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Não é amor: por que alguns homens não aceitam o fim de um relacionamento?

  • velhicesemmedos
  • 8 de mar.
  • 4 min de leitura
Foto: Christina & Peter/Pexels
Foto: Christina & Peter/Pexels

Foi intencional atrasar em 4 dias e publicar este artigo somente hoje: Dia Internacional da Mulher. Pensei que talvez ele pudesse ser capaz de trazer um pouco de reflexão à profusão de homenagens bonitas — naturalmente superdimensionadas nesta data especial.


É claro que é motivo de muita alegria poder contar com uma data reservada para nós: receber belas e gratificantes mensagens, e quem sabe até uma rosa ou uma caixa de bombons. Porém, que atire a primeira pedra quem, neste dia, e de alguma forma, não tiver o seu coração tocado pela tragédia nacional chamada feminicídio.


Eu não sei você, mas para mim está muito difícil conviver com a mortandade de tantas mulheres no Brasil nos últimos anos. É verdade que violência doméstica sempre existiu, mas não há um dia sem que saibamos de crimes cometidos por um atual ou ex-companheiro. E não há lugar, nem classe social, nem idade, nem cor, nem nada.


E para além disso, a minha sensação é a de que estamos como que enxugando gelo. Leis foram criadas, a polícia melhor preparada e aparelhada, um leque de órgãos e entidades de atenção e apoio às vítimas, e várias outras iniciativas menos visíveis.


Acredito que muito tem sido feito pelo poder público. Mas me parece que, apesar de robusto, esse esforço tem sido insuficiente. Nesse caso, o buraco é bem mais embaixo. E necessita de um exército de homens e mulheres para travar um bom combate.   


Nós, maduros que somos, sabemos que muitas coisas no mundo se transformaram nas últimas décadas. Mas, apesar disso, há comportamentos que parecem resistir às mudanças. Ou mais que isso: ganharam até mais força.


A raiz cultural do problema


A construção e manutenção de uma sociedade baseada no poder masculino, infelizmente, e alheia à realidade, ainda preserva defensores. E mais lamentável que isso, é constatar presença feminina em tal grupo. Ainda há mulheres que, muitas vezes sob o silêncio que consente, colaboram para a manutenção de um estado de coisas que já não fazem mais sentido (ou talvez nunca tenham feito).


É preciso ter em mente que quem ainda continua sendo a maior responsável pela educação dos filhos somos nós, as mulheres. Então, desde que tenhamos a compreensão de que os homens não são melhores e nem têm mais direitos que nós, podemos trabalhar muito efetivamente contra essa triste realidade. E aqui a questão não é de feminismo ou competição, mas de respeito. Em última análise, de preservação da vida.


Educar meninos livres de concepções machistas e de poder, me parece ser das melhores estratégias para bons resultados a médio e longo prazo. Mas para o aqui e agora, tem-se que assumir urgentemente a postura de combate a todo e qualquer comportamento, discurso ou atitude que coloque um homem na condição de controle e posse de uma mulher.


Penso que a melhor homenagem que nós, mulheres, poderíamos ganhar — não apenas hoje, mas em todos os dias futuros, até que essa realidade seja alterada — seria ver homens de bem e inteligentes, que têm mães, filhas e mulheres, juntarem-se a nós no combate a tudo o que alimente a percepção de que aos homens cabe uma condição de superioridade frente às mulheres.  


Quando o fim de um relacionamento vira perigo


É interessante observar também que homens não matavam mulheres diariamente porque elas simplesmente decidiam por vestidos mais curtos ou decotes mais baixos; porque escolhiam não ter filhos; porque queriam trabalhar para viver melhor; porque queriam estudar, exercer uma profissão, ganhar dinheiro.


Mas agora, muitos matam porque simplesmente não aceitam o fim do relacionamento? Me digam: que mulher mata um homem alegando o mesmo motivo? E olha que nesse drama que vivemos, não são poucas as que dependem financeiramente do companheiro.


E por qual motivo é tão difícil aceitar o fim de uma história? O amor é tão grande assim ou há algo mais por trás dessa tão intransponível dificuldade? Ao que parece, as mudanças por que nós, mulheres, temos passado, também têm beneficiado muitos homens, talvez sendo difícil aceitar a hora do ‘largar o osso’.


Alguns não teriam a vida que têm, não fosse a companheira que em algum momento da vida foram capazes de conquistar. No mínimo o relacionamento ofereceu conforto emocional e psicológico — e isso não é pouca coisa para mentes perturbadas, que planejam com frieza e executam com elaborados requintes de crueldade.


É claro que muitos podem ser os motivos que levam ao fim de um relacionamento. Mas pessoas que não agregam — e isso serve para homens e mulheres — e que sugam os recursos do outro (energia, tempo, paz, dinheiro e status) costumam ter prazo de validade não muito longo. E isso não deveria resultar em risco de morte para as mulheres.


Choque de realidade


O fato é que muitas vezes o problema não é enfrentado no momento que deveria. E ele vai crescendo em meio a ciúme extremo (disfarçado de amor e cuidado), controle, isolamento, silêncio e ameaças. Além da crença ilusória de que determinadas coisas na vida só acontecem com os outros. Até que um dia os outros acabam sendo nós.


Quando uma mulher é brutalmente assassinada, como estamos nos cansando de ver, existe por trás dela uma rede de relacionamentos profundos (filhos e mães os mais especiais). Pessoas que conviverão com um trauma, uma dor e um vazio dilacerantes pelo resto da vida. Quantas de nós, nesta nossa meia-idade, não estão enfrentando essa realidade?  


Que este 8 de março nos leve à reflexão de que nós, enquanto sociedade, temos urgentemente que arregaçar as mangas na luta contra essa ferida aberta que tanto tem nos entristecido e envergonhado. Que tantas crianças órfãs de pai e mãe têm produzido.


Numa sociedade saudável, o fim de um relacionamento entre duas pessoas é apenas o fim de uma história. E todas as histórias acabam um dia. Cientes disso, talvez seja melhor começá-las como dizia o nosso saudoso poetinha: “que seja eterno enquanto dure”. Mas é ousar demais falar de poesia pra quem sequer sabe o que é amor.


Até a próxima!

1 comentário

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Marly Trigueirinho
11 de mar.
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Achei excelente o texto com uma reflexão prática e muito oportuna. Vamos nos juntar a uma causa tão necessária e nobre. O poder popular tem visibilidade. As mulheres são como água: juntas somos forte e temos força!!!

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