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Dia Internacional do Homem! Mas por que eles merecem uma data especial?

  • velhicesemmedos
  • 15 de jul. de 2024
  • 6 min de leitura
Foto Nadar Chernishev/EyeEm

Quando eu estava estruturando o projeto deste blog e precisava definir o público que ele ambicionava atender, confesso que não necessitei refletir muito para decidir incluir os homens também como seus potenciais leitores, motivo pelo qual nos artigos me refiro sempre a nós, homens e mulheres da meia-idade. E isso porque, muito mais do que o gênero, é a fase da vida o que mais me interessa para as reflexões que tenho trazido à tona, e não sem a consciência de que a realidade em que vivemos imponha ainda mais dificuldades a um gênero em detrimento do outro. Mas essa é uma questão para uma outra conversa.  

    

Acredito que muita gente não saiba (inclusive entre vocês homens), mas hoje, exatamente 15 de julho, é o Dia Internacional do Homem! Mas por que vocês  merecem uma data especial? Diferentemente do Dia Internacional da Mulher, cuja criação teve por motivação questões relacionadas a direitos sociais e equidade de gênero, o Dia Internacional do Homem, além de também instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) cerca de duas décadas depois do Dia da Mulher, teve como principal motivação a preocupação com a saúde masculina, especialmente com doenças muito recorrentes, como o câncer de próstata.


Já posso prever uma reflexão feminina no ar (ou será feminista?): a de que em um mundo ainda tão marcado pela supremacia do poder masculino, e em que em todos os dias do ano são eles que continuam sendo os protagonistas, por que a necessidade de promover essa comemoração, como ocorre com minorias desprotegidas ou maiorias sem poder? No meu modesto caso aqui no blog, a escolha da data simbólica para a publicação deste artigo foi menos para homenageá-los e mais para chamar a atenção sobre o que penso serem maiores dificuldades para eles (sempre com respingos em nós mulheres) nesta nossa pré-velhice. Vejo-os vítimas (sim isso mesmo, não errei: vítimas) de uma fragilidade ainda maior já nesta fase da meia-idade, e muito mais será lá na frente, na velhice, se assim nada fizerem.


Ponto de partida


Em primeiro lugar, e apenas para estabelecermos uma certa ‘equidade de gênero’, se um dos problemas mais comentados entre as mulheres, nesta nossa fase da vida, é a menopausa e todos os seus desconfortos, os homens enfrentam a andropausa, com também todos os seus inconvenientes (e muitos homens sequer sabem disso). Esse é um ponto importante e revelador de alterações também comportamentais provocadas pelo declínio dos níveis de testosterona no organismo e que, portanto, impactam a vida masculina na meia-idade.

Foto Andrea Piacquadio/Pexels

Outra questão é que vocês, homens, enfrentam o mesmo processo de envelhecimento que nós, mulheres, enfrentamos, ainda que cada gênero com as suas particularidades. Estamos, no entanto, todos no mesmo barco de um envelhecer mais célere e visível, o que exige compreensão mútua e espírito de ‘equipe’.


Eu sei que entre nós quarentões e cinquentões, há quem já tenha parado de trabalhar (nunca gostei da palavra ‘aposentado’) e há quem continue na labuta e, em verdade, se encontre mesmo muito longe de só curtir a vida e nada mais. Mas em todos esses estágios de uma vida produtiva ou não, acredito que vocês, homens, tenham algumas dificuldades adicionais. Não à toa sofrem de doenças que são mais predominantes entre o sexo masculino, têm uma qualidade de vida inferior, e vivem menos do que nós mulheres vivemos. E isso surpreendentemente num mundo que ainda lhes preserva de tantas e duras responsabilidades, como cuidar integralmente da casa, dos filhos e hoje também de possíveis netos e pais ou sogros idosos, como infelizmente ainda é o caso de nós mulheres. E muitas vezes tudo isso acontecendo em paralelo a um trabalho profissional e remunerado. Ufa!


É claro que sempre haverá exceções, mas penso que nesta fase da vida os homens começam a ficar socialmente menos presentes, e vão, gradativamente, se recolhendo para dentro de casa (movimento proporcionalmente contrário ao das mulheres). Assim, enquanto nós, mulheres, com um acréscimo de afazeres e responsabilidades, ainda encontramos tempo para cultivar amizades e através desses relacionamentos obtermos muito do que precisamos em termos de saúde mental e emocional, os homens não apenas perdem essa possibilidade como ainda podem criar problemas para si mesmos e para a família.  


