no fim, talvez seja isso que nos cabe: seguir aprendendo, em meio a tantas mudanças, novas maneiras de amar, de cuidar e de se responsabilizar.


Até a próxima!

 

Por Mônica Moraes

Socióloga | Autora do blog Velhice sem Medos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page