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A relação ganha ganha do trabalho voluntário

  • velhicesemmedos
  • 2 de dez. de 2024
  • 6 min de leitura
Foto: Kieferpix/Canva

No dia 05 desta semana comemora-se o Dia Internacional do Voluntariado, o que me motiva ainda mais para falar sobre o tema. O que dizer de quem toma a decisão de exercer uma atividade concreta de amor ao próximo? E que pode ser ainda a realização de um projeto pessoal ou mesmo de um sonho? Nesse contexto não tem como não enxergar a relação ganha ganha do trabalho voluntário. 


Acho que desde quando tomei conhecimento sobre o que era fazer trabalho voluntário comecei a admirar toda pessoa que se determinava a doar parte do seu tempo para ajudar outras pessoas, sem obter nenhuma remuneração para isso. Mas num mundo regido pela equação trabalho = remuneração financeira, despertar para a vontade de trabalhar sem a expectativa do dinheiro como resultado final é algo que parece não sensibilizar assim tanta gente.


No entanto, se pensarmos um pouco veremos que muitas pequenas atitudes, gestos e ações que praticamos diariamente podem ser sementinhas em terra fértil. Por exemplo, você já experimentou a sensação de ser educado e gentil com alguém. Lembra como ela foi boa? Você não se sentiu especial por alguns minutos? Pois é, podemos enxergar educação e gentileza também como gestos de voluntariado, no sentido em que estão imbuídos da vontade de ajudar, acolher, dar conforto a alguém.


Acho impressionante como algo, por si só, pode se traduzir em apenas benefícios. Existe uma reflexão que todo mundo conhece em se tratando de ajudar pessoas. Ela virou uma frase feita, mas é plena de verdade. Diz que uma ação voluntária ‘mais ajuda a quem a realiza do que a quem a recebe’. O bem-estar de quem pratica um gesto solidário é mesmo indescritível, penso que uma simbiose de humano e sagrado, intimamente ligada à nossa essência como indivíduos voltados para o bem e o amor.


Agora imagine-se realizando um trabalho, utilizando para tanto os seus conhecimentos até aqui e, como resultado, transformando realidades e ajudando pessoas a terem uma vida melhor? Para mim, essa é a grande religião. Aliás, mais que isso, essa é a melhor maneira de servir ao Deus de qualquer que seja a . Dedicação e altruísmo na veia!


Para enriquecer este artigo conversei com uma pessoa que tem uma prática de voluntariado já há muito tempo. Trata-se de Araceles Narvais. Ela é assistente social e se aposentou recentemente, mas ainda jovem foi sensibilizada para ajudar pessoas. Desde doação de brinquedos para crianças carentes e organização de campanhas de Natal a trabalhos administrativos e aulas de artesanato para deficientes visuais e auditivos, entre várias outras atividades, ela até hoje mantém uma prática voluntária. Veja o que Araceles me contou:  

“Iniciei meus trabalhos voluntários desde os meus 29 anos de idade e já tinha os meus filhos pequenos. Queria ensinar a eles a ter somente o necessário, porque nas datas comemorativas as propagandas na TV faziam as crianças pedirem tudo o que viam e eu nem sempre tinha condições de comprar. Um dia pedi que eles separassem alguns brinquedos e os levei a uma creche muito carente próximo da nossa casa, onde as crianças brincavam apenas com latinhas e potinhos vazios. A partir daí o caminho foi sem volta.“

Um oásis de oportunidades


Eu sempre nutri grande admiração pelo trabalho voluntário e por quem o abraça na vida, mesmo tendo que dar conta de uma atividade profissional, às vezes filhos, cônjuge, e de uma infinidade de compromissos inerentes à vida moderna, como foi o caso da nossa entrevistada. Nutro igualmente a ideia de que num país como o Brasil, toda pessoa que não tem mais necessidade de trabalhar profissionalmente, deveria se dedicar ao trabalho voluntário. Ter comprometimento com uma causa e uma sociedade melhor.


Você, que está na meia-idade como eu, talvez já esteja antevendo onde quero chegar. Já pensei muito sobre quantas pessoas experientes, qualificadas, com boa formação educacional e com uma série de habilidades e competências úteis e interessantes, poderiam estar servindo a outras pessoas nos cenários os mais diversificados por aí afora. E isso, dadas as condições que a tecnologia hoje nos permite, às vezes até mesmo sem precisar sair do conforto e segurança de sua casa.


Para quem continua trabalhando como sempre, ou para quem está num ritmo mais leve ou até mesmo já tenha parado de trabalhar, olhar com carinho para a possibilidade de desenvolver um trabalho voluntário é algo que deve ser feito, porque em todos os sentidos só há benefícios. Como falei, infelizmente o Brasil é um oásis de oportunidades nesse cenário. Para onde quer que se olhe há algo que precisa ser realizado, há alguém precisando de ajuda. Então por qual motivo não investir numa relação ganha ganha como a que o trabalho voluntário oferece?   