Maiores entraves


Se por certa ‘natureza’ e por total imposição social os homens costumam ter dificuldades para expressar as suas questões pessoais (ainda que possam contar com boas e atenciosas amizades), e se passam a restringir as suas possibilidades nesse sentido, as dores e os temores encontram terreno fértil para o seu desenvolvimento.


Muitos homens também não se dedicaram a nada mais do que o trabalho em suas vidas, e não desenvolveram nenhuma espécie de reflexão sobre quem são eles para além do que fizeram ou fazem para sobreviver ao longo das suas décadas de existência. Poucos cultivam um aprendizado novo, um hobbie ou até mesmo um comportamento que lhes traga algo mais concreto e efetivo em termos de saúde física e mental.


A opção pelo isolamento social, ainda que possa se encontrar numa vida profissionalmente produtiva, em certa medida obscurece a percepção da realidade em que está inserido (nesse nosso caso a percepção da fase da vida em que se encontra), e em consequência sofre sem que consiga ao menos perceber as causas desse sofrimento, entrando muitas vezes num labirinto perigoso de sentimentos e emoções que não consegue administrar e que pode reverberar negativamente em todo o contexto familiar, no relacionamento com companheiras, filhos e outros familiares.

Foto Alena Darmel/Pexels

Homens de meia-idade ainda carregam na bagagem valores atrelados a inteligência, força, coragem e liderança entre outros, e ao se sentirem deslocados numa realidade que em muito alterou esse contexto de valores, ao mesmo tempo em que começam a enfrentar o processo de envelhecimento (ainda que não percebido exatamente como tal) têm a atitude quase que instintiva de retração, de ‘sair à francesa’ do mundo social (muitas vezes nem mesmo as redes digitais de relacionamento os motiva a permanecerem de algum modo visíveis). É como se a vida fosse deixando de ser tão interessante como antes.


Não é à toa que muitas vezes até mesmo os cuidados básicos com a própria saúde acabam sendo negligenciados (por isso o ‘Dia Internacional do Homem’), exigindo da companheira ou da figura feminina mais próxima uma pró-atividade nesse sentido. Por tudo isso acredito sinceramente numa dificuldade maior para as mentes masculinas conseguirem se autoperceberem nesta fase da vida, perceberem a potencialidade que ela carrega, bem como se prepararem para uma vida que será bem mais longa e que, por certo, apresentará não só mais como também importantes dificuldades.


Apoio   


Percebo também que além das dificuldades características do sexo masculino na identificação, enfrentamento e tratamento das suas questões interiores, não há iniciativas ou espaços apropriados de apoio social e coletivo nesse sentido. Assim, os homens que de alguma forma conseguem se dar conta de que necessitam de ajuda para a vida, não raro sofrem calados, provocam também sofrimento no seu entorno e deixam de ter as suas demandas atendidas na direção de uma vida mais satisfatória, e exatamente numa fase crítica, de maiores necessidades e vulnerabilidades.  

      

Então, para vocês homens, a vida, já aqui e agora, está a lhes impor um olhar para  dentro de si mesmos, reflexão, coragem para a quebra de certos padrões de pensamento e comportamento e, acima de tudo, boa vontade e humildade para buscar caminhos. E um deles pode ser aprender com as mulheres (que sempre estão mais acessíveis) como melhor resolver as suas angústias, sejam elas percebidas ou não como tais. E já aproveito para adiantar aqui algumas dicas: nós, mulheres, não nos envergonhamos de nossas fragilidades, gostamos muito de aprender, valorizamos novas amizades, cultivamos as velhas, gostamos de ver e ser vistas, abrimos nossas mentes e corações sem medo, nos interessamos pelo mundo além das paredes dos nossos lares, rimos mais, enfim... estamos sempre a buscar vida, aonde quer que ela esteja.


Mas apesar disso, às vezes aquele que em família ganhou um lugar de destaque, pois virou o ‘ranzinza’, o ‘estressado’ ou o ‘chato’, precisa mesmo é de uma ajuda profissional. Nem sempre conseguirá perceber essa necessidade sozinho e aí é onde a companheira e/ou família devem buscar habilidade para atuar. Nesses casos urologistas, endocrinologistas, psiquiatras e psicoterapeutas poderão fazer a diferença para que não se perca mais tempo, e se possa trazer energia à essa fase tão especial da vida.


Então, encerro por hoje com os meus parabéns pelo Dia Internacional do Homem, e digo que a escolha é de vocês, fazendo-lhes ainda uma saudável provocação: serão homens ou apenas ‘sacos de batata’? Me contem aqui nos comentários e mãos à obra! Até a próxima!!!  

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