Como não cair na armadilha de não viver a própria vida
- velhicesemmedos
- 14 de out. de 2024
- 4 min de leitura

Você já deve ter ouvido dizer que “o perigo mora ao lado”, mas vou mais longe: acho que muitas vezes ele divide o mesmo espaço conosco, e frequentemente estamos alheios a essa realidade. É difícil mesmo, no burburinho da nossa rotina diária, conseguirmos enxergar um desvio de rumo ou algo semelhante na vida. Mas é necessário fazermos um esforço para não cairmos na armadilha de não vivermos a própria vida.
Mergulhados no imediatismo das infinitas atividades do nosso dia a dia, pouco ou nenhum tempo reservamos para algumas reflexões estratégicas em relação ao destino das nossas existências. E se tem algo que não pode acontecer nesta nossa fase da meia-idade é ficarmos à deriva da própria vida, porque já dispomos de muitas ferramentas de controle nesse sentido. Mas infelizmente isso acontece, e sem que tenhamos muita consciência.
Nos últimos anos tenho me empenhado para desenvolver a capacidade de me distanciar da minha realidade para conseguir me ver de fora e do alto, a fim de melhor poder observar os meus movimentos. É mais um exercício que tenho achado interessante no caminho do autoconhecimento, porque facilita a identificação de atitudes e comportamentos que de algum modo podem estar travando a vida.
Apesar de muito confete e serpentina rolando ao som do “a vida começa aos 40”, muita gente entre nós da meia-idade anda vivendo outra vida que não a sua. Sem que pudessem perceber se disponibilizaram tanto para outras pessoas que, é fato, ganharam maior visibilidade e prestígio na vida delas, mas também responsabilidades e pouco espaço para manobras em suas próprias vidas. São pessoas que apesar de independentes, estão colocando a sua autonomia em risco.
Quem não tem projeto acaba sendo parte do projeto de alguém
Penso que entre nós há muita gente sendo apenas parte do projeto de filhos e companheiros(as), da vida de netos em crescimento, da rotina de pais já idosos, e dos planos de qualquer outra pessoa com que tenha algum laço afetivo mais significativo. Eu sei que alguns podem dizer que se sentem muito bem assim, principalmente em se tratando de filhos e netos, já que há toda uma cultura de apologia da responsabilidade e da dedicação eternas e sem limites nesse sentido.
Mas será que esse bem-estar não estará camuflando outros sentimentos e até mesmo necessidades inconscientes? Será que ele perdurará por toda a vida ou será que o risco da sensação de uma vida vazia já não estará à espreita, aguardando o momento de mais à frente mostrar as suas garras devastadoras? Seres humanos são sofisticados demais para passarem pela vida sem expressarem o que são de fato. Deus, como deus que é, jamais perderia tempo com tanta sofisticação sem que esperasse resultados à altura.
Não dá para ‘tapar o sol com a peneira’
Conscientes das nossas tantas imperfeições, sabemos que nossas relações também se orientam por níveis de utilidade e prazos de validade. Então, em algum momento a nossa presença na vida de filhos, netos e companheiros (as), entre outros, pode deixar de ser percebida com a importância que acreditamos ou nos acostumamos, e aí poderemos nos tornar invisíveis, simples apêndices ou até mesmo indesejáveis. Então o que nos restará? Como não cairmos na armadilha de não vivermos a própria vida?

Penso que poucas são as coisas que dão tanta satisfação como a capacidade de escrevermos a nossa própria história, de sermos os condutores das nossas existências. Abrir mão disso é abrir mão da própria vida. Não dá para acordar pela manhã apenas para atender a demandas fisiológicas, compromissos burocráticos de mais um dia, e nem para cumprir tarefas que não são próprias da nossa vida. Precisamos ter motivação para pularmos da cama para darmos continuidade à construção dos nossos próprios interesses. E isso varrendo para longe sentimentos sabotadores de individualismo, egoísmo, egocentrismo e tudo o mais que os valham.
É preciso ter projetos
Devemos não exagerar na generosidade, disponibilidade e proatividade em relação aos que amamos, lembrando sempre que o que diferencia o remédio do veneno é a dose. Devemos nos interessar em criar projetos (isso mesmo, no singular). Esqueça o desafio de elaborar aquele grande ‘projeto de vida’ porque isso pode te prender no papel por um tempo muito maior que o necessário. O ideal é criar e construir pequenos projetos pessoais, cuja pretensão maior seja a da realização em si mesma.
Os projetos têm a capacidade de transformar os nossos sonhos, ideias e desejos em realidade. E ao fazerem isso, também nos transformam, levando-nos a outros patamares de saúde integral, de plenitude e de evolução moral, intelectual e espiritual. E isso tudo pode até nos conduzir ao dia em que olharemos para trás e nos surpreenderemos com o tanto que conseguimos realizar. E pensando em vidas cada vez mais longas como serão as nossas, é preciso dar maior sentido a elas.
Como seres humanos cada um de nós é único, e especialmente nesta altura da vida carregamos uma bagagem muito rica de conhecimentos e experiências, até mesmo algumas boas habilidades (às vezes não desenvolvidas em todo o seu potencial) que podem (e devem) ser melhor explorados e expressados por meio de projetos pessoais carinhosamente criados para serem colocados em prática. E se esses projetos ainda conseguirem atrair e envolver outras pessoas e impactarem vidas, a realização pessoal será pura consequência. Nada mais haverá de tão motivador na vida.
E aí, vamos começar a projetar? Até a próxima!!!




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