Qual nota você daria para a qualidade das suas memórias?
- velhicesemmedos
- 7 de out. de 2024
- 4 min de leitura

Que atire a primeira pedra quem, nesta nossa fase da meia-idade, ainda não tenha olhado para trás e assistido ao filme da própria existência. Por menos interessante que possamos considerar as nossas vidas, muitos são os acontecimentos que foram nos moldando ao longo dos anos, sem mesmo percebermos a transformação, até chegarmos aqui onde estamos. É um processo natural, pelo qual todos passamos.
As fases da vida vão sendo substituídas, e tenho a impressão que nos falta consciência para vivermos cada uma delas em sua total plenitude. Na infância somos apresentados ao tempo, e dele nada sabemos. Na adolescência e juventude nos deleitamos com ele numa relação descompromissada. Na fase adulta são tantas as responsabilidades que o ignoramos solenemente no estilo “tenho mais o que fazer”.
Então chegamos à maturidade, e após as tantas voltas da vida, nos espantamos com o reencontro com o tempo. E agora percebemos o quão distante e pouco amistosa foi a nossa relação com ele. E agora, mais transformados, o enxergamos com mais clareza. E por finalmente conseguir ser melhor percebido, ele se aproxima sem cerimônia, como um grande e velho amigo que decide não mais estar distante, porque respeitado e valorizado.
Mas nessa passagem acelerada do tempo, perdemos pedacinhos da nossa verdadeira essência. Aquilo que nasce conosco e que é tão bem aceito, cultivado e cuidado ao longo dos nossos primeiros passos e anos da infância, vai ficando pelo caminho. Mas esses pedacinhos, apesar de irem se espalhando pela jornada da vida (muitas vezes tortuosa), obedecem aos caprichos do tempo e conseguem resistir às muitas ventanias. Permanecem então como que grudados no solo, acreditando servirem de sinalização num possível caminho de volta.
Acho simplesmente fantástico, nesta fase da vida em que nos encontramos, refletir sobre o tempo e remexer as nossas memórias. Independentemente da vida que vivemos até aqui, se a consideramos ou não satisfatória, o fato é que se trata de uma vida humana, e nenhuma é menor do que outra. E se ainda não foi possível fazer dela o que sempre se quis, talvez seja porque o melhor momento ainda não tenha se apresentado. Mas desconfio muito que o melhor momento é agora, com a maturidade e experiências que adquirimos.
Não há necessidade de reflexão para enxergarmos uma relação direta entre tempo e memórias, e concluirmos que somos feitos delas. Os melhores momentos de nossas vidas são aqueles em que relembramos coisas boas do passado (já disseram por aí que “recordar é viver”). É só pensar nos encontros de família, na infância dos filhos, nos colegas de escola ou faculdade, nos amigos de uma vida, nos vizinhos de longa data. É só pensar na própria infância, nos romances que tivemos, nas experiências profissionais ou de trabalho. Tudo se resume a memórias.
É claro que cada memória traz consigo sentimentos e emoções, que podem ser bons ou ruins. E sobre as memórias passadas, principalmente as negativas, pouco ou nada temos a fazer. O que em alguma medida o tempo nos ajudou foi como melhor reagir a elas hoje, no alto da nossa maturidade. Mas, e sobre as memórias que podemos começar a construir agora? Será que não contamos com todas as condições para serem as melhores possíveis? Com certeza contamos!
As memórias que guardamos têm fundamental importância naquilo que somos na vida. Em boa medida elas se relacionam com o nível de saúde mental e emocional de que desfrutamos. Então, se até certa fase da vida pouca ou nenhuma consciência tivemos sobre isso, a partir da maturidade temos condições de exercer algum controle, a fim de que possamos construir uma realidade mais positiva já para o aqui e o agora.
Precisamos estar muito conscientes do poder e responsabilidade que temos de construir um bom e rico acervo de memórias, pois será ele que nos ajudará a melhor viver os anos da velhice. É claro que as memórias que começarmos a construir hoje não apagarão ou substituirão as do passado (considerando que muitas delas possam ser ruins, tristes ou negativas), mas o diferencial é que hoje temos a consciência do quanto elas precisam ter mais qualidade.
Nesta semana em que nos aproximamos do Dia da Criança, e ainda que as fases da vida tenham nos moldado à nossa própria revelia, que consigamos resgatar os pedacinhos perdidos da nossa essência, o melhor de nós. Que o caminho desse resgate nos leve de volta à criança que fomos, à fonte do que somos. E que bebendo novamente da água dessa fonte nos sintamos revigorados, e ganhemos impulso para construirmos novas e felizes memórias para os anos vindouros.
E nessa construção de novas e felizes memórias, é fundamental estarmos atentos a alguns elementos básicos. Com certeza, nas nossas melhores lembranças não faltaram pessoas, encontros e reencontros, sorrisos, lugares, pequenos prazeres, sonhos realizados, simplicidade, alegria e espontaneidade. Então, mãos à obra! Lembre-se: nossas memórias, nossas melhores companhias, especialmente na futura velhice e nos dias de provável solidão. Boa construção e até a próxima!!!




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