Como você define o seu status de relacionamento com a fé?
- velhicesemmedos
- 26 de ago. de 2024
- 5 min de leitura

Acho fantástico poder contar com algumas décadas de vida para, como se estivesse fazendo uso de uma lupa, poder melhor observar as coisas, principalmente comportamentos e costumes. Nesse sentido, fico muito impressionada com o dinamismo e poder de transformação das pessoas nas sociedades. Tudo vai se alterando à medida que o tempo passa, até mesmo em campos tradicionalmente mais refratários a mudanças e regidos por dogmas e regras de conduta, como as religiões e o seu entorno.
Há alguns anos, nos meus tempos de infância e adolescência, o exercício da fé e/ou espiritualidade parecia prescindir de um passaporte para uma religião, sendo a Igreja Católica a que se colocava como o melhor dos destinos para essa viagem, até porque outras possibilidades eram pouco conhecidas (ou reconhecidas?) pelo viajante. Mas eis que tudo foi adquirindo novos contornos, a tal ponto que hoje ouso uma indagação nesse estilo: como você define o seu status de relacionamento com a fé?
Como o meu objetivo aqui não é fazer nenhum estudo sociológico sobre as religiões (muito menos defender uma em detrimento de outra), e sim conversar sobre fé e espiritualidade com você, meu companheiro ou companheira de meia-idade, vou tentar focar no que pretendo. Assim, tanto farei referência à figura de Deus como também a alguns comportamentos humanos a Ele relacionados (sem intenção de julgamentos). Isso apenas para melhor desenvolver as minhas reflexões e chegar aonde quero, nada mais.
A fé de cada um
Ao longo deste meu tempo aqui na Terra tenho observado coisas interessantes: gente que se dizia ateia e quando do seu funeral, lá estava um crucifixo na retaguarda do caixão (figura pública, intelectual, e que morreu lúcida e idosa); gente que não costumava falar em Deus e após ter filhos começar a dar ‘graças’ a Ele diante da melhora de qualquer resfriadinho do bebê; gente que a vida inteira se manteve distante de Deus, mas próxima da velhice ou finitude começou a se aproximar, propondo a Ele amizade. Por fim, gente que diante de uma doença grave começou a perceber que o melhor médico era Aquele que não tinha agenda lotada e nem preço estratosférico de consulta.
Vejo ainda gente que se comporta como cão farejador da Polícia da Moral, atenta a qualquer fraqueza, deslize ou contradição de um suposto devoto para condená-lo às chamas do Inferno, uma vez supor que tal pessoa não pratica a verdade que defende. Triste figura que não consegue enxergar o quão longo e tortuoso é o caminho para a lapidação humana. Mas o que esperar? Se estivéssemos em outra estação da Humanidade não teríamos mais tantos horrores supostamente ancorados na fé e na religião, como temos.
Tem também gente que para otimizar o tempo tão precioso, corre as contas de um Terço entre os dedos enquanto faz sua caminhada acelerada pelo calçadão de uma praia urbana qualquer, indiferente ao movimento de carros, ao abrir e fechar de semáforos e a todo o burburinho matinal de uma via pública, na tentativa de se fazer ouvida por Deus. E ainda gente cujo nome do Supremo não sai da boca e de infinitas postagens nas redes sociais, mas a prática diária não revela tanta intimidade assim com o Divino (talvez um amigo a mais da internet). Seres humanos frágeis, com gigante dificuldade de identificar as próprias imperfeições, e em constante aprendizado que somos, não é mesmo?
Mas para fazer justiça, ao longo destas décadas de vida também já vi (e continuo vendo) pessoas que nunca falavam em Deus, mas no dia a dia agiam como se por Ele fossem sempre guiadas, expressando muita solidariedade e compaixão, entre outras virtudes das mais humanas. Então, meus amigos e amigas, tem gente pra tudo neste mundo, e não diferente, também nessa seara da fé.
Em busca de um atendimento personalizado
Mas críticas à parte, por fim desembarco onde pretendia. Os tempos que estamos vivendo têm diluído muita coisa, como já mencionei em artigos anteriores. E nesses novos tempos até mesmo a forma como experimentamos a fé tem passado por transformações. Apesar de um cenário revelador de um amplo leque de possibilidades religiosas para um não menos amplo público potencial, hoje percebo um número cada vez maior de pessoas que buscam praticar a fé ou a espiritualidade de forma independente, ou não atrelada à uma entidade representativa de uma ideologia qualquer.

