A gente jurava que nunca faria isso... até começar a fazer igual
- velhicesemmedos
- 22 de mar.
- 3 min de leitura

Outro dia me peguei fazendo exatamente aquilo que sempre critiquei. E confesso: foi impossível não perceber um risinho de canto de boca. Com o passar do tempo, a gente vai aderindo a coisas que jurava que nunca faria. Parece até praga rogada.
Tive um tio que, antes de sair de casa — principalmente em viagens — começava a se preparar com uma antecedência impressionante. Quando isso acontecia na casa dos meus pais, eu e meus irmãos simplesmente perdíamos o sono. Era um movimento constante desde as primeiras horas do dia.
Parecia um interminável arrumar e reorganizar de malas e sacolas. Um ir e vir de coisas lembradas, checadas, ajustadas. Fora o banho mais demorado, os cuidados extras com a aparência, os detalhes que nunca podiam faltar. Na época, tudo aquilo me parecia exagerado.
E, sem perceber, a gente vai mudando...
Hoje, me surpreendo ao perceber que gasto tanto — ou mais — tempo para me preparar antes de sair de casa. Mudaram os objetos, mudaram as necessidades, mas continuam exigindo organização, atenção e uma certa dose de energia que já não é exatamente a mesma de antes.
E pra viajar, então? É tanta coisa pra dar conta que começo a organização da bagagem com muitos dias de antecedência. E mais: quem disse que consigo dormir na véspera? Parece que se instala uma mistura curiosa de ansiedade com uma pontinha de euforia. E isso sem nem ousar tomar café depois das três da tarde.
Também já não me vejo mais chegando correndo e esbaforida a lugar nenhum — muito menos a rodoviárias e aeroportos. Prefiro esperar. E esperar o tempo que for preciso, desde que tudo esteja sob controle e o coração tranquilo dentro do peito.
Tem coisas que a gente só entende depois.
Quer ver outra coisa? Até por volta dos 30 anos, eu ria dos mais velhos que só queriam saber das cadeiras de praia mais altas. Não os entendia — afinal, as mais baixas permitiam esticar o corpo, bronzeá-lo e relaxar de verdade.
Hoje? Migrei para as mais altas. São, de fato, melhores para a coluna.
E assistir a um show no meio da multidão? Comer em pé? Tomar uma cerveja sem saber se há um banheiro por perto? Ir a um evento sem a menor preocupação com a hora de voltar? Em algum momento, tudo isso deixou de ser tão atraente assim.
Não sei se mudamos ou se apenas nos ajustamos à passagem do tempo — como todo mundo acaba fazendo — hoje eu vejo.
Mas, curiosamente, não aderimos a tudo aquilo que, um dia, associamos à velhice. Nada de cadeiras de balanço, tricô ou radinhos de pilha na orelha (ainda existem?). Continuamos ativos, conectados, interessados. Só que de um jeito... mais confortável.
Hoje, sair de casa exige um pouco mais do que disposição. Um lugar para sentar, um ambiente agradável, um mínimo de organização. E, se possível, uma volta tranquila para casa.
No fim das contas, talvez a gente não tenha mudado tanto assim. Só trocou a pressa e o improviso pela tranquilidade e por uma dose de planejamento — e, pensando bem, foi uma troca bastante justa.
Em meio a esses anos de maturidade, só não me canso de uma coisa: de me surpreender com o que essa fase da meia-idade traz. Tudo parece ir se realinhando, se conformando com a realidade das décadas vividas. E isso não deixa de ser muito divertido.
Até a próxima!




Realmente passamos a enxergar como foi maravilhoso adquirir as experiências e boas gargalhadas dos tempos de nosso país ,tios e amigos. Estamos preparados para viver os Entas !!