Como dar a 'volta por cima' no preconceito contra a idade no mercado de trabalho
- velhicesemmedos
- 22 de jul. de 2024
- 8 min de leitura

Já parou para pensar em algo mais do que a sua idade como possível empecilho para conseguir se reinserir no mercado de trabalho ou mesmo alcançar uma posição há muito almejada, mas ainda não vislumbrada no horizonte real das possibilidades? Ainda não? Então pare o que estiver fazendo e veja o que tenho pra te dizer sobre como dar a ‘volta por cima’ no preconceito contra a idade no mercado de trabalho.
Nos artigos que tenho escrito até aqui há uma expressão (e quase sempre recomendação) que utilizo muito, e acredito será mesmo um mantra que acompanhará os meus textos na maioria das vezes aqui no blog. A expressão é a seguinte: “é preciso quebrar paradigmas!” E neste momento digo mais: para além de serem quebrados, alguns paradigmas devem ser também incinerados, enterrados e, se possível, para todo o sempre. Amém!
Nós, quarentões e cinquentões, crescemos testemunhando que quando alguém passava dos 40 anos de idade começava a ser rejeitado pelo mercado de trabalho. Geração pós geração essa continua sendo uma queixa entre aqueles que vão se adiantando na maturidade. Mas, espera aí, isso já não estará cheirando a mofo num mundo, como vimos dizendo, marcado por tanta transformação? Isso de fato faz sentido numa realidade onde as pessoas estão facilmente atingindo 70, 80, 90 anos de idade? Muitas delas ainda gozando de boa saúde física e mental? Não, há no mínimo uma inadequação que precisa ser corrigida nessa nova realidade.
Se, como determina a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre os 45 e 59 anos de idade estamos na metade de nossas vidas (daí o termo meia-idade), e partindo do fato de a vida estar se alongando tanto, então em termos profissionais ou de trabalho estamos vivenciando não a deterioração ou o fim das nossas atividades produtivas mas creio que exatamente o contrário, ou seja, a maturidade ou o esplendor delas. Então, atenção! Esse é o ponto: devemos partir dele e a ele retornarmos sempre até que as coisas comecem a mudar.
A esse raciocínio somo outro que acredito importante: há alguns anos o contingente de jovens está encolhendo em todo o mundo. Então já não é mais o caso de os “velhos” cederem lugar aos novos no mercado de trabalho. Hoje também muitos jovens já não têm mais como ‘sonho de consumo’ uma vaga de emprego para chamar de seu, e nele permanecer por muitos anos ou até que ‘a morte os separe’. Pelo contrário, há uma mentalidade inovadora de serem capazes de criarem as suas próprias oportunidades de trabalho, dando vazão a desejos e necessidades como criatividade, liberdade, flexibilidade, diversidade de conhecimentos, enfrentamento de desafios etc, muito diferente de um passado não tão distante, onde segurança e estabilidade eram as principais motivações da juventude na vida profissional.
É claro que uma questão como essa é muito complexa, envolve uma variedade enorme de fatores a serem trazidos à tona e analisados sob os mais diferentes aspectos, mas desfrutando da liberdade de não sermos especialistas no assunto podemos, pinçando apenas alguns desses fatores, como a longevidade, a diminuição de pessoas jovens para trabalhar (e sustentar uma população crescente de inativos) e a existência de objetivos e interesses próprios e específicos de diferentes gerações, já formarmos um bom caldo para começar a digerir e melhor enxergar essa realidade.
Ajustando o discurso
Então que história é essa da dificuldade de se continuar no mercado de trabalho após os 40? Vivemos em um país de muitos preconceitos, boa parte deles muito bem disfarçados. Nesse cenário, o preconceito contra a idade seria apenas mais um não fossem os danos que ele provoca na condição de vida das pessoas, já que vai contra o direito fundamental ao trabalho, como estabelece a Declaração Universal dos Direitos Humanos. É, portanto, um preconceito com alto grau de perversidade, especialmente contra um ser humano que se encontra mais vulnerável às adversidades impostas pela passagem do tempo.

