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E às favas a tal da coerência!

velhicesemmedos
30 de set.
3 min de leitura
Imagem produzida por IA
Imagem produzida por IA

Às vezes, na falta do que criticar, criticamos o fato de uma pessoa ter mudado de ideia, de lado ou de comportamento frente a algo que víamos como cristalizado em sua vida. Num momento desses, chegamos a ser irônicos e até mesmo sarcásticos, como se o fulano ou a fulana não merecesse mais um pingo de consideração.


Como se tivéssemos autoridade para tanto, nos sentimos no direito de cobrar um mínimo de coerência. Onde já se viu passar a vida inteira dizendo uma coisa e depois, hoje, fazer outra? Vejo esses irmãos de caminhada com muita perplexidade. Como podem viver com tamanha rigidez num mundo que se transforma a cada dia?


Mudar de ideia é ser incoerente?


Mas talvez haja aqui uma confusão. Mudar de ideia, por si só, não significa ser incoerente. Incoerente talvez seja continuar defendendo aquilo em que já não acreditamos apenas para permanecermos fiéis à pessoa que fomos um dia.


É como olhar para uma foto pessoal dos anos 70 ou 80 e ter uma visão superficial, enxergando apenas o ridículo das roupas e dos cortes de cabelo da época. Acho importante fazer o exercício de ir além, tentando identificar o conteúdo que carregávamos por aqueles tempos e analisar se ele ainda faz algum sentido. Afinal, ninguém se sente obrigado a continuar usando a mesma roupa ou o mesmo corte de cabelo de décadas atrás em nome da coerência. Por que haveríamos de exigir isso das nossas ideias?


Há algumas décadas, as ideias e concepções de mundo pareciam circular e se transformar em outro ritmo. Tudo fluía mais lentamente, nos dando mais tempo para reflexão, aceitação e adaptação, caso ela fosse mesmo importante. Mas e hoje? “Hoje o tempo voa, amor! Escorre pelas mãos”.


Hoje promovemos infinitas discussões com nós mesmos, desachando já pela manhã o que achávamos ainda ontem, na hora de dormir. É muita informação, é muita produção de conhecimento, é muita liberdade para criar e experimentar, para ser quem você quiser. É muito espaço, inclusive, para errar, corrigir rotas e recomeçar. E sem que isso pareça fracasso.


Portanto, vejo com espanto pessoas que se metem a cobrar coerência de outras pessoas por aí afora — geralmente das mais próximas. Parecem não perceber que mudar pode ser justamente uma resposta coerente ao mundo que mudou ao nosso redor. Mas é mais fácil apontar o dedo.


Suspeito que, de tão rígidas, algumas estejam mesmo quebradas pelas bordoadas deste mundo alucinante. Daí a acusação, que pode ser simplesmente uma atitude de reação diante de uma realidade que as atropela sem dó nem piedade. E como poderia ser diferente?


Porque, diversamente de quem se vira nos 30 para conseguir alguma flexibilidade nessa nossa realidade — e, com ela, trazer leveza à vida —, os defensores dessa coerência a qualquer custo carregam o peso de um mundo que não existe mais. É como se fossem atormentados por um fantasma que não se cansa de achar graça de tanta falta de noção.


São tantos os temas em pauta o tempo todo. E tamanha a produção de conhecimento e disseminação de informação — também de desinformação — que estranho seria se não fôssemos impactados por toda essa massa crítica e se não tivéssemos a capacidade de absorção e reavaliação dos nossos valores, pontos de vista e concepções de mundo.


O que fizemos com tudo o que vivemos?


E talvez isso faça ainda mais sentido para quem já carrega algumas boas décadas de estrada. Se aos 50, 60 ou 70 anos continuamos pensando exatamente como pensávamos aos 20 ou 30, o que fizemos com tudo o que vimos, ouvimos, experimentamos, erramos e aprendemos nesse intervalo?


Já mudei tantas vezes de ideia, já achei que era uma coisa e descobri ser outra, já fui e vim em tantas direções, que não sei o que seria de nós, humanos, se resistíssemos a atender essa necessidade natural de nos movimentarmos em direção à nossa lapidação. Porque tudo é processo.


Olha, que eu não encontre nenhum dinossauro desses pela minha frente cobrando-me coerência. Porque vou ficar com muita pena, principalmente se ele tiver, como eu, algumas boas décadas de estrada. Ficará claro que a poeira do caminho só serviu para embaçar a visão. E, ao que parece, de forma definitiva.


Então, que ele continue evitando ovos, comendo margarina Becel e achando que homem que curte rosa é mesmo veado. Sem paciência pra esse tipo de coisa.


E às favas a tal da coerência — aquela que nos obriga a permanecer fiéis ao que fomos, mesmo quando a vida já nos deu motivos de sobra para sermos diferentes.


Até a próxima!


Por Mônica Moraes

Socióloga | Autora do blog Velhice sem Medos

 

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