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Virando a chave: de um velho cenário de trabalho para uma nova vida

  • velhicesemmedos
  • 23 de set. de 2024
  • 6 min de leitura
Virando a chave abre-se uma porta - Mídia Wix

Nós, que nascemos, crescemos e iniciamos nossa jornada profissional em um mundo ainda analógico, temos mais dificuldades em fazer uma leitura realista do atual momento em que vivemos. Falo isso com a mente voltada para o mundo do trabalho e a revolução da qual ele foi objeto nas últimas décadas. Difícil não o enxergar nas principais posições do pódio das áreas mais radicalmente transformadas, e não decidir virar a chave de um velho cenário para uma nova vida.

 

E são tantas as mudanças já ocorridas, aquelas em curso, e as perspectivas para o futuro, que o simples passar dos olhos em uma página ou resumo de uma literatura especializada pode nos causar espanto e grande preocupação. E não estou me referindo apenas à presença da tecnologia com todo o seu rastro de transformações, mas principalmente ao nosso preparo intelectual, psicológico e emocional para o enfrentamento de um contexto tão desafiador.


Nesses tempos de tantas mudanças (e algumas fortunas rápidas e fáceis), o próprio conceito de sucesso profissional já foi revisto. Hoje, muito mais do que o potencial material que uma carreira de sucesso pode refletir, mede-se o quão impactante é uma boa ideia colocada em prática; quantas pessoas são beneficiadas por uma ação ou trabalho; o quão resiliente alguém demonstra ser para superar adversidades; o tanto de justiça, empatia, solidariedade marca uma atuação; o nível de compromisso e responsabilidade social com o ser humano, o meio ambiente, os mais vulneráveis etc e tal.


Nós e nossa estreia


Parece até algo muito distante, mas o mundo onde demos início à nossa vida de trabalho não nos reservava tantas possibilidades. Em uma realidade mais estável em termos gerais, a decisão do caminho a seguir não nos demandava muito tempo, e a colheita ao longo dele geralmente era certa e sabida. Mais do que escolher, éramos escolhidos, os valores desse mundo eram outros, as necessidades de famílias mais numerosas sempre falavam mais alto, e não desfrutávamos dos privilégios da condição de adolescentes (fase da vida não tão explorada à época).


É num contexto como esse que penso que nós, da meia-idade, temos mais dificuldades em relação ao mundo do trabalho hoje. E essas dificuldades passam pelo apego a coisas que estão cada dia mais fazendo parte de um passado. Assim é que emprego, salário, horários fixos, registro de ponto, férias longas e pré-determinadas, estabilidade e diplomas são coisas que estão sendo transformadas e substituídas por outras como trabalho, renda, flexibilidade (de horários, de local de trabalho), folgas diluídas ao longo do ano, produtividade, criatividade, competências e habilidades


O desafio de se reinventar - Foto: 61015/Canva

Eu sei, e você também deve saber: é muito conteúdo para ser digerido, mas espero que não lhe falte ânimo e disposição para isso, até porque há muita coisa boa nessas mudanças, capazes de proporcionar um desenvolvimento pessoal e profissional muito significativo. E cá para nós: se temos aptidão para nos acostumarmos com tantas coisas na vida (mesmo as ruins), porque não haveremos de abraçar o que nos favorece?


Outras gerações que nos desculpem, mas nós, quarentões e cinquentões, somos aqueles a quem tem cabido os maiores desafios (pelo menos até aqui). Temos sim navegado por águas mais turvas, turbulentas, em pé e com cada um dos pés em barcos diferentes, tentando nos equilibrar rumo ao momento em que conseguiremos finalmente pular para o barco que nos leve, mais rapidamente e com segurança, a dias de maior tranquilidade e satisfação. E isso em relação a nós mesmos, ao trabalho que excutamos e à vida como um todo.  


Ressignificando  


Todo mundo conhece a famosa frase de Charles Darwin em sua Teoria da Evolução: “não é o mais forte das espécies que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. Fazendo uso desse preceito científico para reforçar o que estou trazendo até aqui, e tentando colaborar no sentido de que a adaptação possa de fato acontecer, lanço uma palavrinha que considero mágica nesse contexto: ressignificação. Acredito que para conseguirmos essa tão necessária adaptação às mudanças no universo do trabalho, temos antes que:


. Refletir sobre o que temos feito até aqui


. Descobrir se isso ainda está adequado à realidade que nos cerca


. Identificar o que estamos obtendo como resultados


A depender das respostas que virão, a ressignificação se impõe soberana. E sinceramente acho que o mundo do trabalho esteja a aguardar um ponto de intersecção nesse sentido, onde as suas demandas possam ser atendidas em pleno alinhamento com as nossas novas possibilidades. Nos últimos tempos tenho visto e ouvido pessoas nesta nossa meia-idade (e até quem ainda não a alcançou), meio cansadas e desanimadas pelo que têm feito, e repensando firmemente a sua caminhada no universo do trabalho.