Então, amigos e amigas da meia-idade, precisamos nós mesmos, a partir de uma melhor compreensão dessa realidade, abandonarmos a condição de vítimas e partirmos para a ação, conduzindo o processo rumo à transformação desse estado de coisas (evidentemente não estou negando a realidade, mas às vezes há coisas que sequer existem ou chamam a atenção, mas de tanto repetirmos acabam ganhando vida própria, visibilidade e notoriedade). Penso que ninguém caminhará com os nossos sapatos. Cabe a nós, que sabemos onde eles apertam, lutarmos por nosso espaço no mercado de trabalho. E como falei no início deste artigo sobre enterrarmos certos paradigmas, considero esse nosso protagonismo uma ação estratégica nessa luta.
Claro que não será apenas a nossa ‘indiferença’ ao discurso do “abaixo os 40+ no mercado de trabalho” que trará os resultados de que precisamos. É preciso atenção, foco e mão na massa. Vou trazer aqui aquela metáfora bíblica de que ‘muitos serão chamados, mas poucos os escolhidos’ pra tentar colocar um ponto de vista pessoal. Penso que podemos ter nos apegado demais ao discurso do ‘com mais de 40 ninguém contrata...’ e, em certa medida, o utilizamos como muletas nessa nossa caminhada profissional ou de trabalho. Então, após um processo seletivo, muita gente volta para casa com a ideia ou o sentimento equivocado de que foi ela, a idade, a única responsável pelo insucesso na concorrência pela vaga. Mas até que ponto isso é verdade?
Evidentemente no mundo do trabalho as coisas costumam ser ainda mais difíceis do que na vida. Afinal de contas é nele onde, literalmente, se depositam os maiores valores criados pelos seres humanos ao longo de sua trajetória na Terra. Mas, no mundo do trabalho ou na vida, uma coisa é certa, especialmente para quem nasceu analógico e tem que suar tanto para ser digital: é preciso estar preparado para o que der e vier. E aqui, em um papel de 'advogada do Diabo', pergunto: será que temos feito a lição de casa desses novos tempos? Ou temos nos embrulhado na bandeira do preconceito contra a idade para esconder as nossas deficiências? Então, como dar a volta por cima do preconceito contra a idade no mercado de trabalho?
Melhor se preparando
Como tratei em artigo recente aqui do blog, nós, da meia-idade, precisamos estar atentos para a importância de aprender a aprender, a fim de não perdemos funcionalidade. Para entrar na disputa por uma vaga, ou ainda para conquistar uma posição melhor dentro da empresa onde trabalha, é preciso se manter competitivo, ou seja, estar sempre bem preparado para o que uma possível oportunidade possa exigir.
Hoje se sabe que a formação ou qualificação técnica, por si só, não é mais o principal fator na seleção de um candidato para uma vaga. O universo do trabalho talvez tenha sido o que mais aderiu às transformações ocorridas no mundo nas últimas décadas, e por isso, mais do que alguém que domine técnicas e métodos, o candidato precisa ter uma série de características e habilidades ligadas à sua personalidade e a relação com as pessoas e com o mundo ao seu redor para fazer frente ao perfil delineado para uma vaga.
Nesse sentido, e ainda que seja muito importante investir na apresentação de um currículo profissional em sintonia com as demandas e boas práticas do mercado, isso só não basta. É preciso antes estar atento aos movimentos da própria vida pessoal. E um bom começo para isso é o exercício de se colocar na condição de observador de si mesmo, o que pouco fazemos nesse mundo de tantas vidas “mais interessantes” do que as nossas. Além disso, motivos não declarados no seu último desligamento profissional podem enriquecer sua autoavaliação (entrelinhas sempre guardam muitas informações, e algumas valiosas).