“Eu acredito que os maiores beneficiados são os voluntários porque aprendemos muito. Quando realizei atividades administrativas eu nem sabia mexer direito no computador, fazer planilhas e navegar na internet. Aprendi tudo isso. E trabalhando com pessoas com deficiências você se torna mais agradecido e forte para resolver problemas. Meus filhos aprenderam a ser mais solidários”, comenta Araceles.

Já cheguei mesmo a divagar sobre como nosso país poderia ser diferente se pudéssemos contar com um contingente significativo de pessoas trabalhando voluntariamente para mitigar ou resolver uma infinidade dos nossos problemas, e aliviar o sofrimento de milhões. E digo isso porque vejo potencial solidário entre nós, porém creio nos faltar maior consciência social, organização, determinação e constância nas ações.


Foto: Willian_2000/Pixabay - Canva

Praticamente só nos movemos nesse sentido de forma pontual, geralmente para atender demandas de tragédias naturais, como o recente caso das enchentes no Rio Grande do Sul (e claro, da pandemia da Covid 19). Mas infelizmente, passado o evento, nos desmobilizamos e vida que segue, ‘cada um no seu quadrado’. É assim então que, enquanto Nação, não nos encontramos numa boa posição quando o pódio é o dos países mais engajados em atividades voluntárias. Não só não estamos bem posicionados como também (ou talvez por isso mesmo) ainda somos amadores nesse sentido.


Segundo dados do World Giving Index, organização que faz um ranking anual sobre a generosidade ao redor do mundo, neste ano de 2024 o Brasil ficou na infeliz 86ª posição entre os 142 países pesquisados. Em 2022, por causa da pandemia e das doações empresariais, esteve entre os 20 países que mais se empenharam em ajudar pessoas necessitadas. Então há muito o que ser feito para melhorarmos o nosso desempenho.  

  

Reflexo do que ocorre no coletivo, até aqui eu pessoalmente (e infelizmente) fiz muito pouco trabalho voluntário. Olhando para trás foram mais gestos pontuais solidários, como doar sangue, visitar asilos para idosos e orfanatos, doar roupas e outros objetos, ajudar crianças carentes em tarefas escolares, doar cestas básicas. Mas quero decididamente colocar um trabalho regular na minha vida. E estou caminhando nesta direção.


Hoje olho ao redor e vejo muitas pessoas nesta nossa fase da meia-idade ou já na velhice (com muita saúde, energia e disposição), que poderiam viver uma vida muito mais rica e interessante do que a que vivem. E sem tantas queixas e reclamações vazias de sentido. Pessoas que têm habilidades e competências que poderiam muito bem continuarem sendo úteis em um outro contexto de trabalho e colaboração social.


Colocando a mão na massa


A experiência de voluntariado tem o poder de literalmente transformar a fase da vida em um período de muita evolução e desenvolvimento pessoal. Qualquer que seja essa fase, mas na nossa da meia-idade ela faz toda a diferença. E isso porque, antes de mais nada, a relação ganha ganha do trabalho voluntário é algo que se sobressai exatamente numa realidade onde vemos ter início o ciclo de muitas perdas e ausências.     

“ Acho que muitas pessoas mais maduras às vezes ficam deprimidas em casa, alguns com pouca presença de filhos e familiares... e aí ficam se lamentando. Mas há muito o que fazer. Um trabalho voluntário realizado uma ou duas vezes por semana por exemplo não tem desgaste, e pode ajudar ambos os lados: doador e receptor. Todos podem ajudar, é só ter boa vontade”, diz Araceles.    

É importante ressaltar que a dedicação a um trabalho voluntário requer compromisso e constância, mas quanto a disponibilidade de tempo é você quem decide, bem como a causa ou área em que quer atuar. Para quem esteja pensando em se doar para um trabalho voluntário, há muitos sites e plataformas que podem ser acessados, como o Transforma Brasil, Atados, Voluntários e Conecta Brasil. Além deles, no Estado ou cidade onde o pretendente reside pode ter outras iniciativas locais que promovam o encontro entre quem precisa de doação e quem quer doar. É só “dar um Google” para pesquisar.

 

Neles você pode conhecer entidades que precisam de voluntários, em quais cidades essas entidades se localizam, as áreas de atuação, os públicos atendidos, contatos e outras informações que irão ajudar numa decisão. O mais importante é escolher algo levando em consideração o seu perfil pessoal, a fim de que o trabalho seja agradável e prazeroso.


E se você tem dúvidas sobre em qual área pode atuar e ser mais útil há um teste muito interessante e divertido que vai te ajudar. O teste foi elaborado pela parceria entre o IDIS - Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e o Instituto MOL, e no final ele indica a área com a qual você se identifica mais. É muito bacana fazê-lo!  


Dito tudo isso, que tal ‘virar a chave’, arregaçar as mangas e engrossar as fileiras dos que já conseguiram despertar para esse elixir de vida, que é estender a mão a quem precisa? Vamos juntos! Até a próxima!      

  

 

 

 

 

    

 

 

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