Quem somos quando o trabalho deixa de nos definir?
- velhicesemmedos
- 18 de fev.
- 3 min de leitura

Ele entrou na padaria no meio da tarde e pediu um café. Sentou-se perto da vitrine, sem pressa.
Por muitos anos, bastava dizer o que fazia para que as conversas mudassem de tom. As pessoas escutavam com mais atenção, faziam perguntas, ofereciam a cadeira da frente.
Agora, quando alguém pergunta “e você, está trabalhando com o quê?”, a resposta vem titubeante e longa demais. Às vezes, nem chega ao fim.
O café esfria antes do último gole. Não por descuido, mas porque há silêncios que pedem tempo.
Dia desses, pensando no que escreveria em um novo artigo aqui para o blog, me peguei pensando em como o trabalho funciona como cartão de visitas. E como a ausência dele traz um certo incômodo, nem sempre bem compreendido em sua verdadeira origem.
Já observou como títulos facilitam conversas, acessos, respeitos? Não sem razão, após o nome de batismo, segue-se a denominação: “esta é fulana, enfermeira no hospital ...”. O trabalho funciona como uma referência sobre quem somos, sobre o espaço que ocupamos numa sociedade. Não é vaidade individual, mas regra social.
Ainda que fora do contexto da maturidade, há muitos anos achei interessante (por isso jamais esqueci) o comentário de um primo ainda jovem e não muito animado para o trabalho: ele estava muito aborrecido porque as pessoas sempre perguntavam se ele estava trabalhando.
Para mim, isso prova o quanto a nossa existência está atrelada ao que somos capazes de produzir com o trabalho. Se isso já nos afeta desde cedo, imagine após décadas de cargos, títulos e pertencimentos?
E ainda depois de uma aposentadoria, de uma demissão inesperada, de uma mudança de área ou de uma simples desaceleração? Aí a sensação pode mesmo beirar um certo estranhamento: quem eu sou de verdade, para além do que sempre fui visto?
Um antes e um depois se encontram como que para ajustar as contas. Antes, não havia necessidade de explicações: era-se o que se era, e ponto: podia-se desfrutar das sensações de poder, riqueza, prestígio e outras tantas mais. Agora, há a necessidade de explicações. E às vezes não se é bom o suficiente para convencer o outro.
Nesse sentido, já ouvi pessoas maduras muito mais propensas a dourar a pílula de um passado tido como glorioso, do que dispostas a justificarem uma possível mudança de rumo ou o abraço a um desafio profissional que, acredito, contaria mais positivamente sobre elas hoje.
O desconforto talvez não esteja no trabalho em si, mas na dificuldade de sustentar quem se é para além do cargo. Falta um lugar claro, uma resposta simples para perguntas simples. Permanece um sentimento difícil de nomear.
E sabe de algo que não gosto em definitivo? Quando, por exemplo, vejo na televisão alguém sendo entrevistado e abaixo a denominação “aposentado/dona de casa”. Muitas vezes esse alguém trabalhou ou ainda trabalha em algo profissionalmente. Não poderia ser ao menos: ex-motorista ou ex-empresário? Ou será que se espera que alguém se aposente da própria vida?
Talvez esse seja um dos desafios mais delicados da meia-idade: sustentar quem se é sem precisar apresentar um cargo como prova. Penso que, quando o trabalho deixa de ser o centro da narrativa, outras dimensões podem ganhar voz.
Passamos a vida inteira presos a valores, missões e visões que nem sempre eram realmente nossos, embora, como dito, possam ter nos proporcionado lugar e identidade no mundo. Mas a maturidade nos traz a consciência de que isso não nos representa de fato, o nosso valor pessoal não depende de uma função da qual ou já nos libertamos —ou estamos prestes a nos libertar.
Se o trabalho não precisasse mais nos justificar, o que, em nós, finalmente teria espaço para aparecer?
Até a próxima!




È mesmo assim , trabalhamos a vida toda, nôs aposentamos e, agora uma vida quase que vazia. Creio que será sempre desse mesmo maneira que somos vistos,
E olha que somos uma legião de aposentados, numa condição que parece não nos pertencer.
Muito interessante o texto e reflexivo. Parabens Monica !