Às vezes a ressignificação no campo do trabalho, se limita apenas a fazer de forma diferente o que sempre se fez de um só jeito, adequando o ‘fazer diferente’ à pessoa que se é hoje. É claro que muitos de nós continuam trabalhando e assim seguirão por muito tempo. Mas penso que nesta altura da vida devemos nos esforçar para encontrarmos, acima de qualquer outra coisa, prazer e alegria no trabalho que realizamos.


Adequando o modo de trabalhar - Mídia Wix

Eu mesma sou um autêntico exemplar dos que se encontram em processo de ressignificação profissional. Após 30 anos trabalhando na área de pesquisa de opinião pública e de mercado, voltada para o atendimento de determinados públicos e segmentos econômicos, decidi não apenas virar a página, mas encerrar um livro e dar início a outro, um segundo volume da minha história. Ou como o título deste artigo: virar a chave de um velho cenário de trabalho para uma nova vida.


Nesse processo, hoje tenho total consciência de que o meu primeiro livro foi escrito por muitos colaboradores, alguns com muito mais expressão do que eu mesma, ao passo em que neste novo eu me lanço à condição de autora solo. Sou a protagonista do volume dois desta também segunda metade da vida. E isso tem sido uma sensação muito boa! Um privilégio que por mais difícil que pareça, é possível. Há que se acreditar, enfrentar e persistir. Sempre elas, as palavrinhas mágicas.  


Adequação e quebra de tabus


No meu caso específico de enfrentar a necessidade de reinventar a minha atuação profissional, não se tratou de abandonar os aprendizados e experiências adquiridos ao longo de todos esses anos, e nem de ignorar uma ferramenta tão importante quanto a pesquisa (seria impossível). O que estou fazendo é, entre muitas outras coisas, trabalhar com públicos que hoje são do meu total interesse e com os quais me identifico; me sentir efetivamente colaborando para a construção de uma realidade mais favorável a quem está envelhecendo e aos que já estão vivenciando a velhice e, por último (e mais empolgante), testar tudo o que ambiciono fazer em total conformidade com a minha verdadeira essência, minha percepção de mundo, meus valores e princípios.


Nesse processo de ressignificação nesta altura da vida, algumas questões vieram à tona e foram por mim acolhidas para reflexão:


. Hoje, o dinheiro é o que mais me motiva? Se não é, o que mais me motiva?

. O que mais me chateia ou faz sofrer no meu trabalho hoje?

. Quais as maiores dificuldades que tenho hoje para trabalhar?

. O que eu sempre gostei ou gosto muito de fazer hoje em dia?

. Tive/tenho um sonho ou desejo em se tratando de trabalho ou profissão? 


Defina um tempo que considere razoável (dias ou semanas) e vá fazendo perguntas a si mesmo, todas as perguntas que vierem a sua mente. Escreva-as e depois comece a respondê-las com toda a sinceridade possível. Esse é um exercício de autoconhecimento que vai ajudar num possível processo de reinventar a sua vida no mundo do trabalho. E esteja certo de que muitos tabus já foram ou estão sendo quebrados:


. O importante é ter o trabalho e não o emprego

. Cargos e ocupações não têm mais correlação direta e restrita a uma área própria e específica. Outros conhecimentos, experiências, competências e habilidades contam tanto quanto

. Muita gente com curso superior está buscando o aprendizado dos cursos técnicos

. Títulos acadêmicos não mais reinam absolutos no mundo do trabalho

. Criar um negócio não é mais um ‘plano B’ diante da falta do emprego, mas uma oportunidade desafiadora e impulsionadora de coisas hoje muito valiosas como criatividade, liderança, resiliência e autorrealização  

. Errar é mais do que humano, e quem diria, se transformou em valor em trajetórias que perseguem o sucesso


Nunca fui dada a contar os anos para a aposentadoria, e em grande medida porque coloco o trabalho como um importante item da cesta básica da boa saúde física e mental, onde já se encontra o exercício físico, a boa alimentação, a ingestão de água e o sono. Figuras famosas como o arquiteto Oscar Niemayer, Jô Soares e Sílvio Santos ficaram também conhecidas pelo tanto que produziam e trabalhavam já bem avançados em suas idades (Oscar Niemayer inclusive centenário). E não raras vezes louvavam o trabalho como algo que não lhes pesava, muito pelo contrário, não se imaginavam na vida sem a companhia do mesmo.


Mas não são só celebridades que enxergam vida no trabalho. Já vi e continuo vendo gente comum que não pensa em parar de trabalhar porque consegue identificar os malefícios que isso pode trazer à vida como um todo. Então não dá para ignorar uma possível necessidade de reinvenção num contexto como esse. Força na peruca, mãos à obra e até a próxima!!!


Antes me diz aqui: você já pensou ou está pensando em como se reinventar na sua realidade de trabalho?  

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