Seus pais ou avós lhe inspiram para o avô ou avó que você está sendo?
- velhicesemmedos
- 29 de jul. de 2024
- 5 min de leitura

Na última sexta-feira 26 comemorou-se o Dia dos Avós, e achei oportuno me servir da data e de uma experiência pessoal que tive há alguns dias, para lançar mais uma reflexão aqui no blog. Será que em algum momento você já pensou se seus pais ou avós lhe inspiram para o avô ou avó que você está sendo? Especificamente em relação aos seus avós, qual influência eles tiveram na sua vida? Te deixaram algum legado ou aprendizado? São referência para o avô ou avó que você é ou pretende ser? Se você respondeu positivamente a pelo menos uma destas perguntas, meus mais sinceros parabéns! Acho que você é alguém especial!
A experiência pessoal a que me refiro acima foi um vídeo que vi em uma rede social, e que me deixou muitíssimo impressionada. O vídeo mostrava um casal de avós, cuidando do neto na casa do filho(a) e que, na ausência dos pais, agiam como verdadeiros aloprados, ‘tocando o terror’ na deseducação da criança, que não passava de 5 ou 6 anos de idade, e assistia àquilo boquiaberta. É claro que o vídeo foi produzido para divertir, e seguia à risca a cartilha dos algoritmos da rede social para receber, ao que parece, uma explosão de visualizações.
Foi aí que fiquei pensando no papel dos avós na vida de pessoas que estão em formação como indivíduos e cidadãos. Não me lembro mais quando, e nem em quais foram as circunstâncias, que ouvi algo que me ficou na cabeça: de que todos nós, independentemente da existência de algum vínculo, temos responsabilidade com vulneráveis como crianças e idosos. E olhe que ouvi isso em tempos onde ainda não se falava tanto de documentos de proteção jurídica e social como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e muito menos o da Pessoa Idosa. Portanto, o que ouvi veio de uma fonte puramente moral, o que lhe atribui um significado ainda mais importante.
Acho muito interessante hoje em dia vermos tantos avós tão diferentes da imagem que nós, quarentões e cinquentões, guardamos em nossas memórias dos nossos próprios avós. Nem sabíamos quantos anos eles tinham, e se soubéssemos apenas acharíamos uma grande quantidade e nada mais, tão distantes que estávamos da idade que somamos hoje. Eu conheci apenas minha avó paterna. Mesmo assim, convivi muito pouco com ela porque aos seis anos de idade minha família se mudou de Estado, e quando eu tinha doze ela faleceu. Então, o que sei de cada um dos meus avós foi graças à excelente memória, interesse e dedicação da minha mãe pelas histórias de família.
Fonte de diversão
Fiquei surpresa comigo mesma diante do que esse vídeo dos avós tresloucados conseguiu me provocar. Aparentemente ingênuo e engraçado ele me alertou no sentido de enxergar por trás uma ideologia perniciosa, com um significativo potencial de contaminação social, que em nada colabora com a educação e formação de pessoas. Muito pelo contrário, só traz piora a uma realidade já tão vulnerável nesse sentido.
Hoje vejo muita gente curtindo ser avô ou avó. Já vi até mesmo quem estivesse “pressionando” filhos para lhes adiantar netos. E essa alegria, além de ser bacana é também, ao meu ver, muito curiosa e intrigante: vejam só, em um país onde se foge da velhice como o Diabo da cruz, esse comportamento, por si só, merece alguma atenção. Já ouvi comentários de que ser avô ou avó é ainda melhor do que ser pai ou mãe, pois não se tem a responsabilidade que é exigida dos pais. Evidentemente isso faz sentido mas receio que no apontamento dessa isenção de maior responsabilidade, em alguns casos estejam embutidos omissão e algo de vaidade.
Estou falando de avôs e avós que agem com seus netos como o casal do vídeo que assistí, sem qualquer comprometimento com os seus filhos na educação e formação dessas crianças. São avós que, apesar da aparência ainda jovial, são da família do Papai Noel, focados apenas na distribuição de presentes (às vezes como pura e simplesmente necessidade de aceitação) e na oferta de experiências superficiais e passageiras, pobres de real sentido pedagógico para a vida. São avós que veem os netos como brinquedinhos animados, e que adoram exibi-los como troféus da bem-sucedida missão de terem criado filhos, nada mais.
Consciência e Compromisso
Tempos tão transformados exige de nós, especialmente nesta nossa meia-idade, a prática constante de observação, reflexão e, em alguns assuntos e cenários, resistência quanto ao que julgamos ser valores e princípios fundamentais, mesmo intocáveis. Hoje vivemos uma realidade de muitos avós já na casa dos quarenta e cinquenta anos de idade, produtivos, com vida amorosa e sexual ativas, compondo famílias com uma formatação impensada até pouco tempo. São gerações convivendo no estilo ‘tudo junto e misturado’ e, se isso é bastante estimulante, pode ser também um terreno muito propício ao desregramento e relaxamento de responsabilidades.
Acredito no poder da palavra, mas acredito mais ainda na eficácia do exemplo (ambos para o bem ou para o mal). Nós, quarentões e cinquentões, somos ‘crias’ de uma geração onde a família atribuía a si toda a responsabilidade na educação dos filhos (e havia esmero nisso). E a escola se comprometia em auxiliar nessa tarefa. Hoje, há uma diversidade de famílias, muitas das quais muito ocupadas com as lutas que têm que travar pelo direito de serem reconhecidas como tais. Por outro lado, a escola se distanciou do papel de auxiliadora na educação das crianças, restringindo-se ao objetivo da transmissão de conhecimentos.
Penso que experiência e distanciamento contribuem muito na análise de uma realidade e numa possível atuação ou intervenção que nela se pretenda. Já ter visto seus pais como avós dos seus filhos e já ter criado filhos e agora vê-los como pais, é um privilégio que fornece a avós responsáveis boas ferramentas de colaboração na educação e formação dos netos. À essa altura da vida, com a possibilidade de vê-la em retrospectiva, e diante de um mundo tão transformado e ao mesmo tempo tão precarizado em muitas questões humanas e sociais, se estivermos muito conscientes de onde estamos e do lugar que ocupamos, podemos fazer toda a diferença.
Cientes disso, cabe-nos o compromisso de assumirmos um papel mais proativo e responsável na condução da educação e formação dessas novas gerações. Acho uma grande amizade entre netos e avós a relação das mais bonitas entre seres humanos. Já vi até mesmo pais serem alegremente “preteridos” nesse relacionamento. Mas já ouvi também queixa de avós que não tinham dos netos o amor idealizado entre esses personagens. É claro que aí há também as expectativas que todos criamos e alimentamos ao longo da vida e sobre as pessoas. Nem sempre amor e dedicação são reconhecidos como tal e devidamente retribuídos. Mas aí já é um outro assunto, potencial tema de artigo futuro.
Será que você, avô ou avó (ou até mesmo tio ou tia-avó como eu), lembra de já ter feito ou proporcionado algo aos seus netos que possa lhe ajudar a ser lembrado no futuro como alguém cuja presença na vida deles tenha sido relevante para se transformarem no que são? Até a próxima!!!




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