Sonhos antigos: ainda fazem sentido - ou viraram hábitos?
- velhicesemmedos
- 15 de abr.
- 4 min de leitura
Atualizado: 17 de abr.

Você sempre teve o sonho de casar de véu e grinalda. Hoje pode estar na casa dos 50 ou 60 anos, ter permanecido solteira, ter casado apenas no cartório, ter decidido só morar junto. Pode ainda ter tido apenas os filhos que queria e não manteve uma relação, pode ter se divorciado. Enfim... tudo pode ter acontecido. E então eu pergunto: o sonho ainda faz sentido?
Ou será que, em algum momento, você apenas se acostumou a dizer que ainda quer?
Usei esse exemplo mais contundente apenas pra dar início a uma reflexão que considero importante nesta nossa trajetória de senhores e senhoras de meia-idade, criaturas que já carregam uma boa bagagem de vida e que, por isso mesmo, não deveriam mais sobrecarregá-la com o que já perdeu o sentido.
Como em muitos eventos na vida, o fato de estarmos mergulhados até o pescoço neles nos impede uma visão mais clara, sempre oportunizada pelo distanciamento. Com isso, acabamos entrando num processo tão automático que vamos perdendo, pouco a pouco, a capacidade de percepção e avaliação de um sem número de coisas importantes — inclusive de nós mesmos.
Foi mais ou menos por aí que esses dias me peguei pensando sobre essa questão dos sonhos. Todo mundo tem ao menos um sonho na vida. Mas há quem tenha uma coleção deles — e eu arriscaria dizer que não são poucas essas pessoas. E vejo isso como muito positivo. É vida que pulsa. Porém, há algo que, ao meu ver, exige atenção.
Quando o sonho vira hábito
Será que, por perdermos certa capacidade de percepção de nós mesmos, do passar do tempo e da realidade que nos cerca, não continuamos a acalentar desejos e ideias que já deveríamos ter descartado — ou, quem sabe, adaptado? Ou ainda: será que alguns desses sonhos continuam vivos de verdade... ou apenas seguem ocupando espaço por força do hábito?
Eu penso que sim. Como penso também que somos mestres em criar hábitos — alguns, inclusive, muito danosos à nossa felicidade e qualidade de vida.
Confesso que faço parte do grupo dos que sonham muito, ainda que nos últimos tempos tenha me esforçado para ser mais pragmática. Nesse sentido, estou até evitando a palavra sonho e substituindo-a por objetivos, metas ou propósitos. Porque, como estamos carecas de saber, sonhos sem estratégia e trabalho duro não se concretizam. Continuam em permanente estado de abstração — e, não raro, de frustração.
E talvez haja um cansaço silencioso aí também: o de sustentar por anos algo que já não se sustenta mais dentro da gente.
Penso então que, como pode ser totalmente descolado da realidade o véu e a grinalda numa mulher hoje madura e “cascuda” quanto às experiências de vida, parece não haver o mesmo estranhamento quando se trata de outros sonhos que já não fazem o menor sentido em existirem dentro de nossas cabeças grisalhas — parecendo simplesmente terem virado hábitos (ainda que não revelados).
O cansaço de sustentar o que já não faz sentido
E aí é uma das casas onde mora o problema. Se, nesta fase da vida, muitos começam a achar que é tarde demais para mudar as coisas — e como não soa bem a declaração social de não ter sonhos (ou de não ter mais sonhos) — continuar cultivando os de toda uma vida talvez pareça mais confortável. E menos arriscado.
É como se a aceitação silenciosa de não realizar certos sonhos doesse menos do que a coragem de colocá-los em questão. Porque mudar de ideia, adaptar realidades ou simplesmente desistir também exige enfrentamento — e, em muitos casos, mais energia do que seguir no automático.
Tudo isso pede coragem, mas, acima de tudo, exige olhar atento tanto para dentro quanto para fora.
Acredito que, ao olhar para dentro e fazer uma ou duas perguntinhas básicas, como: “sinceramente, eu ainda quero isso mesmo?” ou “isso ainda tem a ver comigo?”, muitos vão se surpreender com as respostas.
Revisar também é um ato de coragem
A oportunidade de largar a mão de sonhos que não fazem mais nenhum sentido na vida — e que só a sobrecarregam como um encosto com potencial de pesadelo — pode nos libertar de tal modo que a vida não terá outra saída: ganhará novo impulso. E isso não é pouco numa fase em que, sim, já existe um certo cansaço em recomeçar — e isso é mais do que compreensível.
Então, que tal passar em revisão os seus sonhos? Ainda fazem sentido? Há algum que pode ser adaptado? Qual deve ser descartado? E qual outro, mais alinhado com o que você é hoje, pode começar a ser construído?
De minha parte, sigo bastante atuante (avisei que integro o time dos sonhadores, então tenho bastante trabalho).
Problema nenhum em sonhar muito. Mas acho fundamental botá-los pra fora de vez em quando... pra arejar, tomar sol e bater a poeira.
Até a próxima!
Por Mônica Moraes
Socióloga | Autora do blog Velhice sem Medos




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