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É preciso pensar em suicídio para proteger a vida

  • velhicesemmedos
  • 9 de set. de 2024
  • 7 min de leitura
Foto: doble-d/Canva

Começo este artigo com uma indagação: há algo mais triste do que pôr fim à própria vida? Lembro de uma frase que li há algum tempo, e que dizia: “grande ofensa a Deus é sentir tédio da própria vida”. A data de amanhã, 10 de setembro, foi designada como o ‘Dia Mundial de Prevenção Contra o Suicídio’. Acho importante a iniciativa de oficializar datas com a finalidade de chamar a atenção para assuntos estigmatizados, portanto à margem de discussões e enfrentamento.


No entanto, como assuntos evitados costumam ter uma carga de emoções e sentimentos para os quais nem sempre se está preparado para lidar, o que geralmente se faz é fechar os olhos para a realidade ou esconder o lixo debaixo do tapete. Mas isso, todos nós, do alto das nossas décadas de vida, sabemos que passa longe de ser a solução para o que quer que seja. E o fato é que o suicídio há muito tempo deveria contar com maior atenção social, principalmente em virtude dos tempos que estamos vivendo e das altas demandas impostas por ele. Por isso é preciso pensá-lo enquanto proteção para a vida.


Acredito que entre nós, da meia-idade, talvez não sejam poucos os que tenham uma história de suicídio na família ou no círculo de amigos e conhecidos. Eu mesma, pouco antes de pensar em escrever este artigo, me surpreendi com o número das minhas: são nada mais do que seis histórias. Isso mesmo! Conto seis tristes histórias de pessoas com perfis diferentes, e em épocas diferentes da minha vida, que me fizeram passar pela experiência de compartilhar uma notícia dessa natureza (ainda mais triste do que a morte em si mesma). Das seis, quatro foram muito próximas: dois familiares (meu tio e uma prima da minha mãe), o filho de um casal amigo da minha família e o marido de uma prima.


O primeiro desses casos foi o que mais me chocou. Acredito que por ser a primeira experiência com o assunto (eu devia ter em torno de 13 ou 14 anos à época), pela idade da vítima (apenas 21 anos), pela sua personalidade (alegre, afetuoso, saudável, cheio de amigos e uma namorada) e por ter cometido o ato do suicídio ao chegar em casa logo após uma noite de diversão, ou seja, o típico padrão de uma juventude saudável e acima de qualquer suspeita. A única possível ‘pedra no caminho’ nesse caso era o fato de ser filho adotado, porém único, e de um casal maduro e devotado ao amor por ele.


O segundo caso, o marido de uma prima, também me pegou na adolescência: homem com trinta e poucos anos, saudável, empregado, bom marido e pai de duas crianças pequenas (cometeu o ato no trabalho). Quanto à minha prima de segundo grau eu já tinha cerca de 20 anos, e o meu tio agora já nesta fase da maturidade. Ela cometeu o suicídio aos 57 (em dias que estava passando na casa de um dos filhos) e ele aos 61 anos (em casa - morava só).


Desses quatro casos mais próximos, apenas os dois últimos (e claro, pensando hoje em retrospecto), poderiam ter dado sinais mais claros de alerta para os que estavam no seu entorno: por possíveis e diferentes ‘gatilhos’ ambos contavam com a companhia funesta da depressão. E acredito também se sentirem sozinhos, apesar da presença da família em suas vidas (filhos e netos, já que tinham casamentos desfeitos há alguns anos). Os outros dois casos mais distantes tiveram como vítimas dois rapazes em torno dos 20 anos de idade. Por sorte, um deles (filho de um amigo dos tempos de faculdade) conseguiu sobreviver à tentativa de pôr fim à própria vida, e seguiu adiante.

 

Não escolhe suas vítimas


O sentido de revelar todos esses casos de suicídio na minha história de vida até aqui, e ainda fazer uso de tantos detalhes, tem um propósito. Quero chamar a atenção para o fato de que tal perigo ronda todos os lugares, não tendo maiores critérios na escolha de suas vítimas. Pode ser qualquer um de nós ou dos nossos: familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalho. Não tem idade, não tem gênero, não tem nível de escolaridade, não tem classe social, não tem cor. Essa bomba atômica de sofrimento emocional pode cair e explodir em qualquer lugar. E os estilhaços espalhados por ela costumam deixar muita dor, arrependimentos e culpas.

Foto: Kaique Rocha/Canva

No entanto, apesar da larga disseminação do perigo, há estudos recentes que apontam maiores ocorrências entre os homens e, pasmem, também entre os adolescentes. Indicam ainda uma queda na taxa de suicídios a nível mundial e uma alta aqui nas Américas. Mas apesar de importante conhecermos esses dados, as estatísticas são sempre frias e distantes. O que deve nos interessar de fato é o acesso à informação de qualidade sobre o assunto, e a obtenção de uma consciência que esteja sempre alerta, e seja capaz de identificar os sinais que podem indicar a necessidade de maior atenção e cuidado. A Associação Brasileira de Psiquiatria - ABP elaborou a cartilha “Suicídio - Informando para Prevenir”, que pode ser baixada no site da entidade.