Talvez tempos de tanta urgência, fragilidades emocionais e quebras de barreiras colaborem para a necessidade de estabelecer com o Sagrado um relacionamento mais próximo, íntimo e objetivo, cujo resultado final seja um atendimento, digamos, mais personalizado. Ser mais um numa multidão de devotos que se expressam em coro diante de uma divindade que parece distante das atuais angústias humanas (por mais clássicas que essas possam ser) parece não fazer mais tanto sentido, e em boa medida mais ainda entre nós, na meia-idade.
Penso também que o avanço do tempo vai nos retirando de lugares de prática espiritual coletiva, e vai nos devolvendo, cada vez mais, à beira das nossas camas, à meia-luz dos nossos quartos, e mesmo aos pedacinhos de natureza onde nos sentimos mais próximos de algo que é muito maior que nós, e que nos faz vibrar em outra sintonia. É o reencontro conosco mesmos, é o diálogo do que somos com o divino que está dentro de cada um de nós, independentemente da existência ou não de algum credo religioso. Gosto muito do “somos feitos à imagem e semelhança de Deus”.
É claro que os templos religiosos como espaços coletivos de oração e adoração continuam (e continuarão) muito presentes, até porque a união e reunião de crentes e da prática ritualística pertinente às religiões e grupos delas derivados, são o que dão corpo e forma às mais variadas ideologias teológicas. Nesse sentido acredito também que pessoas mais idosas sejam as que mais se mantenham fiéis a esse modelo tradicional de prática religiosa. Quem sabe mais suscetíveis ao apelo cristão (Mateus 18:20): “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estarei”?
Prioridade
Acho que independentemente do degrau espiritual em que cada um de nós esteja (ou em qual daqueles grupos que mencionei acima), o importante, e muito especialmente nessa fase da vida em que nos encontramos, de um envelhecimento mais célere rumo à velhice, é praticarmos uma fé como praticamos uma atividade física (ou pelo menos deveríamos). Essa prática, a exemplo dos benefícios para o corpo, possibilita o fortalecimento de bons sentimentos e emoções, e nos protege contra tudo o que pode deteriorar a nossa saúde mental, a nossa força espiritual e a nossa vontade de realizar e de viver a vida em toda a sua potencialidade e plenitude.
O cultivo de uma fé, a crença em algo superior, serve sempre de motivação e amparo. Qualquer que seja ela e o nome atribuído ao seu símbolo maior (Deus, universo, energia, essência, espíritos, anjos etc), o importante é decidir pela presença de uma em sua vida. Quem tem fé jamais se sente sozinho ou abandonado pelo caminho e isso pode fazer toda a diferença em momentos difíceis e pelos quais ainda poderemos passar.
Acredito que você já tenha ouvido cientistas e médicos que hoje em dia têm falado sobre a real influência da fé nos tratamentos médicos de pessoas com graves problemas de saúde, e na qualidade de vida de modo geral. Isso nos revela que a fé ultrapassou as paredes dos templos e adentrou os laboratórios da ciência, tomando uma dimensão ainda mais significativa e importante nas nossas vidas. Já não é mais uma questão de crer, mas sim de reconhecer os seus reais benefícios. Então, diante desse protagonismo da fé, uma atitude acertada é investir no relacionamento com ela, transformando-a em grande aliada para a vida!
E antes de nos despedirmos, me diz aqui nos comentários o que você tem feito para cultivar ou fortalecer a sua fé? Até a próxima!




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