Uma iniciativa eficiente no exercício da auto-observação pode ser a autoaplicação de um questionário, com indagações do tipo: o que quero e/ou preciso em termos de trabalho ou emprego? O que é necessário fazer para conseguir o que quero e/ou preciso? Tenho feito algo do que é necessário fazer? Por qual motivo não tenho feito o que é necessário? As forças que enxergo em mim são valorizadas pelo mercado de trabalho atual? E as fraquezas que carrego, de que modo posso superá-las? Enfim, são infinitas as perguntas que pode fazer a si mesmo nesse momento, mas com meia dúzia delas acredito que você já consiga ter um norte para basear a sua estratégia de concorrência.
É muito importante estar consciente do que as empresas buscam nos candidatos para além da formação e qualificação técnica. Outros fatores como competências e habilidades sociais relacionadas a um bom desempenho no cargo, como também princípios, crenças e valores que norteiam a vida privada do pretendente à vaga, tem hoje igual ou maior relevância no processo de contratar. A separação entre vida profissional e vida privada está cada vez mais se diluindo. O indivíduo está sendo visto em sua integralidade, o que é muito bom. E se estamos falando de pessoas de meia-idade é de se supor que todos apresentemos muito mais ‘pano para as mangas’ nesse pré-requisito (o que, a depender de como está cuidando de sua vida, pode ou não ser uma vantagem competitiva), oferecendo ao empregador muito conteúdo para alicerçar a sua decisão na escolha.
Outro ponto importante para estar atento é que os processos seletivos hoje funcionam muito diferente do que há alguns anos. As empresas (independentemente do porte), desfrutam de uma série de meios e ferramentas para empreender uma verdadeira investigação sobre os candidatos às suas vagas. Das redes sociais mais populares, passando pelo LinkedIn, muitas podem ser as fontes de informação a seu respeito. Esteja ciente de que neste mundo digital ninguém mais passa despercebido. Deixamos as nossas pegadas por todos os lugares, portanto, estamos muito mais vulneráveis a consequências, sejam positivas ou negativas.
Luz no fim do túnel
Hoje em dia começa a ganhar corpo a percepção de que empresas que se comprometem com a diversidade humana (a etária aí incluída) em seu ambiente de trabalho tendem a conquistar resultados bem mais positivos lá no fim da linha dos seus propósitos e objetivos de mercado. Se um pouco mais atentos, já podemos identificar algo nesse sentido no nosso dia a dia, como nos supermercados por exemplo, onde pessoas mais maduras têm sido utilizadas na estratégia de atribuírem maior credibilidade a produtos e serviços.
É claro que iniciativas como essa ainda se encontram mais restritas a empresas de grande e médio portes, detentoras de verbas mais substanciosas para as áreas de Marketing e Gestão de Pessoas. Mas para fazer justiça acho que mesmo entre as pequenas, e talvez de forma mais prática, empírica e menos formal, ou ainda por questões de mera sobrevivência, já há alguma ação nesse sentido.
O preconceito contra a idade, conhecido mais como etarismo ou idadismo tem ganhado espaços e força nesses últimos tempos pelo mundo afora. E com ele uma série de questões começam a ter maior visibilidade social. Nesse cenário, o mercado de trabalho tem destaque por tudo o que ele representa e proporciona em termos de qualidade de vida de um modo geral. Um maior interesse sobre esse universo vai levar você, quarentão ou cinquentão, a pessoas, grupos, comunidades e organizações as mais diversas, e que tem na maturidade e no trabalho o seu mote de atuação. Um exemplo que conheci há cerca de 4 anos e que achei muito interessante, até porque se tratou da iniciativa de um jovem, é a Maturi. Vale a pena conhecer. Assim, acredito muito que será apenas uma questão de tempo (e não muito) e de um efetivo compromisso nosso com a causa do trabalho pós 40, e esse placar se reverterá ao nosso favor. Quem viver, verá. E tenha certeza, viveremos!!!
Então, me diz aqui nos comentários, o que você tem feito para se manter competitivo no mercado de trabalho? Até a próxima!!!




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