Por fazer parte do grupo dos que têm testemunhado tantas mudanças e transformações ao longo dessas últimas três ou quatro décadas, sempre me refiro ao desafio de encararmos tudo isso cuidando muito bem da nossa estrutura mental. Esses novos tempos trouxeram uma infinidade de possibilidades jamais vista, mas também uma avalanche de emoções e sentimentos que atropelaram um ser humano ainda no compasso de uma vida analogicamente estável. Assim, nesse contexto, ansiedade, medo e depressão representam apenas um dos lados desse cubo, porém de muita importância. Vivemos ansiosos e com medo, e muitas vezes sequer sabemos o porquê.


Mas como já dito, as doenças mentais e as de fundo psíquico ou psicológico, apesar de muito importantes e relacionadas às características dos tempos em que vivemos, não são as únicas possíveis causas relacionadas ao ato do suicídio. A elas os especialistas acrescentam aspectos genéticos, a presença de outras doenças (crônicas ou não),  condições sociais, econômicas e culturais, entre outras. O importante, como dito, é termos informação, estarmos preparados para identificar sinais de perigo, levarmos a sério possíveis reclamações ou comentários negativos sobre a vida e expressados por alguém próximo a nós e, se possível, nos disponibilizarmos para ajuda.


Sinais de risco


O estado de alerta em relação ao assunto faz toda a diferença num contexto onde o risco de suicídio existe. Muitas vezes nos acostumamos com alguns tipos de comportamento e com reclamações, frases e comentários sempre negativos em relação à vida, quer venham de nós mesmos ou daqueles que nos são próximos, e chegamos até a achar que são uma característica pessoal, algo de incompetência para a felicidade, rabugice, falta de energia, mau humor crônico, chatice. Outras vezes até damos um pouco mais de ouvidos, mas preferimos acreditar no velho ditado de que “cão que muito ladra não morde”. Mas na maioria das vezes o cão morde sim.

Foto:Geralt/Canva

Ainda que sejam variadas as causas que podem levar ao suicídio, a depressão, tão presente entre nós, não deve ser menosprezada. Muitas vezes relacionada a mudanças repentinas na vida, ela tem assombrado muita gente já na meia-idade. Entre os idosos então nem se fala, sendo o isolamento social, problemas de saúde que às vezes se sobrepõem, a desesperança e a ausência de sentido na vida, gatilhos de relevância nesse contexto. Então, cuide de quem está no seu entorno porque muitas vezes a tragédia acontece num ato de impulsividade: há que se ter “um olho na missa e outro no padre”.


Dito tudo isso, é preciso considerar a existência do risco e, em seguida, procurar ajuda profissional o mais rapidamente possível. Quem carrega uma carga de sofrimento emocional tão grande como essa, que conduz a pessoa a acreditar numa solução tão radical, está caminhando numa linha muito tênue entre a vida e a morte. E qualquer sopro, por mais sutil, pode jogá-la para o lado da linha que não a trará mais de volta.


Autoproteção


É claro que às vezes, mesmo contando com informações e conhecendo os riscos, não conseguimos nos convencer, e convencer alguém que nos é próximo (até mesmo na família) para a necessidade de busca de ajuda profissional. E permanecemos preocupados e de mãos atadas. Mas aqui, e em relação a quem nos é próximo, também cabe muito cuidado com as nossas próprias emoções, já que a nossa ajuda se limita à alguma disposição do outro em ser ajudado.


Evidentemente há casos em que a presença de doenças mentais impedem essa consciência sobre a necessidade de ajuda. No entanto, a fim de nos preservarmos de sentimentos de culpa e arrependimentos (muito comuns entre os que conviveram ou se relacionaram com suicidas), é importante a consulta a um profissional qualificado, que possa auxiliar em como melhor proceder na situação. No Brasil, inclusive, contamos com o antigo Centro de Valorização da Vida - CVV, um serviço gratuito que oferece ajuda nessa questão. E que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, atendendo via telefone, chat, e-mail e até presencialmente.       


 Curioso é que mesmo antes de passar por essas histórias todas de suicídio, eu pensava que se tratava de um ato de muita coragem da parte de quem o cometia. Acho que eu condicionava a coragem ao ato cru de autoagressão física. Mas não levei muito tempo para abandonar a ideia da coragem e adotar a da fraqueza ou covardia diante do desafio da vida (exceção dos casos motivados por doenças mentais ou psíquicas graves, claro).


Como sempre se fala: “só não há solução para a morte”! Mas acho que até mesmo para ela, pelo rumo que as coisas estão tomando, é só uma questão de tempo. Porém, até que isso aconteça, o melhor é estarmos muito atentos, e cuidarmos muito bem da vida.


E você, já teve alguma experiência de suicídio na sua história? Compartilha comigo? Até a próxima!!!

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